Quarentenas e coberturas burras ou inteligentes

Jornalismo rançoso, de superexposição da controvérsia, encomenda mais e mais dissenso

Fernão Lara Mesquita, O Estado de S.Paulo

31 de março de 2020 | 03h00

“Quem não se comunica se estrumbica.” Jair Bolsonaro é um sujeito que tem de ser ouvido “por partes”, como diria Jack, o Estripador. Para entender o que ele diz é preciso separar forma de conteúdo. É uma atitude que requer tomar calmante, porque na forma ele agride com tanta força que o resto ninguém ouve, mas é obrigatória, pois, sendo ele quem é, não é ele, é o Brasil que “se estrumbica”.

A crônica da ultima “birra” é enfática. Para além da citação textual da “gripezinha” de Dráuzio Varella, com que quis ironizar “aquela televisãozinha”, ele tinha recuado suspendendo dívidas e dando outras condições para viabilizar a quarentena nos Estados. Nada era mais fácil e previsível, porém, que uma admoestação pública como a de João Doria provocasse a resposta que provocou...

Ora, tirar Bolsonaro do sério é covardia. Tarefa pra herói que tem mesmo pena do Brasil é ouvir inteligentemente o lado burro dos discursos que profere. É aí que entra a imprensa. Esse jornalismo rançoso, de superexposição de todo e qualquer pelo de controvérsia, encomenda o aprofundamento do dissenso. Anunciar que o passaporte para a exposição de quem vive de voto na telinha é provocar e sustentar controvérsias bem no meio de um desastre é um ato mais criminoso que o do político que topa esse jogo deletério. Mas tem sido a regra. Nada nesta pandemia pode ser compreendido analisando apenas os dados concretos do problema. Ninguém perde muito tempo com eles. O vírus foi politizado como tudo o mais. Ou você é “quarentenista” fechado ou dá briga. É proibido raciocinar em voz alta a respeito. 

E, no entanto, está mais claro a cada minuto que a verdade está no lugar de sempre - o meio - e não há jeito de evitar o pior sem incluir o que há de verdade tanto na necessidade da quarentena burra para não morrer na chegada da doença, quanto na evolução para a inteligente o mais rápido possível para não morrer das consequências da outra.

Na China o governo é a polícia e todas as empresas são monopólios pertencentes ao mesmo patrão, que, além do de empregar, emitir a moeda com que opera suas empresas e aguentar tanto prejuízo quanto quiser nem que o “trabalhador” fique reduzido a comer morcegos, também tem o poder de prender e arrebentar quem ele quiser. Mas nem ela pode brincar com esse fogo. É o país mais avançado do mundo em tecnologia da opressão, o que veio a calhar numa crise como esta. Primeiro fechou Wuhan na marra. Mas o quanto antes passou a testar e tomar temperaturas em massa. Agora, com todo o país fichado no reconhecimento facial e cada chinês vigiado 24 horas por dia, o celular diz ao governo onde ele anda, com quem se encontra e até de quem se aproxima, e o algoritmo da polícia o classifica numa de três categorias: vermelho, amarelo ou verde. É verde quem não saiu do país nem se encontrou com ninguém vermelho ou amarelo nos últimos 14 dias. É amarelo quem veio de fora ou se encontrou com alguém vermelho nos últimos 14 dias. É vermelho quem foi testado positivo ou teve a sua temperatura medida com febre. Isso classifica também as cidades e regiões do país. O trânsito é livre para as verdes, cidades ou pessoas; tudo é restringido para os amarelos; há supressão total da circulação dos vermelhos.

Assim 80% dos chineses voltaram a estar, como sempre estiveram, semissoltos e trabalhando muito, enquanto o resto do mundo continua preso, menos nos países que estão fazendo coisa semelhante com os custos e limitações da liberdade democrática (ou quase), como Coreia do Sul, Cingapura, Taiwan, Alemanha e outros que, livres da contaminação em nível crítico pela pandemia da conflagração ideológica, estão enfrentando o coronavírus com miolos, em vez de bílis, aplicando testes e medindo temperaturas em massa e colhendo números tão bons quanto os da China.

Dinheiro e coordenação são as condições que nos faltam para transitarmos da quarentena burra para a inteligente a tempo de evitar o mergulho que estamos na iminência de dar da miséria para a miséria irreversível. Descobrir onde tem testes, quanto custam, como produzi-los na velocidade necessária, mobilizar “gargalos da quarentena” (supermercados, transportes, etc.) a medir temperaturas são formas de repercutir inteligentemente o modo burro de Bolsonaro afirmar sua parte da verdade desta epidemia e dispensá-lo de fazer a próxima “birra”.

Mas passar adiante dele empurrando-o para a reforma das reformas, que nem ele, muito menos quem hoje o critica, quis ou deixou fazer na profundidade necessária para acabar de uma vez por todas com o sistema de privilégios medieval que destruiu este país, seria a única forma de a imprensa brasileira pagar a sua dívida histórica. Não só porque não escaparemos do abismo sem isso e porque tempo é tudo, mas porque foi por o jornalismo pátrio nunca se ter dignado a fazer uma campanha de denuncia remotamente proporcional ao escândalo que são os privilégios da privilegiatura que a economia brasileira chegou a esta pandemia como o “velhinho” mais depauperado e de mais alto risco no planeta de morrer no primeiro minuto que lhe faltar o ar.

JORNALISTA, ESCREVE EM WWW.VESPEIRO.COM

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