PIB afundou ainda mais no buraco onde está desde 2015

A economia está sujeita a conveniências políticas que a levaram por maus caminhos

Roberto Macedo, O Estado de S.Paulo

03 de setembro de 2020 | 03h00

O relatório do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre o produto interno bruto (PIB) do segundo trimestre deste ano é um amontoado de más notícias. A queda relativamente ao primeiro trimestre foi de 9,7%, a pior da série iniciada em... 1996 (!). 

E mais: vendo outros números do documento, concluí que o PIB voltou ao valor que teve no segundo trimestre de... 2009 (!). Alguns analistas dirão que começou uma recessão técnica, dada a convenção de que duas taxas trimestrais consecutivas de queda do PIB a caracterizam, e a do trimestre anterior também foi negativa. Foi de -1,5% e passou a -2,5% na nova divulgação. Como a economia está em recuperação no trimestre atual, nele a taxa relativa ao anterior será positiva, o que, dada a mesma convenção, levará ao fim da recessão.

Como noutros artigos, insisto que essa visão é muito estreita. Cabe situá-la num contexto temporal maior, retornando a 2015, quando, nesse ano e em 2016, o PIB caiu num buraco medindo perto de 6% do seu valor. Entre 2017 e 2019 rastejou rumo à superfície apenas a taxas próximas de 1% ao ano, e assim ficou nesse buraco que é uma depressão, algo mais forte e duradouro que uma recessão, e agora ainda mais grave. E repito outra péssima notícia: a de que a economia também está em estagnação desde os anos 1980, status em que ela cresce abaixo do seu potencial.

Meu objetivo com esse quadro é mostrar a enorme dimensão das dificuldades em que nossa economia se meteu, para ver se nossos políticos, autoridades públicas e a sociedade em geral refletem, caem nessa realidade e atuam em sentido contrário. 

Por décadas ela foi desarrumada por políticos e autoridades públicas. Muitas vezes sob pressão ou bênção da própria sociedade e de grupos organizados dentro dela, que acreditam caber predominantemente ao governo atender a seus anseios, sem considerar os custos. Às vezes, até inescrupulosamente. 

Emblemático dessa situação é o Estado do Rio de Janeiro. Ali, segundo o site Poder360, seis governadores foram afastados ou presos nos últimos quatro anos, um permanece detido e quatro recorrem em liberdade. É uma pena. Gilberto Gil gravou um de seus sucessos em 1969, Aquele Abraço, cuja letra assim começa: “O Rio de Janeiro continua lindo...”. Falava da capital, onde a tragédia agora se concentra. Hoje teria de acrescentar: mas só nas fotos aéreas. No noticiário, o Rio também se destaca pelos malfeitos com verbas destinadas ao combate à covid-19, o que pode ter levado a mais mortes.

Um PIB que seguiu pelo mau caminho acima descrito prejudica muito o emprego e leva a um desastre também social. Sintomáticos dele são os dados mostrados por Marcelo Silva, do Brazil Journal. Em números redondos, o Brasil tem 213 milhões de habitantes.

Descontados idosos e crianças até 14 anos, 173 milhões estariam disponíveis para integrar a chamada força de trabalho, mas 77 milhões estão fora dela, em parte por terem desistido de procurar emprego em face da má situação do mercado laboral. Assim a força de trabalho efetiva se limita a 96 milhões, dos quais 13 milhões estão desempregados, e os ocupados são 83 milhões, entre eles 32 milhões sem carteira profissional ou CNPJ, com o que os ocupados com esses documentos são apenas 51 milhões. Socialmente, isso implica ser uma enormidade o número de pessoas sem assistência e sem renda, em particular neste momento. 

O País não é rico, seu enorme orçamento governamental é absorvido por prioridades e “prioridades”, e o atendimento social é precário. O auxílio emergencial de R$ 600 reais mensais foi uma boa ajuda, mas será reduzido para R$ 300, por mais quatro meses. Não há como mantê-lo indefinidamente com maior déficit e endividamento. Em números, o de R$ 600 custava R$ 51,5 bilhões por mês, cerca de 70% mais do que o governo gasta por ano com o Bolsa Família, reconhecido pelo enorme alcance social.

Noutra comparação, feita por Felipe Salto, diretor executivo da Instituição Fiscal Independente, do Senado, nesta mesma página, na segunda-feira, se o auxílio de R$ 600 permanecesse, totalizaria R$ 618 bilhões por ano, o que equivaleria a quase todo o gasto do INSS no ano passado, de R$ 627 bilhões. Acrescento que seria como colocar outro INSS no Orçamento. É algo impensável, dado o desastre orçamentário a que levaria, tendo como consequência, entre outras, outro forte aumento da dívida pública e subidas da taxa de câmbio, da inflação, dos juros e da desconfiança de investidores, prejudicando ainda mais o PIB. 

O que fazer? A economia está sujeita a conveniências políticas que a levaram por maus caminhos. Por isso enfatizo tanto a gravidade da situação, na esperança de levar seus responsáveis ao que chamaria de psicoterapias de grupos para uma análise profunda do que se passa e à busca de consensos majoritários para sair dela, sem ficar só no palavrório e papelório que não resolvem problemas. Tudo deveria convergir para ações eficazes e rápidas para solucioná-los. 

ECONOMISTA (UFMG, USP E HARVARD), PROFESSOR SÊNIOR DA USP. É CONSULTOR ECONÔMICO E DE ENSINO SUPERIOR

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.