Para manter o SUS vivo

Pandemia mostrou à opinião pública um sistema com suas insuficiências, mas com muitas virtudes. Que a admiração vá além das frases de orgulho.

Thiago Lavras Trapé, O Estado de S.Paulo

19 de fevereiro de 2022 | 03h00

A cena do pequeno Davi Seremramiwe, de 8 anos, abrindo a imunização das crianças brasileiras contra a covid-19 consegue sintetizar os pilares que sustentam um bom sistema de saúde. Temos uma profissional de saúde treinada; o insumo, produzido após ampla pesquisa; um serviço no qual este insumo é acondicionado e, depois, colocado à disposição da população; assim como uma governança que permite as diferentes responsabilidades entre governos federal, estaduais e municipais, que vai da compra à distribuição e aplicação.

Estes pilares, por sua vez, se despedaçam com o aumento expressivo de demandas assistenciais, como na pandemia, somado a um expressivo número de profissionais afastados do trabalho. É impossível que qualquer estrutura se multiplique em tão curto espaço de tempo, pois a cadeia produtiva, por mais ágil que possa ser, não tem essa elasticidade. Isso não se dá por má gestão apenas (como no caso de Manaus, no ano passado), mas sim pelo tempo necessário para formar um profissional, pesquisar, montar serviços, produzir insumos, etc.

O isolamento social obrigou instituições e profissionais de saúde a se reinventarem, rompeu barreiras de incorporação de tecnologias que estavam prontas, mas ainda sem regulação e adesão, e inseriu milhões de pessoas no mundo da saúde digital. Somado a isso, o caloroso debate em torno do que é ou não “evidência científica” para definir as práticas assistenciais assume protagonismo na formação profissional. A pesquisa reassume sua importância, para além do empirismo e da opinião.

Pede-se um novo perfil de profissional da saúde, não apenas focal, mas com visão integrada de sistema de saúde, pesquisa, gestão e epidemiologia. Somam-se a essas disciplinas a inovação e a incorporação das novas tecnologias. Profissionais e instituições formadoras que não se atentarem para esses temas perderão o foguete do desenvolvimento.

Precisamos, também, exigir transparência. Em artigo publicado na revista Nature em 18 de janeiro (The pandemic’s true death toll: millions more than official countsO verdadeiro número de mortos da pandemia: milhões a mais do que as contagens oficiais), estima-se que o número de mortos no mundo por covid-19 seja o dobro (em alguns países, o quádruplo) do registrado nos sistemas de informação oficiais.

Nesta pandemia, não passamos um dia sem olhar os dados sobre mortes, ocupação de leitos, número de casos, entre outros indicadores. Porém os sistemas de informação, centrais para um planejamento bem-sucedido, são frágeis em muitas facetas e refletem pouco a realidade. Para suprir essa insuficiência, vemos a necessidade mundial de organizar esses dados a partir de um pacto global, que estabeleça uma governança para monitoramento e protocolos de eventos futuros que possam acelerar as ações necessárias, capazes de mitigar potenciais novas pandemias.

Vimos, recentemente, o enfrentamento da Anvisa e de outros órgãos aos arroubos do presidente da República e ministros. O sistema pode e deve ter diversos parceiros, públicos e privados. O que seria do Brasil se não fossem os técnicos de carreira, que com autonomia e conhecimento produziram os enfrentamentos necessários diante de tanta mentira, desmandos e afronta às mais robustas evidências? O que seria do Programa Nacional de Imunização, que está há seis meses sem coordenação? Quadros de carreira, técnicos e permanentes em áreas estratégicas são elementos centrais para o sucesso de qualquer bom sistema de saúde do mundo. A política de saúde é de Estado, não de governo.

Não se conhecem ao certo os efeitos da “covid longa”, mas, se as doenças crônicas não transmissíveis já eram as principais causas de adoecimento e morte da população brasileira, agora espera-se um impacto maior. Vale o grifo no tema da saúde mental, que sempre esteve entre os grandes tabus sociais e, agora, vem sendo debatido francamente, diante do aumento expressivo de novos casos. E para o sistema de saúde responder a isso não existe fórmula mágica. A solução está em nós termos uma atenção primária à saúde organizada, investida e forte.

Muitas cenas de crianças sendo imunizadas e emocionadas circulam nas redes sociais e nos telejornais. Vemos, também, imagens de equipes atravessando intempéries para vacinar a população, assim como a criatividade nas estratégias de ampliação da cobertura vacinal. Reverenciamos, também, o dia a dia heroico dos profissionais de saúde, entre tantas outras ilustrações. De fato, o SUS ganhou novos admiradores. Trouxe para a opinião pública um sistema com as insuficiências de sempre, mas com virtudes que não cabem neste artigo, de tantas que são. Para além de frases de orgulho, que continuam a varrer as redes sociais nesta hecatombe sanitária que vivemos, espera-se que as pessoas que ecoam o mantra “viva o SUS” ajudem a manter o SUS vivo.

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DOUTOR EM POLÍTICA, PLANEJAMENTO E GESTÃO PELA FACULDADE DE CIÊNCIAS MÉDICAS DA UNICAMP, É DOCENTE DA FACULDADE SÃO LEOPOLDO MANDIC E COORDENADOR DO PROJETO HUBCOVID

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