Previdência e cidadania

Um estudante treinado financeiramente será um cidadão mais bem preparado para a vida

Fabio Giambiagi, O Estado de S.Paulo

06 de maio de 2020 | 03h00

Peço licença aos leitores para sair do noticiário asfixiante do dia a dia e tratar de outros assuntos. Quem procura no Aurélio a definição de cidadania lê que é a “faculdade de ser cidadão e, como tal, ter direitos a exercer ou fruir e deveres a cumprir. O exercício ou gozo dessa faculdade”. Nossas escolas preparam muito mal os indivíduos para a vida. O jovem sai do ensino médio cheio de convicções, mas é incapaz de responder a duas perguntas que todo ser humano deveria estar apto a responder aos 18 anos: 1) Quanto devo poupar até os 25 a 30 anos para poder dar uma entrada para adquirir a minha casa própria? 2) Quanto devo poupar a partir dos 25 a 30 anos, durante três ou quatro décadas, para ter uma renda x quando me aposentar? 

Uma pessoa capacitada e com o domínio do instrumental para responder a essas duas perguntas está muito mais bem preparada que aquele que não tem a menor ideia de quais são as respostas – ou seja, a grande maioria. O triste disso é que a chave para tal está em instrumentos que o aluno aprende no ensino médio, pois basta saber o que é uma progressão geométrica para ter uma ideia da resposta a ambas as questões.

Digamos que uma pessoa queira saber quanto poderia ter como renda complementar por um período de 20 anos a partir dos 65 anos, começando a depositar todos os meses R$ 1 mil a partir dos 45 anos, supondo que se vai aposentar aos 65, com 20 de contribuição. Num mundo de juros, impostos e inflação nulos, se a pessoa contribui com R$ 1 mil por mês durante 20 anos, é óbvio que os saques por outros 20 anos que resultarão do valor acumulado também serão de R$ 1 mil ao mês. Já num mundo de juros reais de 6% ao ano, como o que o Brasil vivenciou até poucos anos atrás, essa renda complementar mensal, mantidas as demais condições, sem impostos nem inflação, se elevaria até R$ 3.207. 

Na vida real, contudo, existem os impostos e os preços mudam. Assim, com o intuito de ajudar as pessoas a traçar a melhor estratégia para seu futuro, em conjunto com Arlete Nese e aproveitando a combinação de nossas experiências profissionais, criamos o Longevità (www. longevitaprevidencia.com), site livre e gratuito que põe à disposição uma série de simuladores que geram tabelas a partir das quais cada usuário pode montar e construir por si mesmo a melhor trajetória de poupança visando a se preparar para quando chegar à aposentaria. Cada tabela do site responde a uma pergunta específica. São elas:

• Qual é a contribuição mensal requerida para ter uma renda mensal complementar de R$ x?

• Qual a renda mensal complementar resultante de contribuições mensais de R$ x?

• Qual é o capital acumulado após certo tempo, em função de contribuições mensais de R$ x?

• Qual é o capital requerido para ter uma renda complementar mensal de R$ x?

• E qual é a renda mensal complementar gerada por um capital de R$ x?

Além das tabelas, há no site artigos que contribuem para maior conhecimento sobre a formação da reserva e os instrumentos da previdência. Por ocasião da publicação de um livro meu acerca de assuntos desenvolvidos com o mesmo espírito, anos atrás, entrei em contato com um diretor de banco para lhe enviar um exemplar. Na conversa, ele, responsável pelo programa de educação previdenciária da instituição, me contou que anos antes, no final de uma palestra, dirigiu-se a ele uma senhora com os olhos marejados e lhe disse: “Agradeço muito a sua palestra, muito importante para mim. Só lamento não ter assistido a ela há 20 anos, porque, se tivesse aprendido então o que aprendi hoje, não estaria passando pelo momento que estou vivendo”. Tratava-se de alguém que tinha tido até então uma vida, em termos financeiros, relativamente folgada e estava às voltas, de repente, com uma realidade para a qual não tinha sido preparada.

Num mundo ideal, os alunos deveriam ter três cursos voltados para estas questões no ensino médio. No primeiro, em torno dos 15 anos de idade, o aluno deveria ser introduzido num curso de conceitos básicos voltados para os fundamentos filosóficos do que aprenderá depois, ligados a noções de prudência, planejamento e preparação para a adversidade. No segundo ano, deveria ter um curso de educação financeira e aprender noções de matemática financeira. No terceiro, deveria mergulhar num curso de educação previdenciária. Mesmo que os caminhos da vida o levem a ser pintor, músico ou professor de Letras, terá extraído ensinamentos úteis para sempre. Uma pessoa financeiramente treinada será um cidadão mais bem preparado para a vida.

Enquanto esse dia não chega, nossa modesta contribuição para tentarmos nos aproximar disso foi criar o site. Trata-se de um instrumento ágil, com um design amigável e rico em soluções em favor do usuário. É totalmente livre e gratuito e qualquer um pode usar. Quisemos colocar nele parte do que aprendemos nas mais de duas décadas e meia que dedicamos ao tema em nossa vida. Esperamos que o usuário goste.

ECONOMISTA

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.