Pelo menos finja...

... que nós, brasileiros, importamos, senhor presidente. A hipocrisia às vezes é necessária

Antonio Claudio Mariz de Oliveira e Sebastião Botto de Barros Tojal, O Estado de S.Paulo

01 de julho de 2020 | 03h00

O comportamento do presidente da República, como chefe de governo, já foi cantado em verso e prosa por todos os que têm suas atenções e preocupações voltadas para o País e para a sua gente. As manifestações são convergentes: o Brasil está desgovernado.

Sem dúvida, não há a mais tênue compatibilidade das ações e medidas governamentais com os elevados interesses, anseios e aspirações do povo brasileiro. Esse distanciamento é fato notório, reconhecido hoje até mesmo pela maioria dos que sufragaram o seu nome, com certeza arrependidos de tê-lo feito.

Mas, dentre o rol de desacertos, descaminhos e demonstrações de inaptidão para o cargo, deixa-nos pasmos uma questão que mais envolve sua formação e seus sentimentos do que propriamente o exercício do mandato, embora com reflexos sobre ele. Referimo-nos à pandemia que nos assola.

Sua cínica declaração de que todos nós morreremos um dia, portanto, pouco importa se agora ou depois, mostrou descaso pela tragédia e revelou total insensibilidade em face da morte de milhares de brasileiros. A morte é inevitável, sim, mas cumpre a todos e ao governo postergá-la tanto quanto possível, e não abreviá-la.

Todos nós seremos chamados, um dia, para o outro patamar. No entanto, resistir à morte é uma tendência inerente ao ser humano, pois a partida definitiva contraria o nosso instinto primário de sobrevivência.

A morte provoca, no ser normal, padecimento pela perda de quem está próximo e solidariedade pelo sofrimento alheio. No entanto, parece que esse sentimento de consternação diante da morte não é comungado pelo presidente da República.

É um fato indiscutível: as famílias dos 50 mil brasileiros mortos nestes tempos de coronavírus deveriam receber de sua parte alguma atenção, algum gesto de condolência, alguma piedade. Não esperamos que o sr. presidente derrame lágrimas. Seria pretensão excessiva. Talvez se o vírus atingir alguém de sua benquerença – esperamos que não – haja de sua parte uma reação de pesar, de solidariedade, que poderia ser estendida aos que já sofreram.

Caso não seja capaz de compartilhar, mesmo que timidamente, o sofrimento alheio, pelo menos finja. A hipocrisia às vezes é necessária.

Seus milhões de eleitores com certeza não comungam a sua frieza. Devem estar estarrecidos, abismados.

Finja, ao menos para eles, mesmo que o fingir lhe imponha sacrifício. A eles, e não a nós, que não votamos nele, mostre o presidente compaixão, apoio na dor, demonstre algum humanismo.

E a classe médica? E os enfermeiros? Todos, enfim, que trabalham com a saúde? Os funcionários dos cemitérios, da limpeza pública, dos institutos de verificação de óbito, os caminhoneiros, entregadores, policiais. Todos os que, enfim, procuram amenizar os danosos efeitos da pandemia. Para esses nenhuma palavra de gratidão ou reconhecimento. Para eles o presidente estaria autorizado a falar em nome do povo.

No entanto, nesse seu esquecimento o sr. presidente não nos representa; na verdade, nesse seu desprezo pelos que, efetivamente, têm feito algo por nós. Bem, talvez a sua indiferença pela morte represente o seu pouco apreço pela vida – vida dos outros, claro.

Esses abnegados são os verdadeiros heróis nacionais. Tão heróis quanto os que tombaram em defesa da Pátria. A estes o sr. presidente, com certeza, dedica o penhor de sua gratidão. Morreram no campo de batalha.

Batalha, confronto são práticas de seu cotidiano. Havendo ou não inimigo, ele combate. Quando não há, o presidente os cria.

Exercer essas atividades insinua, em geral, o uso de apetrechos de seu agrado: as armas. As armas gozam de sua simpatia, tanto que o presidente generosamente quer distribuí-las ao povo.

A “gripezinha”, responsável pelas cerca de 60 mil mortes, não está sendo combatida pelo presidente ou por seus assessores. Dão as costas a esse “viruzinho”. Como se fossem uma ficção essas quase 60 mil vidas – por enquanto – perdidas.

Durante algum tempo o presidente fez propaganda, estranha e inusitada apologia de um remédio, sem estar credenciado para tanto. Trocou dois ministros da Saúde e acintosamente desrespeitou as recomendações de prevenção, dando péssimo exemplo. E ainda mandou invadir hospitais, além de pretender induzir a erro os serviços epidemiológicos e a própria sociedade aos negar-lhes informações mínimas, escamoteando a realidade.

Apenas isso, nada mais fez em relação à tragédia.

Para sermos justos devemos salientar que o sr. presidente não impediu a ajuda financeira aos necessitados. Tal seria se o fizesse.

Todavia parcelas importantes da população mais carente não receberam os recursos que lhes foram prometidos. E não menos verdadeiro é o fato de ele ter atribuído aos governadores a responsabilidade pelo supostamente equivocado enfrentamento da pandemia, buscando fugir às suas responsabilidades.

De toda forma, se é para continuar, finja, pelo menos, que nós todos, brasileiros, importamos.

ADVOGADOS

Tudo o que sabemos sobre:
caminhoneirovírusepidemia

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.