Polímata? O que é isso?

Economia, muito abrangente, também é assunto para polímatas

Roberto Macedo, O Estado de S.Paulo

07 de janeiro de 2021 | 03h00

Adquiri livro de Peter Burke com este título e subtítulo: O Polímata – Uma História Cultural, de Leonardo da Vinci a Susan Sontag (publicado em 2020 pela editora da Unesp). Não sabia o que era um polímata, e me perguntei conforme o título deste artigo. O autor é professor emérito de História Cultural na Universidade de Cambridge, na Inglaterra. Passou por outras universidades e entre 1994 e 1995 foi professor visitante na USP.

Na introdução, Burke fala de definições de polímata, como a de “alguém que se interessa por muitos assuntos e aprende muitos assuntos”. Concentrado no conhecimento acadêmico, ele se propôs a “falar de estudiosos com interesses que eram ‘enciclopédicos’ no sentido original de percorrer todo o ‘curso’ ou ‘currículo’ intelectual ou, de alguma maneira, determinada parte importante desse currículo”. A. C. Cowling, na contracapa do livro, chamou a obra de “absorvente e polimática”. De fato, conforme a editora a apresenta, ela é por si mesmo abrangente, pois Burke identificou, num “relato envolvente e erudito, (...) quinhentos polímatas ocidentais”. O livro tem 495 páginas, sendo 72 de referências bibliográficas.

A primeira orelha da capa resume o enfoque de Burke, dizendo que, ao analisar os polímatas, “explora suas conquistas abrangentes e evidencia como sua ascensão correspondeu a um rápido crescimento do conhecimento nas eras da invenção da impressão, da descoberta do Novo Mundo, e da Revolução Científica. Só mais recentemente é que a aceleração do conhecimento levou a maior especialização e a um ambiente que dá menos apoio a acadêmicos e cientistas de amplo espectro”.

Grande atenção é dada a Leonardo da Vinci, e ele já é mencionado no próprio subtítulo acima. Um retrato dele ocupa quase toda a capa e também é incluído no livro. Este diz que Da Vinci aprendeu a pintar e esculpir em Florença, depois foi para Milão, onde chamou a atenção de um duque, a quem prometeu “fazer pontes, canhões, catapultas, e – no décimo lugar de sua lista de afazeres – obras de escultura e arquitetura”. Dele recebeu “o cargo de engenheiro do duque (...) responsável não apenas pelos canais e edificações, mas também pela produção de ‘efeitos especiais’ para os desfiles da corte”.

Outra razão do meu interesse pelo livro é que, como economista, entendo que muito do que estudamos, dada a sua complexidade, é assunto para profissionais polímatas, em particular na macroeconomia. Esta trata de agregados econômicos nacionais, como o produto interno bruto (PIB), seu lado da oferta e da demanda, e propõe políticas públicas nas áreas fiscal, monetária, incluindo juros, cambial, social e outras. Em particular na área fiscal, que diz respeito às contas do governo, a influência da política é imensa.

Aliás, quando comecei a estudar economia, o livro-texto introdutório chamava-se Manual de Economia Política, de autoria de Raymond Barre, um francês. Logo em seguida foi trocado por Introdução à Análise Econômica, de Paul Samuelson, americano. Desde meados do século passado, a expressão “economia política”, ainda hoje cultivado por alguns economistas, ficou em segundo plano, pois a especialização na área acadêmica levou até mesmo à pretensão de aproximar a economia da área de exatas. Em inglês fica claro: political economy passou a economics, lembrando physics e mathematics.

Quis ver se Burke também havia encontrado economistas polímatas. Como esperava, nesse grupo ele incluiu John Maynard Keynes, por muitos considerado o mais importante macroeconomista do século passado. Segundo o livro, um amigo o descreveu como “fidalgo, funcionário público, especulador, empresário, jornalista, escritor, fazendeiro, mercador de obras de arte, administrador de teatro, colecionador de livros e meia dúzia de outras coisas”. O próprio Keynes observou que “o mestre em economia deve contar com uma rara combinação de dons. Deve atingir um alto padrão em várias direções diferentes e combinar talentos que nem sempre se encontram juntos. Deve ser, em certa medida, matemático, historiador, estadista e filósofo”.

Outro economista polímata citado pelo livro é Kenneth Boulding. Segundo Burke, ele se definiu “como ‘um economista razoavelmente puro’ até 1949 e ‘um filósofo social bastante impuro’ depois dessa data, explicando que ‘a perseguição de qualquer problema em economia sempre me atraiu para outra ciência antes de compreendê-lo’ e que não ‘existe essa coisa de economia, apenas ciências sociais aplicadas a problemas econômicos’”.

O impasse em que se encontra a economia brasileira cai nesse quadro e se deve, sobretudo, à irresponsabilidade de seus governantes, como o momento atual novamente denuncia. O presidente da República não tem apego ao assunto, o Congresso Nacional segue empurrando com a barriga a questão fiscal e as reformas, e encontra-se em recesso num momento de enormes dificuldades.

Economistas podem optar por economics, mas se quiserem dar palpites é preciso passar à economia política.


ECONOMISTA (UFMG, USP E HARVARD), PROFESSOR SÊNIOR DA USP. É CONSULTOR ECONÔMICO E DE ENSINO SUPERIOR

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