Perseguição religiosa, risco para a paz

Papa denomina essa fúria persecutória como genocídio causado pela indiferença coletiva

Dom Odilo P. Scherer, O Estado de S.Paulo

10 de agosto de 2019 | 03h00

Há poucos dias as mídias sociais noticiaram o assassinato do padre católico nigeriano Paul Offu, da Diocese de Enugu. Foi o segundo sacerdote morto na Nigéria com poucos meses de diferença e o 13.º em todo o mundo somente neste ano de 2019.

O fato levou os padres daquela diocese a fazer um protesto bastante singular, saindo pelas ruas vestidos com paramentos normalmente usados apenas em celebrações litúrgicas.

Também em vários outros países da África os cristãos vivem sob a ameaça de grupos islâmicos radicais, mesmo em países onde, por séculos, muçulmanos e cristãos conviveram harmonicamente, como no Quênia, na Tanzânia, em Moçambique, Burkina Faso, Uganda e Ruanda. Os muçulmanos tolerantes também acabam sofrendo a pressão de grupos fundamentalistas radicais, que os acusam de ser traidores. Algo semelhante acontece em outras partes do mundo, em países onde os cristãos são, por vezes, minorias muito reduzidas. No Iraque, onde viviam tradicionalmente mais de 1,5 milhão de cristãos, hoje não resta mais que uma décima parte deles. A mesma pressão sofrem os cristãos na Síria, no Paquistão, no Afeganistão, na Indonésia e até mesmo nas Filipinas.

A discriminação religiosa contra cristãos nem sempre é debelada mediante iniciativas internacionais eficazes para deter essa fúria persecutória, denominada pelo papa Francisco como “genocídio causado pela indiferença geral e coletiva” (12 de abril de 2012). A maioria dos crimes de perseguição religiosa recebe pouca ou nenhuma atenção e fica impune e sem consequências. Mesmo democracias consolidadas por vezes simplesmente fecham os olhos e não tomam posição diante de violações flagrantes da liberdade religiosa em outros sistemas, a pretexto de manterem boas relações políticas ou econômicas com violadores evidentes do direito a essa liberdade fundamental.

No entanto, a discriminação e a perseguição religiosa de um ser humano, como qualquer discriminação, são injustas e moralmente inaceitáveis, pois constituem ataques à liberdade fundamental da pessoa e a negação de um direito natural reconhecido a todo indivíduo pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, da Organização das Nações Unidas. Esse direito deve ser assegurado pelos governos locais e pelos organismos internacionais a todos os cidadãos. A violação do direito à liberdade religiosa vai além do cerceamento de uma liberdade exterior: ela atinge o âmago da consciência e das convicções pessoais a respeito de valores, aspirações e as referências mais sagradas da existência. Essa violação nunca vem isolada: no seu séquito vêm também a negação ou a restrição das liberdades civis, em geral.

Embora a proteção dos cidadãos e a garantia de sua liberdade sejam deveres primordiais do Estado, esse também é um dever de toda a sociedade e das próprias instituições e organizações religiosas. Os líderes religiosos têm o dever de promover a coexistência pacífica, o diálogo e a compreensão entre os seguidores das diversas tradições religiosas. Exemplo disso foi o que fizeram o papa Francisco e o grão-imã de El Azhar, Ahmad Al Tayyeb, em 4 de fevereiro deste ano, no histórico encontro de ambos em Abu Dabi. A declaração conjunta resultante daquele encontro permanecerá para a História como uma pedra miliar do diálogo e da colaboração entre as religiões, a serviço da convivência fraterna e pacífica entre os povos.

A manipulação política da religião, sobretudo por ideologias extremistas de qualquer tendência, é sempre um risco para a paz. O sentimento religioso é algo profundo e sensível, passível de ser instrumentalizado por terroristas religiosos e por partidos e governantes laicos, que se apossam da sensibilidade religiosa das pessoas para promover seus objetivos particulares nada religiosos. Líderes fascistas recorrem facilmente ao discurso antirreligioso para estigmatizar opositores, promovendo a discriminação e a perseguição a seguidores de religiões que não se alinhem com a ideologia dominante; ou fazem uso de discursos pseudorreligiosos para encantar as multidões e tê-las do seu lado. Misturar política e religião e, pior ainda, instrumentalizar a religião em função da dominação política produz situações explosivas e dificilmente contribui para a paz. Aos governos cabe assegurar e defender a liberdade religiosa para todos os cidadãos e combater com firmeza toda forma de discriminação e perseguição, baseadas na crença e na religião.

O direito à liberdade religiosa não é apenas inerente a uma cultura política e jurídica sadia, mas também é fator de diálogo, de unidade e de paz na comunidade humana, formada por cidadãos de dignidade igual. Crentes de todas as religiões, assim como os não crentes, têm todos a mesma dignidade de cidadãos, o mesmo direito de buscar a verdade de acordo com a própria consciência e de compartilhá-la com os demais cidadãos, numa atitude de diálogo. Na Declaração de Abu Dabi, acima mencionada, afirma-se que os governos devem comprometer-se para estabelecer o conceito de cidadania plena, sem discriminações, com direitos e deveres iguais, à sombra dos quais é possível assegurar justiça para todos.

Embora a maioria dos países estabeleça em suas Constituições a igualdade de todos os cidadãos, sem discriminação de raça, religião e gênero, vemos ressurgir em alguns países nacionalismos fortemente aliados com discursos religiosos extremistas e agressivos. Infelizmente, quando grupos majoritários de apoio a governos aparentemente democráticos hostilizam e perseguem cidadãos que, em nome das convicções religiosas, divergem de políticas oficiais adotadas, estamos diante de mais uma forma perigosa de manipulação política da religião, pondo em risco a paz social.

*CARDEAL-ARCEBISPO DE SÃO PAULO

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.