Quanto o PIB crescerá em 2020? Depende...

No meu ‘depende’, entendo que a taxa deste ano deve ficar abaixo de 2%

Roberto Macedo*, O Estado de S.Paulo

20 de fevereiro de 2020 | 03h00

Certa vez estive presente numa reunião em Brasília na qual se analisava decisão cogitada pelo governo federal. Surgiu uma dúvida jurídica e quem conduzia a reunião disse que recorreria à “turma do depende”, referindo-se à assessoria jurídica disponível. Um de seus membros veio à reunião e a dúvida existente foi-lhe apresentada. Começou a responder dizendo: “Depende...”. E veio uma gargalhada geral. A razão foi-lhe explicada.

Economistas e outros analistas econômicos também usam muito o “depende...”. E essa turma cresceu bastante nos últimos dias, diante de várias dúvidas surgidas quanto à previsão para o crescimento do produto interno bruto (PIB) em 2020 que, segundo o Relatório Focus, do Banco Central, até o último dia 7 era de 2,3%. Algumas previsões já foram revistas – incluída essa – para baixo. Vejamos alguns argumentos que levaram a essas revisões, começando por aqueles que sustentavam os 2,3%.

Em 2019 a economia começou mal, mas foi melhorando ao longo do ano. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as taxas de variação trimestral do PIB no primeiro, no segundo e no terceiro trimestres foram zero, 0,5% e 0,6%, respectivamente, ou seja, cresceram ao longo de 2019.

No final do quarto trimestre do mesmo ano – cujos dados do PIB só serão divulgados pelo IBGE ainda este mês ou no início do próximo, fechando também a taxa anual de 2019 – várias notícias apontaram que o PIB teria desempenho melhor do que no mesmo período de 2018, com destaque para uma no jornal O Globo de 24 de dezembro informando que a Confederação Nacional do Comércio estimava que as vendas do período natalino tivessem levado o varejo a uma alta de 5,2%, marcando o melhor Natal em sete anos. A Confederação Nacional do Comércio também previu uma elevação entre 5,5% e 6% do comércio em 2020. A matéria, contudo, não explicava como essa entidade havia chegado a esses números otimistas – e dados examinados mais à frente contradizem o primeiro deles. Números relativos ao emprego/desemprego também registraram melhor desempenho.

O Relatório Focus mostrou em 27 de dezembro do ano passado a referida previsão de 2,3% para a taxa do PIB de 2020, que era de 2,22% quatro semanas antes. Previsões como essa nova e outras do tipo provocaram o otimismo no mercado financeiro com relação a um crescimento próximo de 2,5% do PIB neste ano.

Na semana passada, entretanto, esse otimismo foi abalado por quatro notícias.

A primeira, a de que o desempenho do comércio foi negativo em dezembro, com queda, relativamente a novembro, de 0,1% no varejo e de 0,8% no chamado varejo ampliado, que inclui materiais de construção e veículos.

A segunda notícia foi a ambiguidade entre uma notícia boa, a de que o setor de serviços havia crescido 1% em 2019, após quatro anos sem crescimento, e uma notícia ruim, a de que a atividade do setor havia caído 0,4% em dezembro em comparação com novembro, numa segunda queda consecutiva, o que também causou a percepção de que houve perda de ritmo da economia no final do ano.

A terceira, na mesma linha, foi a de outro mau desempenho da indústria, que caiu 1% em 2019. E a quarta foi a de que o Banco Central anunciou que um índice seu, o IBC-Br, que faz previsões das taxas do PIB, estimou em 0,89% a sua variação em 2019, bem inferior à de 1,3% registrada pelo IBGE no ano passado e em 2018. Sintetizando o impacto dessas informações, o Boletim Focus do último dia 14 mostrou uma queda de 2,3% para 2,23% de sua previsão para a taxa do PIB em 2020.

Com a próxima divulgação pelo IBGE da taxa de crescimento do PIB em 2019, se ela se revelar bem abaixo da de 2018, será outro fator contrário à perspectiva de um desempenho bem melhor em 2020.

Aqui entro também com o meu “depende”. Há fatores atuando a favor dessa melhoria, como a queda da taxa básica de juros, a existência de capacidade ociosa na economia, que facilita uma retomada do crescimento sem maiores investimentos, o aumento da confiança de empresários e consumidores e o empenho do ministro Paulo Guedes, da Economia, no prosseguimento das reformas, mas num processo marcado por muita lentidão.

Quanto a fatores atuando na direção contrária, a redução da taxa básica de juros, a Selic, já atingiu um piso ou está muito próxima dele, e seu benefício se tem limitado ao governo, que passou a pagar juros menores, o que não é pouca coisa, e a grandes empresas que passaram a recorrer ao mercado de capitais, como ao emitir ações e debêntures, estas a taxas bem inferiores às dos empréstimos dos bancos, que não caíram proporcionalmente à queda da Selic. E ao reduzir o custo de captação dos bancos, essa queda da Selic contribuiu para levar seus lucros a níveis recordes.

O Congresso também parece mais arredio a colaborar com o governo, cuja coordenação política é fraca, e a necessidade de novas reformas não amadureceu tanto como a da Previdência.

Outros fatores também ponderados, no meu entendimento a taxa do PIB deste ano deve ficar abaixo de 2%. Ficarei muito feliz se superar esse valor.

* ROBERTO MACEDO É ECONOMISTA, (UFMG, USP E HARVARD), PROFESSOR SÊNIOR DA USP E CONSULTOR ECONÔMICO E DE ENSINO SUPERIOR

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