Por que o presidente lida mal com a imprensa

Bolsonaro acredita que celulares livrarão a humanidade da moléstia chamada jornalismo

Eugênio Bucci, jornalista e professor da ECA-USP

14 de fevereiro de 2019 | 04h30

A morte do jornalista Ricardo Boechat, na segunda-feira, ensejou uma manifestação atípica do presidente Jair Bolsonaro. Num pronunciamento exclusivo para o programa Brasil Urgente, da Band, ele deu a entender - embora de modo quase imperceptível - que reconhece a função questionadora do jornalismo. Desta vez, as palavras do chefe de Estado foram excepcionalmente respeitosas em relação aos profissionais de imprensa. Eis o que ele disse de Boechat: “Não (tínhamos) amizade de tomar cerveja, bater um papo, ir no futebol, (tínhamos) uma amizade jornalística, passamos muitos momentos juntos, por vezes (eu) sendo obviamente contrariado por ele, na maioria das vezes sendo elogiado. De vez em quando (Boechat) falava nos programas dele do apelido ‘Jacaré’, porque ele gostava de falar, vivia de boca aberta, no bom sentido, e eu botei esse apelido nele”.

Note-se a expressão “no bom sentido”. O presidente aceita que um mediador do debate público, nos microfones do rádio e da televisão, escancare a boca para falar, desde que, claro, “no bom sentido”. Note-se, ainda, a proporcionalidade que Bolsonaro encontra entre as ocasiões em que teria sido “contrariado” e as ocasiões em que teria sido “elogiado” por Ricardo Boechat.

Segundo a personalíssima estatística de que ele lança mão, o elogio teria sido mais frequente. Portanto, no raciocínio presidencial, o elogio é o que legitima a crítica. Ou: o elogio seria o pedágio a ser pago para que alguém mereça o direito de criticar.

Dessa passagem se pode vislumbrar um pouco mais da visão que o chefe de Estado tem da imprensa. Em caráter excepcional, ele admite a existência da função de criticar o poder, mas, para ele, essa função não pode ser tolerada incondicionalmente. Em sua visão, o elogio é a regra (posto que mais frequente), enquanto a crítica, desde que enunciada “no bom sentido”, há de ser a exceção.

Nos idos de antigamente, nas aulas de Educação Moral e Cívica, durante a ditadura militar, os adolescentes aprendiam que a crítica deveria ser “construtiva”. Em boa medida, parece que é nisso que Jair Bolsonaro acredita. Talvez tenha assistido a aulas de Educação Moral e Cívica.

Em regra, suas palavras têm sido mais ácidas em matéria de liberdade de expressão. Têm sido menos polidas. Em recente tuíte ele usou o substantivo “canalhice” para desqualificar um título jornalístico que julgou incorreto. “Canalhice.” O que fala, por detrás do substantivo, é a velha lógica dos poderes autoritários: se alguém discorda, não adere e não obedece, esse alguém só pode ter uma doença moral qualquer, um vício de caráter. Logo, só os canalhas não elogiam. Entendeu?

Na crença bolsonárica, o modelo de liderança que dá certo se baseia na credulidade da Nação. Credulidade e alinhamento acrítico. Em lugar da credibilidade da imprensa independente, a credulidade no governo casto, salvador e saneador. As evidências de que essa é a crença que habita a imaginação presidencial são incontáveis, profusas, acachapantes e transbordantes. Vêm desde a campanha, quando o candidato do PSL dirigia infâmias contra órgãos de imprensa como se tentasse exorcizar a Pátria, livrá-la do Asmodeu chamado dissenso, uma vez que só a concordância pode unir a Nação.

O presidente abomina a ideia de que o debate público supõe mediadores, níveis de representação e abstrações. Em lugar de relatos factuais elaborados pela instância das redações profissionais, anuncia que prefere a “comunicação direta”. A imprensa seria um atravessador nefasto, um aparelho opositor, uma usina de versões suspeitas sobre os fatos que, além de mentir reiteradamente, é desnecessária em tempos de tecnologias digitais. O presidente acredita que telefones celulares livrarão a humanidade dessa moléstia chamada jornalismo. Foi o que ele disse, com absoluta desinibição, no discurso de diplomação, no Tribunal Superior Eleitoral, no dia 10 de dezembro do ano passado: “Senhoras e senhores, vivenciamos um novo tempo. As eleições de outubro revelaram uma realidade distinta das práticas do passado. O poder popular não precisa mais de intermediação, as novas tecnologias permitiram uma relação direta entre o eleitor e seus representantes. Nesse novo ambiente a crença na liberdade é a melhor garantia de respeito aos altos ideais que balizam nossa Constituição. Diferenças são inerentes a uma sociedade múltipla e complexa como a nossa, mas jamais devemos nos afastar dos ideais que nos unem: o amor à pátria e o compromisso com a construção de um presente de paz e de futuro mais próspero”.

Sejamos francos: quem diz isso não entendeu o lugar do jornalismo numa sociedade “múltipla e complexa”. Para quem acredita nisso, uma redação de jornal não serve para nada, quer dizer, só serve para produzir balbúrdia improdutiva. Bolsonaro concorda com Hugo Chávez e Fidel Castro também nisso: “Pátria o muerte”. E se alguém levantar a mão e disser “ei, eu não amo a pátria, acho que pátria é um constructo ultrapassado, prefiro amar a humanidade”, será banido. Para o presidente, “diferenças são inerentes a uma sociedade múltipla e complexa”, mas “jamais devemos nos afastar do amor à pátria”. Portanto, nenhuma diferença que questione o “amor à pátria” poderá ser tolerada, já que sem “amor à pátria”, não haverá “a construção de um presente de paz e de futuro próspero”. Entendeu?

Enquanto isso, em Brasília, o Decreto 9.690/2019 delegou à Agência Brasileira de Inteligência (Abin) o poder de estabelecer sigilo total sobre documentos públicos. A Presidência da República ergue mais uma barreira contra a liberdade da imprensa de buscar informações de interesse público para entregá-las ao público. Esta é a crença do presidente: o sigilo ajuda, repórter perturba, Twitter salva. O “futuro próspero” será um futuro sem - ou com menos - imprensa. Ou você ainda não entendeu?

*JORNALISTA, EUGÊNIO BUCCI É PROFESSOR DA ECA-USP

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