Por que a inflação é mais dolorosa no Brasil

Balanço de Bolsonaro inclui mortandade, desemprego e inflação fora do padrão global.

Rolf Kuntz, O Estado de S.Paulo

10 de outubro de 2021 | 03h00

Inflação no Brasil é sinônimo de fome. Não falta comida, apesar da seca, mas falta dinheiro para comprar alimentos cada vez mais caros. Há um surto inflacionário em todo o mundo, mas por aqui a situação é especialmente dramática. Os preços pagos pelas famílias brasileiras subiram 10,25% nos 12 meses até setembro. No mês anterior a taxa acumulada havia chegado a 9,68%. Isso é mais que o dobro da média, 4,3%, registrada nos 12 meses até agosto nos 38 países da Organização para  Cooperação e  Desenvolvimento Econômico (OCDE). No Grupo dos 20 (G-20) a média foi de 4,5%. No Brasil, o custo da alimentação aumentou 12,54% no período equivalente a um ano. Na OCDE, a média no período anual encerrado em agosto ficou em 3,6%. Os dados nacionais foram divulgados na sexta-feira. No mesmo dia, os mortos pela covid chegaram a 600 mil, número explicável principalmente por erros e omissões do presidente Jair Bolsonaro e seus comandados.

O noticiário tem mostrado cenas de pessoas catando ossos, pelancas e restos de comida. Gente em situação pouco melhor tem conseguido comprar pés de frango. Pés e asas de aves foram sucessos de venda na grande crise de 1982-1983, quando o Brasil quebrou, teve de renegociar a dívida externa e se atolou em recessão. No ABC, famílias de operários ainda empregados formavam grupos de três para sustentar duas em piores condições.

Crises ligadas às contas externas são hoje pouco lembradas. O País é há muitos anos superavitário no comércio exterior, graças, principalmente, a uma agropecuária capaz de abastecer o mercado interno e outros países. Mas o Brasil entrou em 2021 com cerca de 19 milhões de pessoas sem condições de levar comida para casa. Em setembro do ano passado a ajuda emergencial começou a evaporar-se. Em janeiro deste ano milhões haviam afundado na pobreza e o desemprego era maior que em 2019.

Os desempregados eram 14,1 milhões no trimestre móvel encerrado em julho. Se alguma melhora tiver ocorrido a partir de agosto, deve ter sido pouco significativa. Mas os preços continuaram a subir velozmente, corroendo os ganhos familiares já muito limitados.

Recordes sinistros foram batidos no mês passado. A inflação mensal, de 1,16%, foi a maior para um mês de setembro desde 1994, quando a taxa alcançou 1,53%, de acordo com a série do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Esse indicador é baseado no orçamento das famílias com renda mensal de até 40 salários mínimos.

Os dados são mais feios no caso da inflação das famílias mais modestas, com renda mensal de até 5 mínimos. A inflação desse grupo, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), chegou a 1,2% em setembro, com taxa acumulada de 10,78% em 12 meses. O dado mensal também foi o maior desde 1994, ano de lançamento do Plano Real. Insegurança, dólar supervalorizado e imprevidência, como no caso da crise hídrica, explicam o desarranjo extraordinário dos preços no Brasil.

Para os mais otimistas – e mais abonados – houve ao menos dois detalhes positivos nos novos dados de inflação. A alta do IPCA, de 1,16%, foi menor que a mediana das projeções do mercado financeiro, de 1,25%. Além disso, o aumento do item alimentação (1,02%) foi inferior ao de agosto, de 1,39%. Mas a percepção fora da Bolsa é um tanto diferente. Na vida prosaica do dia a dia, o consumidor ainda pagaria muito pelos bens e serviços, mesmo se a inflação de setembro fosse zero: os preços já haviam chegado a um patamar muito alto e continuariam valendo.

Além disso, é cada vez mais difícil, para a maior parte das famílias, ajustar seu orçamento às novas condições do varejo. A inflação tem sido puxada por itens muito importantes, como comida, gás de cozinha e energia elétrica. Nos 12 meses até setembro, os combustíveis domésticos, incluído o gás, encareceram 33,04%, enquanto a tarifa de eletricidade subiu 28,82%, de acordo com o IPCA.

As famílias já têm mudado seus padrões, comprando produtos mais baratos e renunciando a bens e serviços. Mas essas mudanças, além de certos limites, podem ser devastadoras para as condições de vida e especialmente cruéis para quem tem filhos para sustentar e educar.

Em agosto, as vendas do varejo caíram 3,1%, interrompendo, mais uma vez, a recuperação iniciada em maio de 2020. Com muitas oscilações, houve quatro resultados negativos nos meses de janeiro a agosto. Inflação, desemprego e ajuda oficial irregular e insuficiente explicam a maior parte dessa história. Desaceleração do consumo combina com a fraqueza da indústria. Em agosto, a produção industrial foi 0,7% menor que em julho e 0,7% inferior à de um ano antes. A média móvel trimestral caiu 0,8%.

No fim do ano, o Brasil terá saído, provavelmente, do buraco onde afundou em 2020, quando a economia encolheu 4,1%. Mas o crescimento em 2022 ficará, segundo se estima, na faixa de 1% a 1,5%. A inflação ainda será um desafio, os juros continuarão altos e o desemprego permanecerá muito acima dos padrões internacionais, no fim do mandato normal do presidente Jair Bolsonaro, se ele ainda estiver no cargo.

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