Paraisópolis, necessidade de reportagem

Quem domina o pedaço? Quem está por trás do pancadão? E a autoridade municipal...?

Carlos Alberto Di Franco *, O Estado de S.Paulo

16 de dezembro de 2019 | 03h00

O que aconteceu em Paraisópolis? Até agora, creio, o que se viu foram muitas aspas e pouca reportagem.

Matéria do Estado registra a indignação de uma das vítimas. “Os 50 pontos que G., de 17 anos, precisou receber estão espalhados por testa, supercílios e queixo de um rosto inchado e arroxeado. Os ferimentos, afirma ela, são de uma garrafada que tomou no Baile da DZ7, em Paraisópolis – e o objeto foi atirado por um policial militar que atuava na dispersão da festa na madrugada do domingo, 1.º de dezembro, quando nove pessoas morreram pisoteadas.”

G. diz ter perdido a conta de quantas vezes saiu de Pirituba, na zona norte da capital paulista, para ir à festa na zona sul. O evento já estava lotado perto das 4 horas de domingo, quando G. se recorda de ouvir os primeiros barulhos de bombas e disparos. Instalou-se a confusão.

Por outro lado, matéria do jornal Folha de S.Paulo abriu espaço para outra versão. A defesa de parte dos policiais investigados isenta os PMs de responsabilidades na tragédia, de forma “direta ou indireta”, e diz que o quadro só não foi pior graças, justamente, ao trabalho desses agentes. 

Recentemente, o governador João Doria fez um recuo na sua avaliação sobre a atuação da Polícia Militar em Paraisópolis. Houve excessos. Parece claro. O reconhecimento dos erros não desprestigia nem desautoriza a corporação. Ao contrário, sinaliza um compromisso com o aprimoramento da Polícia Militar.

A imprensa, no entanto, ficou na superfície de um problema grave. Não fez as perguntas que se impunham.

Recebi de um bom amigo, leitor qualificado e crítico, uma mensagem sugestiva. “A imprensa poderia fazer este trabalho investigativo: onde está o prefeito (até agora não foi questionado sobre o uso do espaço público)? O que estava acontecendo naquela festa (drogas, bebidas, etc.)? Onde estavam os responsáveis pelos menores ali presentes?”. Tem toda a razão. Reconheço. Impõe-se uma autocrítica.

O sabadão, sem controle e sem lei, é o mercado preferencial para o tráfico de drogas. Fica a impressão de que os policiais invadiram uma festa carregada de normalidade. Os pancadões são locais estratégicos para o tráfico e aliciamento de mão de obra. É uma desgraça. Uma chaga social que precisa ser enfrentada. É preciso fazer perguntas essencialmente jornalísticas: quem domina o pedaço? Quem está por trás do evento? E a autoridade municipal, responsável pelo espaço público? Está na moita? Não há nenhum projeto para permitir que a juventude se divirta de modo seguro e sadio? Isso é, de fato, reportagem, jornalismo investigativo. Se a imprensa não for um pouco mais a fundo, vai ser liberou geral.

Escasseia reportagem. Falta profundidade. Jornalismo não é divulgação de versões. É a busca da verdade possível. E isso exige ouvir e investigar. Sem preconceito e sem viés. “O importante”, diz o mítico jornalista norte-americano Carl Bernstein, “é saber escutar. As respostas são sempre mais importantes que as perguntas que você faz. A grande surpresa no jornalismo é descobrir que quase nunca uma história corresponde àquilo que imaginávamos.”

O comentário é uma estocada nas atitudes de engajamento, arrogância e prejulgamento que corroem e desfiguram a reportagem. “Os jornalistas, hoje”, sublinha, “trabalham com um monte de preconceitos. Fazem quatro ou cinco perguntas para provocar alguma polemicazinha de nada, mas evitam iluminar a cena, fazer compreender.”

O bom repórter ilumina a cena, o jornalista manipulador constrói a história. A distorção, no entanto, escapa à perspicácia do leitor médio. Daí a gravidade do dolo. Na verdade, a batalha da isenção enfrenta a sabotagem da manipulação deliberada, da preguiça profissional e da incompetência arrogante. Acrescente-se a escassez de recursos. Todos os manuais de redação consagram a necessidade de ouvir os dois lados de um mesmo assunto. Mas alguns procedimentos, próprios de certa delinquência editorial, transformam um princípio irretocável numa grande falácia.

A apuração de faz de conta representa uma das maiores agressões à imprensa de qualidade. Matérias previamente decididas em guetos sectários buscam a cumplicidade da imparcialidade aparente. A decisão de ouvir o outro lado não é honesta, não se apoia na busca da verdade. É um artifício que transmite um simulacro de isenção, uma ficção de imparcialidade. O assalto à verdade culmina com uma estratégia exemplar: a repercussão seletiva. O pluralismo de fachada convoca pretensos especialistas para declarar o que o repórter quer ouvir. Mata-se a reportagem. Cria-se a versão.

A imprensa, vez por outra, tem caído nessa armadilha antijornalística. Trata-se de uma prática que, certamente, acaba arranhando a sua credibilidade. Ainda não conseguimos superar um olhar que limita a realidade a mocinhos e vilões. Exaltar ou afundar, gerar simpatias exemplares ou antipatias gratuitas. A vida é muito mais rica e complexa.

O verdadeiro jornalismo não busca apenas argumentos que reforcem um dos lados, mas também, com a mesma vontade, os argumentos opostos. Estamos carentes de informação e faltos da boa dialética. Sente-se o leitor conduzido pela força das nossas idiossincrasias. A reportagem de qualidade é sempre substantiva. O adjetivo é o adorno da desinformação, o farrapo que tenta cobrir a nudez da falta de apuração. É, frequentemente, uma fraude.

É importante que os repórteres e os responsáveis pelas redações tomem consciência desta verdade redonda: a imparcialidade (que não é neutralidade) é o melhor investimento. Algo que se constrói não com declarações entre aspas, mas com olhar desengajado de quem foi ver a realidade.

O que aconteceu em Paraisópolis? Será que o leitor, cada vez mais crítico e com acesso a fontes alternativas, ficou satisfeito com as nossas reportagens? Apresentamos fatos ou versões?

Nosso ofício, humilde e insuperável, é o de iluminar a história. Gostemos ou não dela.

* JORNALISTA. E-MAIL: DIFRANCO@ISE.ORG.BR

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