Por que Cuba importa

A ilha continua a alimentar uma direita primitiva e uma esquerda anacrônica

Sergio Fausto, O Estado de S.Paulo

25 de julho de 2021 | 03h00

Cuba tem uma importância política e geopolítica muito superior ao seu pequeno território e à sua precária economia.

Para começar, a questão cubana é um tema da política interna dos Estados Unidos. Afeta o resultado das eleições presidenciais sobretudo pela influência decisiva que tem sobre o voto na Flórida, o terceiro Estado com maior número de representantes no colégio eleitoral. Quanto mais atritada for a relação entre Estados Unidos e Cuba, melhor para a extrema direita norte-americana, que tem nos grupos anticastristas naquele Estado uma base política de peso.

A ilha é também diretamente importante para a América Latina. Não é segredo que o serviço de inteligência da Venezuela conta com vários oficiais cubanos treinados em métodos de vigilância e repressão, empregados pelo regime castrista contra dissidentes internos ou agressões externas. Quanto mais avançar a normalização das relações entre Cuba e Estados Unidos, maiores as chances de Havana deixar de ser um dos sustentáculos da ditadura venezuelana.

Barack Obama fez a coisa a certa. Deu um passo na direção correta e só não deu outros porque sabia que não tinha cacife no Congresso para derrubar a legislação do embargo. Cuba e Venezuela devem ser vistas como variáveis de uma mesma equação, a ser resolvida com as pressões cabíveis dentro de relações diplomáticas que respeitem a soberania dos dois países.

A questão cubana tem ainda relevância simbólica. Mais de 60 anos depois da revolução que derrubou a ditadura de Fulgêncio Batista, Cuba continua a alimentar uma direita primitiva, de um lado, e uma esquerda anacrônica, de outro. Aquela se vale da ditadura cubana para mobilizar o fantasma da ameaça comunista e, a pretexto de defender a liberdade, cerceá-la. Esta se vale do embargo norte-americano para desculpar o autoritarismo em Cuba. Superar esse estado de coisas faria bem à democracia na América Latina.


Já houve condições mais favoráveis para ajudar Cuba a encontrar um caminho em direção a um regime de maior liberdade política e econômica. Quando estavam Obama na Casa Branca, Peña Nieto em Los Pinos (palácio presidencial do México) e Lula e depois Dilma no Planalto, o Brasil poderia ter empenhado a sua liderança regional em favor de uma transição gradual em Cuba. Infelizmente, o governo brasileiro decidiu manter relações econômicas e políticas preferenciais com o status quo em Havana e Caracas.

Hoje tudo se tornou mais difícil. Joe Biden tem desafios demais no front doméstico e na política externa para dar prioridade à questão cubana. Da ótica do governo democrata, seria gastar capital político no lugar errado, na hora errada. Já a América Latina se encontra desunida como nunca, incapaz de articular uma voz minimamente uníssona sobre qualquer assunto. A liderança brasileira, se um dia de fato foi assim tão grande quanto se alardeava, está em frangalhos, sob um governo inepto e destrutivo. O México, que já foi ator importante, perdeu gravitação. Está consumido pelas questões da América Central e da fronteira com os Estados Unidos, sob um presidente idiossincrático.

Diante desse quadro, o que fazer, além de esperar que uma combinação virtuosa de eventos se dê nos próximos três anos, período em que haverá eleições presidenciais no Brasil (2022) no México (2024) e nos Estados Unidos (2024) e eleições de meio mandato neste último país (2022)?

O mínimo a fazer é prestar solidariedade às manifestações pacíficas de cubanos e cubanas que protestam contra a falta de liberdade e contra condições precárias de vida, agravadas pela pandemia. Compreender e destacar que há algo novo e promissor nas formas de protesto, agora com protagonismo de artistas que expressam criativamente suas aspirações e experiências de viver como dissidentes em Cuba. Demandar que o governo cubano não os trate como inimigos internos, mas como porta-vozes legítimos de insatisfações reais e cada vez mais prementes. Continuar a criticar o embargo americano, um dejeto da guerra fria a ser jogado na lata de lixo da História.

À parte fazer o necessário, é preciso não fazer o injustificável. Apoiar a repressão do governo cubano aos protestos é não só um pecado, mas também um erro que serve à extrema direita aqui e alhures. Cacoete ideológico de uma esquerda presa a paixões do passado e refratária à crítica e à autocrítica.

Seria um cacoete de menor importância se Lula não lhe pagasse um tributo retórico que alimenta expectativas negativas sobre a política externa do Brasil na eventualidade de ser eleito. Antes de dizer o que disse, o líder petista deveria ter lido a nota do Partido Socialista Chileno que reafirmou a condenação ao embargo, condenou a repressão e pediu ao governo cubano que abra canais de diálogo com as lideranças dissidentes. Na mesma direção, embora um passo atrás, manifestou-se o partido da Frente Ampla, no Uruguai.

Eleito ou não para novo mandato presidencial, Lula pode desempenhar um papel construtivo para bem encaminhar a questão cubana. Se quiser fazer a coisa certa.


DIRETOR-GERAL DA FUNDAÇÃO FHC, É MEMBRO DO GACINT-USP

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