PIB caiu um tiquinho e está sem forças para subir um tantão

Hoje o cenário de crescimento por tiquinhos parece o mais verossímil

Roberto Macedo, O Estado de S.Paulo

02 de setembro de 2021 | 03h00

O IBGE anunciou ontem que o produto interno bruto (PIB) caiu 0,1% no segundo trimestre deste ano, relativamente ao anterior. Além de valores em reais, o relatório publicado também abrange números-índices que compõem uma série de dados com média de 1995=100, igualmente apresentada com ajuste sazonal, à qual recorrerei.

Ela mostra que no trimestre anterior o PIB cresceu 1,2% relativamente ao quarto trimestre de 2020, taxa bem forte para uma variação trimestral. Mas cabe examiná-la num contexto mais amplo. O índice do PIB do segundo trimestre de 2021 foi de 171,4, e o do primeiro, 171,5, números bem próximos do valor que tinha no quarto trimestre de 2019 (171,6), concluindo assim a recuperação em V da forte recessão ensejada pela covid-19, iniciada no primeiro trimestre de 2020.

Mas repito que até hoje o PIB não escapou da depressão, algo mais duradouro e forte do que uma recessão, iniciada após o primeiro trimestre de 2014 (!), quando esse índice foi de 177,1 – o maior da série –, depressão essa cujo gráfico tem um formato mais achatado do que um V, como o da parte inferior de um U, durante a qual ocorreram as fortes quedas de 2015-2016 e de 2020. A recuperação desse índice de 177,1, de sete anos atrás (!), exigiria um aumento de 3,3% do PIB a partir do terceiro trimestre de 2021, o que não se concretizará neste ano.

Ora, a previsão do crescimento do PIB em 2021, dada na última sexta-feira pelo relatório semanal Focus, do Banco Central, que sintetiza as avaliações do mercado financeiro, é de um aumento de 5,2%. Não seria o caso de comemorar? De fato, também reiterando argumento já apresentado aqui, essa taxa é excepcional, mas noutro sentido. Desse total, uma parcela vem do fato de que, na comparação ano a ano, a base dessa avaliação, o PIB de 2020, teve uma queda de 4,1%, ficando, nesse ano, com um índice médio trimestral de 163,5, e um valor de 169,4 no quarto trimestre. Se permanecesse aí, sem crescer nada em 2021, só isso levaria a um aumento de 3,6% na comparação com 2020, quando o PIB caiu no buraco de 4,1%. Tecnicamente, isso é um carregamento que o mau desempenho de 2020 trouxe para o PIB de 2021 nessa comparação anual.

Assim, a referida previsão de 5,2% do boletim Focus para o crescimento da economia em 2021 implica que a expectativa implícita nessa taxa é de que durante o ano o PIB aumente apenas mais 1,6% além dos 3,6% do carregamento. Mas já cresceu 1,2% no primeiro trimestre, no segundo caindo para 1,1% até aí.

Também volto a insistir que será indispensável assimilar e divulgar essa diferença entre o crescimento do PIB entre 2020 e 2021 e sua variação dentro de 2021. É bem possível que o governo queira faturar politicamente o forte crescimento que a primeira taxa deve revelar, mas, a bem da verdade, será preciso mostrar as duas e explicar por que a primeira será tão alta.

Quanto ao que vem pela frente, no dia 17 de junho, logo após a divulgação do PIB do primeiro trimestre, publiquei aqui artigo intitulado Novo e robusto aumento do PIB até o fim do ano é improvável. Mantenho essa percepção, e gostaria de estar errado.

Antecipei nesse artigo que o PIB do segundo trimestre teria menor desempenho que o do anterior, pois não contaria com o forte impulso do setor agropecuário no primeiro e a escassez de chuvas no segundo prejudicou várias safras, em particular a do milho, de grande tamanho. Também não via condições de repetir o forte crescimento da formação bruta de capital fixo do primeiro trimestre, muito influenciado pela contabilização interna de plataformas de petróleo já operando no País, mas até então contadas como ativos no exterior. Os dados do segundo trimestre mostraram que o setor agropecuário caiu 2,8% e essa formação de capital foi reduzida em 3,6%. Analisei outros fatores no mesmo artigo e conclui que poderia até mostrar um pequeno retrocesso no segundo trimestre, o que se verificou.

Olhando o segundo semestre, a esperança está numa recuperação mais forte do setor de serviços, que no segundo trimestre cresceu 0,7%, e vale notar que a previsão do boletim Focus acomoda um crescimento de apenas 0,5% do PIB no segundo semestre.

De fato, não há razões para ser otimista. O presidente Bolsonaro não tem um plano de recuperação da economia, só pensa em reeleição e em criar conflitos, o ministro Paulo Guedes perdeu prestígio, ambos estão nas mãos do Centrão gastador, tudo isso gerou um quadro de grandes incertezas, políticas, institucionais e fiscais e há a certeza de uma inflação alta, o que prejudica o ambiente de negócios e a própria confiança do consumidor. Notícia recente no jornal Valor mostrou algo pouco percebido, que exportadores estão deixando parte do seu dinheiro lá fora. Isso reduz a oferta de dólares, contribui para o aumento da taxa de câmbio e, assim, também da inflação. E 2022 será um ano eleitoral, pressionando a gastança fiscal.

Assim, hoje o cenário de crescimento por tiquinhos parece o mais verossímil.


ECONOMISTA (UFMG, USP E HARVARD), PROFESSOR SÊNIOR DA USP. É CONSULTOR ECONÔMICO E DE ENSINO SUPERIOR

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