Perda de aprendizagem ou atraso escolar?

Apesar de todos os esforços, os ganhos na pandemia foram poucos. Mas as ‘perdas’ também são limitadas e pontuais.

João Batista Araújo e Oliveira, O Estado de S.Paulo

24 de outubro de 2021 | 03h00

Um diagnóstico correto é essencial para um prognóstico adequado. Muito se fala em “perda de aprendizagem” com a pandemia. O termo é inadequado e pode induzir estratégias inadequadas de correção. Já se falou até mesmo em perdas que levariam mais de uma década para recuperar. Vamos aos fatos. E às suas consequências.

Nossa experiência pessoal rejeita a ideia de perda: saímos da escola, mas continuamos a aprender ao longo da vida. Quanto mais aprendemos na escola, mais aprendemos depois. O que se esvai é o que não chegou a ser bem aprendido e o que não é usado. Línguas estrangeiras e ortografia são fortes candidatos ao esquecimento, pelo desuso. Você se lembra da última vez que usou o mínimo múltiplo comum e o máximo divisor comum? Mas, se você precisar, tudo isso volta – e rápido. Permanecem, contudo, habilidades cognitivas como a capacidade de associar ideias, examiná-las, comparar, inferir, deduzir, e assim por diante. Quanto mais conteúdo tivermos para pensar, mais seremos capazes de ampliar conhecimentos. Vale lembrar: ninguém perde o que nunca teve, o que nunca aprendeu.

O termo “perda de aprendizagem” é parte da literatura acadêmica, especialmente nos Estados Unidos, onde tradicionalmente se verifica um descompasso entre as notas dos alunos ao final do ano e no início do ano seguinte. A “perda” é atribuída às longas férias de verão, e se verifica mais nas populações mais pobres e mais em Matemática do que em Linguagem. As explicações são óbvias: máximo divisor comum e o valor do “x” não costumam ser assuntos do cotidiano. Mas o termo é inadequado. Ao final do ano, o desempenho dos alunos tende a voltar ao que era. Portanto, o que se pode falar, no máximo, é de perda momentânea.

Resultados de testes diagnósticos realizados nestas últimas semanas com alunos de escolas públicas revelam um quadro dramático, mas que rejeita a ideia de perda. A maioria dos alunos ficou praticamente sem aulas regulares desde o início da pandemia. Onde o ensino presencial voltou, a frequência escolar é baixa, não é obrigatória. Onde o ensino presencial não voltou, os professores se desdobram para atender ao mesmo tempo o ensino híbrido e à distância, fazendo mal o que já não era tão bem feito. Mas o que aprendemos desses diagnósticos?

Primeiro, quem não foi alfabetizado continua sem saber ler e escrever. Este é o caso da imensa maioria dos alunos do 1.º e 2.º anos. Portanto, em 2022, a esmagadora maioria desses alunos começará o ano presencial sem saber ler e escrever. Um contingente expressivo de alunos do 3.º ao 5.º anos também estará nessa situação, pois não chegou a ser devidamente alfabetizado antes da pandemia. Nestes casos, não houve perda – os alunos continuam com o pouco que aprenderam.

Já nas demais séries, o que se vê como padrão mais típico é que os alunos tendem a se situar duas séries abaixo de onde se encontram formalmente matriculados em 2021. Ou seja, continuam próximos do nível em que estavam em 2019. Apesar de todos os esforços, os ganhos durante a pandemia foram poucos. Mas as “perdas” também são limitadas e pontuais. Vale lembrar que os níveis de desempenho pré-pandemia nada têm de brilhantes – os alunos das escolas públicas de todas as séries aprendem pouco e sabem muito pouco.

Diagnóstico concluído. Suponhamos que esteja correto. O que fazer?

Os fantasmas da educação pública brasileira aparecem na forma de ideias equivocadas. A primeira é a do formalismo. “Se o aluno está no 5.º ano, o pai não se conforma que ele use um livro do 3.º ano ou um livro que já usou...”. E culpam-se os pais pela decisão equivocada da escola.

A segunda é a do ilusionismo das soluções fáceis. O rol é gigantesco: currículos simplificados, com “foco no essencial”; horário ampliado; contraturno, com aulas de reforço; dois professores por sala; estagiários. E, claro, a fantástica tecnologia, especialmente o 5G. Tudo isso começa a ser tentado e o será com maior ênfase em 2022, sem a menor chance de dar certo.

O equívoco central é o não entendimento do que seja o currículo e dos conceitos de “base” e “falta de base”. Professores particulares e de cursinho sabem muito bem do que estamos falando. Para dar um exemplo fácil de entender: é impossível ensinar equação de 2.º grau a quem não aprendeu equações de 1.º grau. Simples assim. E não dá para ensinar equações de 2.º grau no turno e as de 1.º grau no contraturno. O cérebro não funciona dessa forma. O turno será tempo perdido e o contraturno, um pandemônio.

Há experiências e evidências sobre como outros países lidaram com a questão no passado e vêm lidando no presente. Metas para recolocar a casa em ordem no prazo de dois anos podem ser sensatas. Mas o segredo está nos detalhes: recomeçar de onde parou, fazendo ou refazendo a base – a laje de cada andar. Com foco no essencial: Língua Portuguesa, Matemática e Ciências, disciplinas com estruturas e sequências bem definidas e que constituem a base para aprender as demais. E com regras adequadas para organizar as turmas em função de um diagnóstico bem-feito.

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PRESIDENTE DO INSTITUTO ALFA E BETO

 

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