Pessach/Páscoa, a travessia

‘Milagre do coronavírus’ é fazer com que todos se sintam parte da mesma comunidade humana

Bernardo Sorj, O Estado de S.Paulo

11 de abril de 2020 | 03h00

Quando o anjo da morte se abateu sobre o Egito, os hebreus receberam a ordem de se refugiar nas suas casas, pois quem saísse morreria, e quem ficasse no seu lar partiria no dia seguinte em direção à liberdade.

Em Pessach/Páscoa festejamos o início de uma travessia em direção à liberdade. 

Liberdade sempre relativa, fugidia, impossível de definir, mas que redescobrimos cada vez que nos enfrentamos com situações de opressão.

Não vivemos em tempos bíblicos e nossa travessia depois da epidemia será outra. Não haverá desígnio divino nem a liderança de Moisés para nos guiar. E não deixará a lembrança de povos em confronto, mas a do conjunto da humanidade enfrentando um inimigo comum. 

O “milagre do coronavírus” é que, pela primeira vez na História humana, cada morte, em qualquer lugar no mundo, nos coloca diante de um espelho no qual vemos nossos rostos e de seres queridos. Não importa onde, religião, raça ou posição social, todos nos sentimos parte da mesma comunidade humana e da mesma batalha, em cuja frente não estão exércitos, e sim médicos, enfermeiros e cientistas.

A 2.ª Guerra Mundial levou à Declaração dos Direitos Humanos. Podemos lamentar que a humanidade precise de grandes tragédias para avançar. Assim foi e assim será. Para que a atual tragédia não seja em vão, cada um deverá perguntar-se o que aprendeu nos tempos do coronavírus.

Todos nós queremos voltar à nossa vida normal. Alguns, esperemos que não muitos, procurarão esquecer o acontecido. Outros, cada um à sua maneira, usarão a oportunidade para mudar sua conduta, na sua vida pessoal e coletiva.

Cada um terá sua lista de mudanças a fazer. Só posso propor a minha, certamente limitada, que deverá ser enriquecida nas mais diversas formas por cada um, na vida pessoal e na ação coletiva.

Vivemos numa sociedade que não nos permite distinguir entre o essencial e o secundário. Hoje descobrimos que poucas coisas são essenciais para viver, que nossa principal preocupação é o bem-estar básico de nossos seres queridos e que ele depende do bem-estar do conjunto da comunidade nacional e da humanidade. 

Que o humor é fundamental para manter nossa normalidade. A capacidade de rirmos de nós mesmos e da situação em que nos encontramos é a melhor defesa para manter distância de nossos medos e não cair na depressão e na histeria. Só os fanáticos, que se alimentam de ódio, não suportam que as pessoas possam olhar para a vida com um pouco de ironia e um sorriso.

O Estado é imprescindível para proteger seus cidadãos. Sem Estado não há sociedade. E o Estado é constituído, sobretudo, por todos os funcionários públicos e cientistas que, dia após dia, velam para que a vida em comum seja possível. Certamente devemos melhorar cada vez mais a qualidade de nossas instituições, mas a ilusão individualista que se orienta pelo princípio de cada um por si e o mercado por todos não só ofende tudo o que as religiões e o humanismo iluminista nos ensinaram, como empurra a sociedade para o abismo. Aprendemos que a medida última de um líder político é sua capacidade de agir como estadista e dar o exemplo em momentos de crise nacional.

Fica claro que fora da ciência existem crenças espirituais que devem ser respeitadas, mas em temas mundanos a alternativa à ciência é o charlatanismo. Não que cientistas não possam errar. Eles erram, até porque o erro é parte constitutiva da pesquisa científica. E não que devamos tomar a palavra de cada cientista como sendo verdadeira, mesmo porque na ciência não há dogmas e a divergência é o coração da vida acadêmica. Mas é com base nela e a partir dela que podemos tomar decisões.

Neste momento difícil quase ninguém procura informação fora dos meios de comunicação confiáveis. A indústria de fake news, que dissemina desinformação e ódio, no momento está desesperada. Em situações de risco real evitamos ouvir mentiras que têm por objetivo alimentar preconceitos, ou ler mensagens de ódio, porque sentimos que estamos todos juntos no mesmo barco e devemos ser solidários e amorosos. Mas as fake news, assim que puderem, voltarão a atacar. Porque a agenda política de quem as produz se sustenta na demonização das elites científicas e culturais e dos meios de informação, no desrespeito ao debate informado de ideias e à diversidade de opiniões. Tomara que deixemos de divulgar mensagens do mal.

Se estes tempos difíceis, com seu rasto de angústia e dor, nos ajudarem a refletir e a mudar na direção de sermos melhores, como indivíduos e sociedade, poderemos celebrar, no lugar de procurar esquecer, que fomos parte de uma experiência única, que produziu muito sofrimento, mas também permitiu sermos parte de uma nova travessia, que terá início no dia em que pudermos sair de nossas casas.

SOCIÓLOGO

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