Pequim não crê em lágrimas

Para se fazer presente no imenso mercado chinês, Hollywood terá de se reinventar

Bolívar Lamounier*, O Estado de S.Paulo

29 de setembro de 2019 | 03h00

Meu artigo de hoje não é propriamente um artigo, é um relato sobre um artigo de Martha Bayles, professora do Boston College, publicado na edição digital da revista The Atlantic do dia 15 último. The Atlantic, para quem não sabe, é uma das revistas mais antigas e prestigiosas do mundo. Pratica o alto jornalismo há 160 anos, sem interrupção.

O grande salto para trás de Hollywood é o título sob o qual a professora Bayles aborda um assunto ainda pouco debatido mundo afora: o crescente risco que a liberdade de expressão está correndo em razão do apetite pecuniário da indústria cinematográfica americana pelo mercado chinês. Escusado dizer que meu texto acompanha de perto o da professora Martha Bayles.

Sob a orientação do primeiro-ministro Xi Jinping, o governo chinês concentrou e reforçou brutalmente uma habilidade que nunca lhe faltou: a de censurar tudo o que não lhe agrade.

Para situar o tamanho do problema, Bayle lembra o que se passou com a indústria editorial de Hong Kong. Quando a Grã-Bretanha se retirou e a China assumiu o controle de Hong Kong, os cidadãos daquela Nova York asiática receberam certas garantias, entre as quais avultavam as liberdades de expressão e de imprensa. Até aí, nada surpreendente. Bailey atesta que a poderosa indústria editorial lá sediada produzia uma enorme quantidade de livros, revistas e jornais, um vibrante espectro que tratava de cada aspecto da história, da política e da sociedade chinesas. Sem essa produção, não só os cidadãos de Hong Kong, mas também os da China continental saberiam muito menos do que passaram a saber sobre seu próprio país. Mas, claro, a nova orientação emanada de Pequim liquidou tudo isso e as referidas editoras praticamente deixaram de existir.

A partir de 2017, todas as formas de mídia começaram a ser consolidadas e postas sob o controle direto do Departamento Central de Propaganda. Essa tendência tem provocado protestos por toda parte, mas, curiosamente – Bailey indaga –, por que não presenciamos uma reação igual no tocante ao crescente ataque da China à indústria cinematográfica, não só em Hong Kong, mas também nos Estados Unidos?

Sabemos todos que em diversas ocasiões o cinema americano também desempenhou um papel propagandístico, mas raramente se engajou numa propaganda escancarada das virtudes americanas. A sra. Bailey não cita, mas quem conhece a obra de John Ford, e por mais que reconheça seu elevado conteúdo estético, identifica um claro propósito de contribuir para a construção da civilização americana. Fato é que Hollywood consistentemente reforçou a própria liberdade de expressão junto a plateias de todo o mundo.

É possível argumentar que o cinema demorou muito a abordar a questão racial – o primeiro filme que o fez sem pestanejar foi provavelmente To Kill a Mockingbird (O Sol é para Todos), de 1962. Não é exagero afirmar que desde a Guerra do Vietnã o cinema americano se tornou em grande parte antiamericano, não se furtando a cutucar as feridas que evidentemente existem em todas as esferas da sociedade. O governo americano – Bailey escreve – em geral não solicita moderação nas críticas encenadas pelos produtores de Hollywood; uma exceção é o Departamento da Defesa, que insiste em aprovar o script dos filmes produzidos com sua assistência ou respaldo.

Aqui, evidentemente, é onde entra a orientação predominante na China. Às vésperas de se tornar o maior e mais importante mercado cinematográfico, o Partido Comunista chinês não trata essa questão com luvas de pelica. O objetivo de Pequim – é ainda Bailey quem escreve – é fazer da indústria cinematográfica um componente essencial no esforço de manter a opinião pública alinhada com a visão do mundo do partido. Pequim sabe muito bem que Hollywood tem uma insaciável necessidade de investimentos e não quer (ou não pode) ignorar uma audiência potencial de 1,4 bilhão de pessoas. Trata-se, como é fácil compreender, de uma briga de cachorros grandes. Um dos dois ganhará, ou ambos ganharão, mas, infelizmente, essa história tem um perdedor praticamente certo: a liberdade de expressão. Acrescente-se que, mesmo se quisessem, os produtores de Hollywood não desejarão parecer simpáticos à política antichinesa de Donald Trump.

A política instituída por Xi Jinping em 2017 estipula, sem rodeios, que todo filme produzido ou distribuído na China tem de passar pelo escrutínio não só do Departamento Central de Propaganda, mas também, dependendo de seu conteúdo, pelo Ministério da Segurança do Estado, pela Comissão Estatal de Questões Étnicas, pelo Ministério da Segurança Pública, pelo Bureau Estatal de Questões Religiosas e pelos Ministérios da Educação, da Justiça e das Relações Exteriores.

Historicamente, mesmo quando precisou fazer algum compromisso, Hollywood não encontrou dificuldades de monta, uma vez que os mercados mais rentáveis eram os localizados em países democráticos. Exportar para a Arábia Saudita, por exemplo, já é mais complicado, pois lá uma comissão eufemisticamente designada como “conselho de classificação cinematográfica” tem, na realidade, a obrigação de aprovar o que pode ou não ser exibido. Com a Coreia do Norte os produtores americanos não precisam se preocupar, pois o país não chega a ser um mercado promissor.

No caso chinês, esse antigo paradigma é inútil. Para se fazer presente no imenso mercado chinês, Hollywood terá de se reinventar, ou descobrir a pedra filosofal. Tanto quanto os Estados Unidos, a China quer montar uma indústria lucrativa, mas esse não é seu único objetivo. Ela quer também expandir sua influência cultural em todo o mundo. E seus conceitos estéticos são inseparáveis da imagem de uma sociedade estável e ordeira. Pequim, como se vê, não acredita em lágrimas.

*SÓCIO-DIRETOR DA AUGURIUM CONSULTORIA, É MEMBRO DAS ACADEMIAS PAULISTA DE LETRAS E BRASILEIRA DE CIÊNCIAS

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