Para onde olhar em 2021?

Além da geopolítica, o desenlace da crise mundial da covid-19, com suas repercussões

Paulo Roberto da Silva Gomes Filho, O Estado de S.Paulo

18 de janeiro de 2021 | 03h00

O ano que se encerrou demonstrou da forma mais difícil que o inesperado está a nos espreitar, modificando a realidade, interrompendo planos, provocando adaptações, causando perplexidades, trazendo medo e exigindo reação. Apesar de vários alertas e estudos predizerem a possibilidade e os efeitos potencialmente catastróficos de uma pandemia, ninguém estava prestando atenção nisso e a covid-19 pegou todos de surpresa.


E agora, no início de 2021? De onde virá a surpresa? Bem, se pudesse ser prevista, não seria surpresa... Mas, com base nos indícios disponíveis, é possível ao menos selecionar alguns assuntos internacionais em que devemos concentrar nossa atenção.

O primeiro e mais óbvio refere-se aos possíveis rumos da política externa norte-americana no governo Biden. Espera-se um retorno ao multilateralismo, com o país buscando legitimar suas ações sob o respaldo de entidades como a ONU, a Otan, a OMC, etc. Mas para isso o país terá de reconquistar muito espaço perdido nesses organismos, como demonstra o caso da Organização Mundial de Saúde, claramente sob influência preponderante da China.

Aliás, o relacionamento dos EUA com a China deveria ser um foco primordial de atenção. Nesse caso, não se esperem grandes modificações no ambiente de confrontação geopolítica, com os EUA tentando conter a crescente influência da China, enquanto os chineses buscam expandir seu poder e seu prestígio em escala mundial. Um exemplo fácil de observar dessa tentativa de expansão será notar a presença de produtos culturais chineses disponíveis para consumo no Ocidente. Será cada vez mais fácil ver produções cinematográficas, livros, reportagens e exposições apresentando a cultura do país. Seremos definitivamente apresentados ao soft power chinês.

Será interessante observar a assertividade da política externa chinesa e, no campo interno, o completo domínio de Xi Jinping sobre a máquina partidária. É provável que acompanhemos o acelerado fim da política de “um país dois sistemas”, com Hong Kong tendo cada vez menos autonomia. A independência de facto de Taiwan continuará sendo um grande aborrecimento para Beijing, mas também uma oportunidade para o governo estimular o crescente nacionalismo chinês. As questões referentes ao tratamento que o país concede à minoria étnica uigur, na província de Xinjiang, e aos tibetanos certamente aparecerão nos noticiários. Os problemas fronteiriços com a Índia, que em 2020 levaram a confrontos com mortes de militares e redundaram em ainda maior militarização dos dois lados da fronteira, além da expansão chinesa em direção ao Mar do Sul da China, são questões que também têm o potencial de iniciar crises.

O Irã é outro foco de atenção. Joe Biden declarou em campanha que seu governo retornaria ao acordo nuclear de 2015, do qual Trump retirou os EUA em 2018. Entretanto, essa retomada não será simples. A realidade hoje é outra, com as tensões entre os dois países em nível muito mais elevado, especialmente por causa da morte do general iraniano Qassim Suleimani e da recente decisão do Irã de voltar a enriquecer urânio ao nível de 20%. A realidade geopolítica regional também mudou: os iranianos rivalizam cada vez mais com árabes e israelenses, tornando quaisquer negociações muito mais complicadas. Aliás, um ataque a algum alvo norte-americano ou israelense, por iranianos ou seus proxies, em vingança pela morte de Suleimani não seria uma surpresa em 2021.

As mudanças climáticas também se manterão no foco este ano, com repercussões na pauta ambiental. As pressões da comunidade internacional e da opinião pública, especialmente sobre países em desenvolvimento, como o Brasil, vão se manter. O derretimento do Oceano Ártico intensificará a disputa geopolítica naquela área, dada a crescente utilização comercial e militar das rotas marítimas nesse oceano – 2020 foi o ano em que foi batido o recorde de viagens atravessando a Rota Norte, que encurta consideravelmente as distâncias entre o norte da Europa e o Oceano Pacífico. A Rússia, por isso, voltou suas atenções para o Ártico.

Mas a atenção dos russos não estará voltada somente para o norte. Espera-se a continuidade de sua atuação na África e na Síria, além do Leste Europeu, Cáucaso e Ásia Central. Vladimir Putin manterá sua política externa voltada para reconstruir o que ele considera ter sido perdido com o desmoronamento da antiga União Soviética. Para isso o país manterá sua forte atuação também no ambiente cibernético. Em 2021 veremos muitos casos de ataques cibernéticos a empresas e governos do Ocidente, que serão atribuídos a “hackers russos”.

Muitos outros pontos de atenção poderiam ser levantados. A Coreia do Norte e seus lançamentos provocativos de mísseis, o Brexit e suas consequências para o Reino Unido e a Europa, a eterna crise venezuelana e, finalmente, o desenlace da crise mundial da covid-19, com todas as suas repercussões sociais e políticas. Não vai faltar assunto em 2021.


CORONEL DE CAVALARIA. E-MAIL: PAULOFILHO@PAULOFILHO.NET.BR

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