Protagonistas do futuro

Relevância do Sistema S é inquestionável, é um ativo valioso de que o País não pode abrir mão

*Eduardo Eugenio Gouvêa Vieira, O Estado de S.Paulo

07 Janeiro 2019 | 03h00

O futuro do chamado Sistema S foi objeto de polêmica nos últimos dias em razão de comentário do ministro Paulo Guedes num evento que o teve como convidado na sede da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan). Para além de qualquer polêmica vazia, o que importa no momento é discutir com responsabilidade o redesenho inevitável e necessário de um modelo que precisa modernizar-se e adequar-se aos novos tempos.

As representações empresariais podem e devem conduzir – e mesmo tomar a dianteira – um debate propositivo com o novo governo a fim de que, juntos, sejam capazes de alcançar um modelo racional, equilibrado e que concilie tanto o indispensável papel dos Ss na formação profissional e em áreas sensíveis como as de saúde e educação quanto a necessidade de colaborar com a equipe econômica em seu esforço de reequilíbrio das contas públicas e de redução do custo do trabalho.

O canal de interlocução que se abriu com o ministro Paulo Guedes é precioso nesse sentido e deve ser encarado como um avanço no diálogo historicamente difícil dos verdadeiros empresários com esferas de governo. É importante que as entidades de representação empresarial avancem no sentido de desenhar uma posição conjunta para apresentar ao novo governo e que essas mudanças se deem de forma a não deixar desassistido o imenso contingente de brasileiros atendidos pelo Sistema S.

A título de contribuição, entendo que talvez esteja diante de nossos olhos a melhor solução para o problema. Pretendo defendê-la nos debates que se seguirão.

Esta solução envolve a captura de sinergia de uma eventual integração das unidades do Sistema S em todo o Brasil. Ela teria o poder de produzir a economia de 30% sugerida por Paulo Guedes na Firjan. As unidades dos Ss são compostas por escolas, centros de aprendizagem, pesquisa e desenvolvimento, institutos tecnológicos, centros de atendimento médico, cultura e lazer. Além dos custos necessários à manutenção dos serviços em milhares de unidades, há os custos das administrações dos Ss da indústria, do comércio, dos serviços, dos transportes e da agricultura. A eventual integração do sistema reduziria custos de overhead, evitaria que unidades fossem fechadas, impediria a demissão de professores e resultaria em serviços prestados ainda com maior foco e eficiência.

A relevância do Sistema S para o Brasil é inquestionável. O presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Robson Andrade, foi muito feliz, em artigo recente, ao comentar que o ensino técnico é uma das melhores respostas aos desafios impostos pela indústria 4.0. E lembrou que no Brasil apenas 9% recorrem a ele, ao contrário de 53% num país como a Alemanha. A modernização dos Ss certamente terá o poder de atrair um contingente maior de jovens para formação que os capacite num mundo em transformação.

De fato, é preciso observar as boas práticas internacionais e adaptar experiências de sucesso à realidade brasileira. Países como Alemanha, França, Itália e Espanha, entre outros, contam com congêneres do Sistema S. Por lá, assim como aqui, as exigências do mercado e a velocidade das transformações tornam urgentes a requalificação e o aprimoramento profissional.

A crise dos mercados de 2008 obrigou uma nação como a França a lidar com enorme contingente de desempregados. Recentemente, o presidente da principal organização empresarial do setor hoteleiro francês, Roland Héguy, chamou a atenção para cerca de 100 mil vagas não preenchidas em razão da baixa qualificação dos candidatos. Ou seja, a França lida não apenas com a falta de empregos, mas também com o descompasso entre habilidades dos trabalhadores e necessidades das empresas. Para enfrentar o desafio o modelo foi reformado. A preocupação com o desemprego introduziu iniciativas voltadas tanto para a requalificação de trabalhadores desempregados quanto para o aprimoramento dos que se encontram empregados.

É interessante lembrar que, assim como no Brasil, os recursos que sustentam a formação profissional na França são compulsórios e suas entidades de representação empresarial são também gestoras de escolas e centros de formação, muitos dos quais reconhecidos como referência internacional em suas áreas de atuação. Assim como na França, o desafio é imenso num país com 14 milhões de desempregados e milhares de empresas cuja competitividade se vê comprometida diante da ausência de trabalhadores qualificados.

É com base nestas reflexões que se deve enfrentar o desafio do redesenho do Sistema S com responsabilidade. Não basta que o mercado demande 14 milhões de profissionais. É necessário que esses trabalhadores sejam portadores das habilidades necessárias para ocupar suas vagas. E não há estrutura mais qualificada do que a das entidades do Sistema S para cumprir com êxito essa missão. Elas dispõem de capilaridade, metodologia, infraestrutura, escolas, centros de treinamento, mobilidade e, especialmente, profissionais capacitados. É um ativo valioso do qual o País não pode abrir mão.

Por outro lado, todos devem estar conscientes de que a hora é de dialogar com o futuro, não com o passado. E esse futuro precisa fazer sentido para as empresas, sustentáculos políticos e financeiros das representações, e para um país que clama por ajuste das contas públicas e resgate de competitividade em todos os setores.

A verdade é que não há representação empresarial forte sem liberdade, com as amarras de categorias econômicas herdadas do período varguista. E também não há empresas fortes sem uma representação livre, universal, ágil e devidamente inserida em seu tempo. É vital que a representação empresarial se apresente como protagonista do próprio futuro. A hora de fazê-lo é agora, com a união de suas lideranças e a consciência do papel histórico a desempenhar num país que clama por mudanças e deseja se renovar ética e moralmente.

*PRESIDENTE DA FIRJAN

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