‘Pas si vite’

Uma epidemia de ócio pode fazer da obesidade e dos males ambientais questões de somenos

Antonio Carlos do Nascimento*, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2019 | 03h00

O início do processo de socialização é alicerçado por organizações que se empenham em modelos sustentáveis na produção do alimento e com isso surgem as primeiras técnicas agropecuárias e suas derivações. Fogo, roda, cozimento, carroças, culinária... e logo a revolução industrial, com seus vislumbres. Surgiriam trens, fogões, carros, luz elétrica, elevadores, rádio, geladeiras. E não demoraria para o surgimento da televisão e de entretenimentos que nos confortaram a alma e descansaram pulmões, corações e músculos.

Parece que erramos na dose, exagerando na busca de facilidades, e hoje estabelecemos facilmente em nossos corpos o moto-contínuo que nos leva ao ganho ponderal e seus extraordinários dilemas que compõem um dos maiores problemas de saúde pública do mundo. Nem tão grave para a economia, aliás, maravilhoso em vários aspectos, pois todos os dias as farmacêuticas entregam novos medicamentos para diabetes, hipertensão, doenças gastrointestinais, artropatias e outras mazelas resultantes da obesidade. Esta fornece ainda céu de brigadeiro para o comércio de próteses ortopédicas, stents arteriais, máquinas para diálise e tantos outros bons negócios. Numa ótica menos fatalista, mas proporcionalmente estúpida, poderíamos entender a epidemia de obesidade como mola propulsora econômica, afinal de contas, são movimentados incontáveis nichos de mercado, criando verdadeiros impérios financeiros.

Em novo paradigma e com uma resultante antropológica a ser desvendada, estamos evoluindo em velocidade estratosférica no universo da inteligência artificial e a cada dia a comodidade concedida à humanidade extrapola a cedida aos músculos e ao sistema cardiorrespiratório, agora pensar é ação que avança para o campo do dispensável.

Softwares substituem bancários, advogados, engenheiros, arquitetos, economistas, metalúrgicos, administradores, médicos e seus correlatos, professores, vendedores e tantas outras atividades; se não nos extinguiram, velozmente nos tornam menos necessários.

Há poucos dias o Allen Institute for Artificial Intelligence , renomado laboratório de Seattle fundado em 2014 por Paul Allen, cofundador da Microsoft, apresentou um sofisticado sistema capaz de passar num teste de ciências da 8.ª série (ensino americano) com acerto de 90% e mais de 80% de respostas corretas para um exame da 12.ª série. Há quatro anos, mais de 700 cientistas competiram com o mesmo intuito e no melhor resultado foram alcançados 60% de acertos.

O que se vê é o surgimento de sistemas com competência interpretativa, além do cartesiano, não limitados pelas falíveis circunstâncias humanas, que transitam do lógico ao lúdico e nos apresentam soluções que cérebros humanos demandariam muito mais tempo.

Sem qualquer viés reacionário, lembro que há alguns anos li um cientista de Stanford anotando que enxergava com estranheza a falta de preocupação de todos com a relação entre a imensa capacidade escalonável de produção gerada pelos avanços tecnológicos e a diminuição vertiginosa da necessidade de mão de obra. Entendi que perguntava: quem vai comprar? Ou melhor ainda, com que dinheiro? A lógica viria da conclusão de que não há realocação de funções a um mínimo necessário e com isso a engrenagem se romperia.

No ainda real mundo “antigo” me parece que a coerência quebra arrecadações, então, se não engordarmos, o que fazer com 70% da estrutura armada para suas consequências? Ou, ainda, como lidar com o cenário automobilístico movido por derivados do petróleo se decidirmos por eletricidade?

Para a diminuição do consumo de tabaco já foi encontrado em alguns locais um substituto com decantados predicados e boa arrecadação de impostos, a maconha (sem qualquer conotação opinativa, são apenas dados). Mas, assim como se faz com os automóveis, no contexto obesogênico ao que parece estamos procurando um meio-termo que não colapse o sistema e, então, continuamos a dizer que a prática de exercícios físicos e alimentos saudáveis emagrecem, quando, na verdade, essas ferramentas devem ser estimuladas à exaustão para evitar o ganho de peso, e não o tratar, pois não o fazem, no senso estrito do verbo.

Contudo, no mundo que se instala, a inteligência artificial caminha tão rapidamente para a abstração das necessidades laborativa e intelectual humanas que já traz dificuldades para manutenção dos protocolos econômicos atuais. Tenho me perguntado se teremos tempo de lutar pelo mundo que imaginamos, ou um novo arquétipo nos será empurrado garganta abaixo.

Sustento o parágrafo anterior pelo incômodo que causa a inobservância e insensibilidade da imensa maioria quanto à perspectiva de um planeta que avança para domínios de inteligência autônoma com ínfima fração populacional controladora, que parece a passos largos destinar multidões à desocupação.

Enquanto metade do globo terrestre carece de condições sanitárias mínimas, sofre com excesso de peso e outros tantos padecem de fome real, penso (enquanto é permitido) que o software que inova deva propor de imediato soluções para seus efeitos colaterais.

Se não houver conformidade entre ações de avanços tecnológicos e resultantes sociais teremos de enfrentar uma epidemia global que fará da obesidade e das questões ambientais que envolvam derivados do petróleo detalhes de somenos. Já parece lógico imaginar o que fazer com o tempo nesse admirável mundo novo, ou melhor, como lidar com o ócio e a possível falta de recursos.

O Império Romano utilizou-se do “pão e circo”; em algumas searas, “pão e credo”; em outras, “pão e futebol”. As quais também vão bem com “pão e carnaval” e em tantas, só a opressão; melhor não, pois em todas essas opções a desnutrição é a regra, com ou sem a emissão de gases poluentes.

*DOUTOR EM ENDOCRINOLOGIA PELA FMUSP, É MEMBRO DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE ENDOCRINOLOGIA E METABOLOGIA E DA SOCIEDADE LATINO-AMERICANA DE TIREOIDE

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