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Pesquisadores, salvem o País!

Problemas do Brasil demandam abordagens que estão além da capacidade do governo

Robson Coelho Cardoch Valdez, O Estado de S.Paulo

25 de janeiro de 2021 | 03h00

Não conseguiremos enfrentar esta pandemia sem enfrentar o processo de vulgarização da ciência, que é, na verdade, subproduto da ignorância coletiva que se tem disseminado pelas redes sociais. Tal ignorância está associada à negação em larga escala da ciência como instrumento para o desenvolvimento humano e da política como espaço de disputa sobre as diversas formas de lidar com questões que importam a todos.

É possível dizer, ainda que com alguma imprecisão, que todo o curto segundo mandato da presidente Dilma Rousseff coincidiu com o início dessa onda de ignorância coletiva que ajudou a pavimentar o apoio popular ao impeachment da ex-mandatária; a eleger grande número dos atuais deputados, senadores, prefeitos, governadores e até mesmo o presidente da República. Tem-se a impressão de que ao longo dos últimos cinco anos, como num passe de mágica, a população saiu de suas elevadas taxas de analfabetismo funcional e se transformou no país de cientistas e pesquisadores leigos. Num simples churrasco de fim de semana é possível ouvir opiniões supostamente fundamentadas de todos sobre praticamente tudo: comunismo, liberalismo, Keynes, Mises, mudança climática, China, Estados Unidos, STF, ONU, Estado Islâmico, conflito Israel-Palestina, identidade de gênero, etc.

Esse “processo online de atualização intelectual” passou a fomentar uma bolha obscurantista de “informações” científicas, econômicas e sociais, consolidando a pós-verdade brasileira como um dos ingredientes do debate político no País e força motriz das ações do governo federal diante da pandemia, que já ceifou a vida de mais de 215 mil brasileiros.

A tragédia da escassez de oxigênio nos hospitais de Manaus é o retrato da insensibilidade, irresponsabilidade e descaso com que o governo federal lida com a maior crise sanitária da nossa História. O cenário na capital do Amazonas é resultado da apologia à ignorância e do ataque sistemático à ciência. Enquanto o mandatário da Nação questiona a eficácia global de vacinas e desencoraja seu uso de forma massiva, o Ministério da Saúde estimula a prescrição de medicamentos sem eficácia comprovada para pacientes com covid-19.

Apesar do presidente da República e de seus apoiadores – todos contrários ao distanciamento social, ao uso de máscaras, ao fechamento do comércio e escolas, etc. –, a pandemia tem mostrado à sociedade que conhecimento científico se faz com investimento público de longo prazo. Nesse sentido, a construção do conhecimento demanda dedicação do pesquisador, seja o que atua na área das ciências exatas ou o que atua na área de humanas. Assim, tem-se como exemplos o Instituto Butantan, em São Paulo, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro, e o Comitê de Dados do Rio Grande do Sul, que atuam nas várias dimensões do enfrentamento da pandemia do novo coronavírus, muito além da corrida pela vacina.

Malgrado o notório desdém de Bolsonaro pela área das ciências humanas, hoje o Brasil depende também do conhecimento desses pesquisadores que se debruçam sobre os mais variados aspectos das relações econômicas e sociais da população brasileira, principalmente das populações mais vulneráveis que vivem nas periferias do País. Neste momento, são os cientistas das humanas do Comitê de Dados do Rio Grande do Sul que vêm auxiliando o governo do Estado na construção e operacionalização de políticas de enfrentamento da covid-19, juntamente com o esforço igualmente incansável dos demais pesquisadores das ciências exatas.

A pandemia é uma oportunidade única para olharmos os desafios do País de forma holística, pois, além da falta de liderança do presidente da República neste crítico momento da Nação, o coronavírus cobra hoje, em vidas humanas, o preço da nossa incapacidade de resolver desafios que há muito tempo se impõem, tais como a informalidade e precarização das condições de trabalho, a desigualdade social, o déficit habitacional e de saneamento básico, as mazelas do sistema carcerário, a falta de investimento em saúde e educação e os altos índices de violência doméstica, entre outros. Trata-se, assim, de uma imensa tarefa multidimensional, da mesma forma que também são os problemas do País. Nesse sentido, é preciso ter em mente que problemas complexos demandam abordagens complexas, que, como já ficou inúmeras vezes demonstrado, estão além da capacidade do atual governo.

A vulgaridade obscurantista do bolsonarismo que dita as políticas do governo federal é um perigo para a Nação e deve ser veementemente rechaçada em todos os espaços. São os verdadeiros cientistas e pesquisadores das ciências da vida, das ciências humanas e sociais e das ciências exatas que têm o desafio de buscar, na complexidade dos seus estudos, as soluções para o maior desafio dos nossos tempos.

DOUTOR EM ESTUDOS ESTRATÉGICOS INTERNACIONAIS (UFRGS), PESQUISADOR DO NÚCLEO DE ESTUDOS LATINO-AMERICANOS/IREL-UNB, É AUTOR DE ‘POLÍTICA EXTERNA E A INSERÇÃO INTERNACIONAL DO BNDES NO GOVERNO LULA’ (APPRIS, 2019) E ‘SUBINDO A ESCADA – A INTERNACIONALIZAÇÃO DE EMPRESAS NACIONAIS NO GOVERNO LULA’ (APPRIS, 2019). E-MAIL: ROBSONVALDEZ@HOTMAIL.COM

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