Putin 2036

No poder há 20 anos, ele pode se tornar o mais longevo líder russo em tempos modernos

Paulo Roberto da Silva Gomes Filho, O Estado de S.Paulo

15 de julho de 2020 | 03h00

Vladimir Putin já se referiu à desintegração da antiga União Soviética (URSS), em 1991, como o “grande desastre geopolítico do século”. Em 2004, ele já estava no poder quando todos os países-membros do antigo Pacto de Varsóvia, aliança militar liderada pela URSS nos tempos de guerra fria, à exceção da própria Rússia, já estavam integrados à antiga inimiga Otan ou à União Europeia. Ou seja, às portas da Rússia. E, do ponto de vista do presidente russo, essa sempre foi uma situação difícil de aceitar.

Desde 1999 no poder, o presidente Vladimir Putin vem de obter mais uma importante vitória política. Em referendo realizado para a aprovação de mudanças constitucionais, os russos votaram para concordar com a alteração das regras eleitorais. Dessa forma, Putin poderá candidatar-se novamente nas duas próximas eleições. Caso seja vitorioso, Putin, que já está no poder há 20 anos, permanecerá despachando do Kremlin até 2036, tornando-se o mais longevo líder russo em tempos modernos, ultrapassando o ditador Stalin e, em toda a História, ficando atrás apenas do czar Pedro, o Grande, que governou o império russo por 43 anos, entre 1682 e 1725.

Às vésperas do referendo, no último dia 22 de junho, em plena pandemia de covid-19, Putin determinou que fossem realizados os desfiles militares em comemoração pelos 75 anos da vitória na 2.ª Guerra Mundial. Ao mesmo tempo fez divulgar um artigo, de 18 páginas, de sua autoria (https://www.neweurope.eu/article/75th-anniversary-of-the-great-victory-shared-responsibility-to-history-and-our-future/), no qual celebra a atuação soviética e defende a ordem geopolítica inaugurada no pós-guerra, especialmente o Conselho de Segurança da ONU e seus cinco membros permanentes, Rússia, China, Estados Unidos, França e Reino Unido, que têm poder de veto. Putin atribui ao Conselho de Segurança, e muito especialmente ao poder de veto que cada um desses cinco países possui naquele fórum, o fato de o mundo não ter enfrentado uma nova guerra mundial nos últimos 75 anos.

No mesmo documento Putin reforçou sua intenção, expressa no início do ano, de promover uma reunião de cúpula com os líderes desses cinco países para “encontrar respostas para os modernos desafios e ameaças, demonstrando um comprometimento comum e espírito de aliança”. A ênfase no fórum formado pelos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança, em detrimento de outros grupos mais representativos, como, por exemplo, o G-20, demonstra sem disfarces o esforço de Putin de manter seu país relevante geopoliticamente, como legítimo herdeiro da União Soviética, num momento em que o crescimento da China mostra que a bipolaridade mundial teve o seu polo oriental transferido de Moscou para Beijing. Em resumo, Putin quer garantir um lugar de decisão e influência no palco das decisões globais.

Mas o esforço russo não é apenas retórico. Nos 20 anos em que está no poder, Putin adotou políticas no sentido de que a Rússia recuperasse a grandeza e o prestígio geopolítico da antiga União Soviética e recuperasse sua esfera de influência sobre os países vizinhos, em especial no Leste Europeu, no centro da Ásia e, ainda, no Oriente Médio, além de trabalhar para reconstruir seu poderio militar.

Assim, o país atuou militarmente na Chechênia, na Geórgia e no norte do Cáucaso, interveio na Ucrânia, retomando a Crimeia e controlando boa parte da região de Donbass. Além disso, a Rússia interfere decisivamente nas guerras civis da Síria e da Líbia, apoia financeira e militarmente o governo de Nicolás Maduro e atua no chamado “amplo espectro dos conflitos” por meio da internet, em ciberataques contra instituições privadas e públicas em vários países estrangeiros, além de desencadear campanhas de propaganda e desinformação inflamando tensões sociais e tentando interferir em campanhas eleitorais estrangeiras, sendo as últimas eleições presidenciais norte-americanas o caso mais relevante.

No campo militar, a Rússia tem obtido avanços tecnológicos importantes em seu arsenal, como a nova classe de mísseis hipersônicos, novos drones submarinos, além de um novo carro de combate principal.

A “ordem global”, anárquica por natureza, apresenta vários sinais de estar em crise. A absoluta ausência de uma resposta internacionalmente coordenada para a crise da covid-19 é apenas o sinal mais recente e nítido. O sistema internacional se apresenta menos colaborativo e mais frágil. As instâncias internacionais de coordenação e resolução de controvérsias demonstram baixos níveis de representatividade ou credibilidade. É nesse ambiente que o presidente Putin encontra espaço para projetar a sua atuação.

O primeiro-ministro inglês Winston Churchill afirmou, em 1946: “Estou convencido de que não há nada que (os russos)admirem tanto quanto a força, e que não há nada por que tenham menor respeito do que a fraqueza, especialmente a fraqueza militar”.

Talvez esse espírito explique a longevidade de Vladimir Putin no poder.

CORONEL DE CAVALARIA. E-MAIL: PAULOFILHO. GOMES@EB.MIL.BR

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