Produtividade descuidada faz mal ao País

Falta ao Brasil uma ação coordenada, uma política de país, que busque melhorar todos os fatores produtivos de forma conjunta.

Robert Schoueri, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2022 | 03h00

Nos meus 100 anos de idade, o que me leva a ficar pregando pelas entidades empresariais um conceito importante que deveria ser seguido por todos, senão o patriotismo, o grande prazer em contribuir com a sociedade, é plantar uma semente que frutifique para a maior competitividade de nossas empresas e negócios, além de antiga paixão pelo tema.

Há mais de 50 anos, numa reunião da diretoria da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Silvio Brandt Correia pediu-me para substituí-lo na presidência do Conselho de Produtividade da federação, por ter uma viagem de última hora. Aceitei, e em poucos dias me vi diante de professores e profissionais do ramo. Fiquei completamente perdido, em razão da profundidade do tema.

Saí amargurado da reunião, e logo comprei diversos livros sobre o assunto, entre eles um de Jean Fourastié, famoso economista francês. Tempos depois, quis o destino que eu conhecesse o autor e com ele trocasse ideias sobre aquele tema. Também me foi muito importante um encontro com especialistas em produtividade dos Estados Unidos.

A produtividade soa como algo cotidiano, entendido por todos. Mas essa aparente simplicidade faz com que o empenho no seu aumento não seja realizado com a energia necessária por setores, empresas e, sobretudo, pelo governo. Isso acaba levando nosso país a ter, em geral, baixa produtividade, o que acaba nos deixando fora dos melhores mercados e privando-nos de empregos melhores, além de outros ganhos importantes.

Em resumo, a produtividade é a quantidade produzida de bens ou serviços dividida pelas quantidades de recursos utilizados, como capital e trabalho. A produção mede resultados, enquanto a produtividade mede desempenho. Falamos de uma medida de capacidade de produção e outra de eficiência. O PIB per capita também é um indicador de produtividade.

É muito importante esclarecer isso e explicar o motivo de minha insistência a respeito deste tema. Na realidade, os custos diminuem se aumentarmos a quantidade produzida com os mesmos fatores de produção, desde que ela seja vendida para completar o processo. Temos um grande mercado interno, mas o mercado externo é, também, muito importante e mais exigente em termos de produtividade.

Para ser mais competitivo nesses mercados, teríamos de trabalhar a competitividade ou eficiência de vários fatores, entre eles: a tecnologia de produção, a eficiência e os custos do trabalho, de máquinas e outros bens de capital, da energia, da logística ligada ao transporte, dos financiamentos, do ônus associado ao governo e outros.

Todos são temas cotidianos, mas tratados usualmente de forma independente. Neste contexto, políticas de benefícios ou incentivos foram implementadas e resolveram parcialmente problemas setoriais, alavancando temporariamente um ou outro produto ou serviço. Mas fica claro que não foi solucionado o problema principal, a falta de uma ação coordenada, uma política de país, que buscasse a melhoria de todos os fatores produtivos de forma conjunta, melhorando nossos índices de competitividade.

Podemos citar exemplos de sucesso, como o de nossos empresários do agronegócio que melhoraram seus índices de produtividade, competindo em mercados globais, com investimentos maciços em aprimoramento do cultivo – neste caso com apoio da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) –, equipamentos modernos, tecnologia da informação, e, mesmo assim, sofrem com as deficiências nas estradas, nos portos, com os roubos de cargas e outros fatores que compõem o amplo contexto da eficiência em sua forma mais abrangente, de política de país, e não apenas de empresas.

Minha preocupação sempre foi voltada para a indústria de transformação, que vemos perder tamanho no PIB nacional, não tanto por sua falta de competência, e sim pela falta de uma política de país, que não percebeu a importância e a qualidade dos empregos envolvidos e impõe ao setor uma enorme carga tributária, que tira a competitividade de vários ramos industriais.

A exportação, outra de minhas paixões, foi perdendo espaço para países até então sem nenhuma expressão no cenário mundial, mas que tiveram uma política definida e um olhar mais voltado para a produtividade sistêmica.

Ouvimos muito a frase “as empresas são eficientes da porta para dentro, mas da porta para fora...”. O que significa isso, senão a falta da aplicação dos conceitos de produtividade para o País como um todo? Eficiência em geral, esse deve ser o tom.

No Brasil, costumamos dizer que não se discute preferência por times de futebol nem religião. Mas há conceitos que são universais e que deveriam fazer parte da formação intelectual de todos os cidadãos, como Pátria, família, educação, saúde, trabalho, honestidade, ética, amizade e... produtividade!

Se plantarmos a semente da produtividade na sociedade em geral, daremos um grande passo para sermos uma nação de futuro promissor.

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ENGENHEIRO, EMPRESÁRIO INDUSTRIAL, MEMBRO DO CONSELHO SUPERIOR DA ASSOCIAÇÃO COMERCIAL DE SÃO PAULO, 

É DIRETOR DO CENTRO DAS INDÚSTRIAS DO ESTADO DE SÃO PAULO (CIESP) E DE OUTRAS ENTIDADES

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