Que clima queremos para as crianças?

Elas são as maiores vítimas das mudanças climáticas. Priorizar os compromissos com o clima hoje é nosso dever com esta e as próximas gerações.

Mariana Luz, O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2022 | 03h00

Diante das emergências causadas pelas fortes chuvas que atingiram Rio de Janeiro, o sul da Bahia e Minas Gerais no início do ano, penso nas crianças e famílias que sofreram tamanhos impactos dessa tragédia. Como sabemos, não há fronteiras ou questões de soberania em mudança do clima, e as crianças são as maiores vítimas dos seus impactos em todo o mundo.

Hoje, todos os meninos e meninas do planeta estão expostos a ao menos um risco climático e ambiental, como ondas de calor, ciclones, poluição do ar, inundações e escassez de água. Milhões deles já vivem em situação que combina mais de uma dessas ameaças, o que aumenta as chances de afetar gravemente seu desenvolvimento.

Segundo dados do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), 820 milhões de crianças – mais de 1/3 do total no mundo – estão atualmente expostas a ondas de calor, com alto risco para a saúde; e uma a cada sete crianças no mundo vivencia situações de inundações fluviais e fica exposta aos riscos inerentes a elas: doenças causadas por água contaminada, perda de condições mínimas de moradia, risco de fome.

Mais: 920 milhões de crianças – mais de 1/3 dos pequenos em todo o planeta – sofrem com escassez de água; e 2 bilhões dos nossos pequenos (quase 90% das crianças no mundo) respiram o ar com nível de poluição muito acima do recomendável. A poluição é especialmente danosa durante o desenvolvimento fetal e os primeiros anos de vida, podendo levar ao aparecimento de doenças crônicas e até à morte. Todos os anos, 570 mil crianças entre zero e 5 anos morrem de doenças respiratórias, como a pneumonia, no mundo. Anualmente, a poluição é fatal para 633 crianças brasileiras com menos de 5 anos.

Aqui, na Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, nos ocupamos dos primeiros anos de vida das crianças e de como garantir que todas tenham assegurado seu direito a um desenvolvimento pleno, nas dimensões física, cognitiva e socioemocional.

Evidências científicas têm repetidamente comprovado que o desenvolvimento na primeira infância gera benefícios para toda a vida daquela criança e da sociedade, com melhoras nos indicadores econômicos, de saúde, segurança e educação. Cuidar das crianças é uma prioridade de cada um de nós e do País – compromisso explícito em nossa Constituição.

A degradação da natureza traz doenças na mesma medida em que o contato saudável com ela promove saúde. Durante o isolamento causado pela pandemia de covid-19, uma pesquisa da Universidade Federal do Rio de Janeiro aferiu que 1/5 (19,4%) das crianças brasileiras de até 5 anos estavam nos níveis de atenção no que se refere à saúde mental. O estudo mostrou que o convívio ao ar livre e a atividade física regular são as principais medidas de proteção para evitar esse quadro.

Outras inúmeras pesquisas já comprovaram o efeito positivo do convívio de crianças com a natureza. Atividades e contato com ambientes naturais contribuem para a força motora, o equilíbrio e a coordenação das crianças, podendo reduzir a tristeza, a raiva e a fadiga, melhorar a atenção e as demais funções cognitivas. Exposição regular à luz natural e ao verde pode ajudar diabéticos a alcançar níveis saudáveis de glicose no sangue.

O ano de 2022 marca a contagem regressiva do conjunto mais significativo de metas que o Brasil e o mundo assumiram para mitigar os efeitos da mudança do clima e promover uma relação de interdependência, conexão e proteção com esta nossa casa chamada planeta Terra. É ano eleitoral e, a partir de 2023, teremos oito anos (dois mandatos) até 2030, prazo estipulado para a redução em 50% da emissão de gases de efeito estufa e para o cumprimento dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS). O Brasil é signatário de ambos.

No bojo dos debates sobre o futuro do País, que possamos focar no que realmente importa: que clima queremos para as crianças? Atualmente, ele está pesado em todas as dimensões, mas o convite é para que ele possa ser leve e de temperaturas mais amenas. Que essa construção possa ser coletiva e participativa, não somente polarizada ou eleitoreira. Mais do que saber escolher quem nos representará na construção deste novo futuro comum, que possamos priorizar os compromissos que temos com o clima, com o meio ambiente e, consequentemente, com a proteção e o desenvolvimento de nossas crianças.

Muitas lideranças da minha geração e das que nos antecederam atuam e atuaram na pavimentação de utopias possíveis. A lógica do desenvolvimento sustentável é suprir as necessidades atuais sem comprometer os insumos para as gerações futuras. Sem inverter esse conceito, neste 2022 precisamos ir além da trajetória rumo às metas 2030 e agregar a visão de que são as gerações futuras, desenvolvidas na sua máxima potência, que conseguirão ter o foco, a criatividade e a disciplina de efetivamente preservar o planeta.

*

CEO DA FUNDAÇÃO MARIA CECILIA SOUTO VIDIGAL, YOUNG GLOBAL LEADER DO FÓRUM ECONÔMICO MUNDIAL, É PRESIDENTE DO CONSELHO DO INSTITUTO ESCOLHAS

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.