Páscoa para todos!

A celebração cristã faz memória do amor salvador de Deus pela humanidade inteira, oferecendo a todos vida, esperança, dignidade e paz.

Dom Odilo Pedro Scherer, O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2022 | 03h00

Vai chegando a Páscoa, festa judaica e também festa cristã. Talvez ela traga à memória tradições culturais e culinárias, bacalhau, chocolate, ovos coloridos, assado de cordeiro... Alguém pensará, também, no coelhinho da Páscoa. O que celebram os cristãos na Páscoa?

A Páscoa dos cristãos tem origem na Páscoa judaica, celebrada todos os anos em memória da libertação do povo hebreu da escravidão do Egito. Jesus e seus primeiros discípulos eram hebreus e participavam da vida religiosa do seu povo. No entanto, no centro da Páscoa dos cristãos está a memória do próprio Jesus Cristo, dos últimos dias de sua vida terrena, a entrada solene em Jerusalém e a ceia pascal com os seus amigos, durante a qual ele deu um significado novo ao rito da imolação do cordeiro pascal e à própria ceia pascal. Esta passou a ser celebrada pelos cristãos em memória dele, do seu amor extremo pela humanidade, dos seus sofrimentos, morte na cruz, sepultura e ressurreição ao terceiro dia.

Não se trata, aqui, de discutir a exatidão histórica de cada detalhe das narrativas dos Evangelhos sobre a paixão, morte e ressurreição de Jesus, fatos atestados solidamente por testemunhos fidedignos desde a origem do cristianismo. O conteúdo da fé cristã ultrapassa os elementos meramente históricos e vai ao seu significado, que se relaciona com a própria pessoa de Jesus Cristo e sua relação com Deus e o homem. Nele, a proximidade de Deus com a humanidade e seu poder manifestaram-se de maneira extraordinária e única. Para os cristãos, Jesus não foi apenas um profeta corajoso, sábio e sensível aos sofrimentos humanos, nem só mais uma vítima dos governantes romanos da época. Ele é reconhecido como Filho de Deus, que se solidarizou com a humanidade, assumiu a condição humana e veio ao seu encontro. Por ele, Deus aproximou-se de todo ser humano para lhe estender a mão, oferecendo misericórdia e esperança de vida plena.

A Páscoa cristã não é a celebração de uma data, mas de um evento e de seu significado. Na Igreja Católica, a celebração tem início no Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor, neste ano comemorado no dia 10 de abril. Outros grupos cristãos celebram com alguns dias de diferença esta que é a maior e mais importante festa religiosa do calendário cristão. Nos dias seguintes, segue a recordação da despedida dos amigos e discípulos de Jesus, das tramas que se armavam em torno dele para fazê-lo morrer, sua última ceia com os apóstolos, a prisão e o julgamento pelas autoridades, as torturas, a condenação à morte, a “via dolorosa” até o lugar da crucificação, suas últimas palavras, a morte na cruz e o sepultamento. Momento alto da celebração da Páscoa é a proclamação da ressurreição de Jesus e dos novos encontros de Jesus ressuscitado com os discípulos.

Estes passos da paixão, morte e ressurreição de Jesus, testemunhados pelos apóstolos desde as origens cristãs, são recordados, sobretudo, nas celebrações do sagrado tríduo pascal, que tem início no entardecer da quinta-feira santa e vai até o domingo de Páscoa da ressurreição. E a Igreja convida as pessoas a participarem com fé profunda e a se confrontarem com os mistérios celebrados. Na Páscoa, acolhemos e proclamamos novamente o amor infinito de Deus para conosco, pobres criaturas, a quem Ele oferece reconciliação e perdão por seu Filho, que nos amou “até o fim”, até as últimas consequências (cf. João, 13,1).

Deus não deseja a morte do pecador, mas que se converta e viva. Em vez de fulminar o pecador, Deus o ama e deseja que se levante de suas quedas e tenha vida. Por amor ao homem pecador, o Filho de Deus abraçou livremente as duras penas da paixão e morte na cruz. Por isso, a liturgia cristã exclama, maravilhada, na noite da Páscoa: “Oh feliz culpa de Adão, que nos trouxe tão grande salvação!”. Como foi possível que, para libertar o escravo, o pai tenha aceitado que seu filho inocente fosse entregue à morte de cruz e carregasse sobre si todo o pecado da humanidade?! Só um amor infinitamente grande seria capaz disso!

A celebração da Páscoa cristã culmina com a solene proclamação de que o túmulo de Jesus está vazio, porque ele ressuscitou pelo poder de Deus. A vida venceu a morte e as tramas da maldade humana não triunfaram; o amor venceu! Jesus ressuscitado manifesta-se durante vários dias a muitas pessoas, oferecendo-lhes paz, esperança e coragem para continuarem a anunciar o amor surpreendente de Deus pelo homem. A Páscoa judaica evoca acontecimentos extraordinários realizados por Deus em favor de seu povo escolhido. A Páscoa cristã faz memória do amor salvador de Deus pela humanidade inteira, oferecendo a todos vida, esperança, dignidade e paz.

Sendo uma festa tão significativa, ela também precisa ser celebrada em torno da mesa. Que seja com pão sem fermento, ou com fermento, chocolates, doces, ovos coloridos, carnes assadas, saladas amargas... Mas, sobretudo, que seja sem guerra nem violência, com intensa confraternização e grande paz! Feliz Páscoa a todos!

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