Quem tem medo dos fatos?

Os fatos não podem se tornar artefatos do poder. Por isso, eles devem ser apurados e difundidos fora do campo político.

Marcelo de Azevedo Granato, O Estado de S.Paulo

14 de maio de 2022 | 03h00

Num conhecido ensaio de 1967, Verdade e política, Hannah Arendt afirma que, “do ponto de vista da política, a verdade tem um caráter despótico”. Ou seja, o poder político deve curvar-se diante dos fatos efetivamente ocorridos no mundo (a verdade factual). Ou ele os admite ou terá de ocultá-los, dissimulá-los, senão impor a “sua verdade” à comunidade política.

Verdade factual e política devem ser mantidas em campos distintos na opinião de Arendt. A política sempre recorrerá a fatos e eventos, mas a autenticidade (a verdade) deles não será controlada pelo poder político ou por disputas políticas. Os fatos não podem se tornar artefatos do poder. Por isso, eles devem ser apurados e difundidos fora do campo político.

Ainda mais porque a verdade factual não é evidente, nem necessária; os fatos e feitos humanos poderiam não ter acontecido, ou ter acontecido de modo diferente de como efetivamente se deram. Daí a relevância do trabalho da imprensa e a importância de que sua apuração destes fatos e feitos ocorra de maneira imparcial. A imparcialidade é um cânone da atividade jornalística. Atividade que combina aquela apuração com a emissão de opinião, demarcando-as claramente.

Essa demarcação está sob ataque da indústria da desinformação. Uma indústria que não busca credibilidade, mas semear descrédito; que não busca a verdade factual, mas investe contra ela na propagação de “narrativas”. Como escreveu o professor Eugênio Bucci neste espaço, em A confusão que favorece a tirania (24/3/2022), “a verdade dos fatos não existe, só o que existe são versões. No credo das milícias virtuais, não há mais diferença entre juízo de fato e juízo de valor (entre fatos e opiniões)”.

Isso já era um problema no tempo de Hannah Arendt: “O apagamento da linha divisória entre verdade factual e opinião é uma das inúmeras formas que o mentir pode assumir” (Verdade e política).

Em sociedades democráticas e plurais, a verdade factual é defendida por uma imprensa livre e independente, que mira a objetividade, por mais desagradável que ela possa ser aos seus próprios leitores/espectadores, e não a informação à la carte, curvada às convicções e aos desejos deles. A verdade factual não é um item de consumo, não é lazer.

Daí não ser casual que essa imprensa seja um dos alvos da indústria da desinformação. Não é casual nem passageiro, porque “o que está em marcha é uma cultura inteira, desejosa de fundamentalismos (...) Por detrás dos chamados populismos, a cultura antipolítica (...) é a pulsão violenta que hostiliza os fatos” (Eugênio Bucci, no livro Existe democracia sem verdade factual?).

Essa hostilidade aos fatos cresce nas tropas online politicamente mais extremas (produtoras e consumidoras de desinformação) à medida que a imprensa cumpre seu dever de reportar possíveis desmandos, irregularidades ou crimes dos totens políticos delas. Assim se alarga a “tribalização” em curso na nossa sociedade, em que os fatos são descartados em nome de disputas.

E não só nas redes sociais, onde a política se assemelha a uma guerra contínua. Tome-se, por exemplo, o pronunciamento do presidente da República no final de março, quando afirmou que tomaria decisões “contra quem quer que seja” se tivesse o apoio de seu “exército” de apoiadores na “luta do bem contra o mal”. No mês seguinte, ele voltou a falar nesta “luta” (numa alusão à eleição presidencial de outubro), acrescendo que “o bem sempre venceu”.

A quem se destinaram essas declarações? Como elas se relacionavam com a inflação alta ou com as repercussões da guerra na Ucrânia naquele período, com o “orçamento secreto”, com a pobreza que habita esquinas e viadutos das cidades, enfim, com os fatos que importam ao presente e ao futuro do Brasil?

O presidente evita abordar esses fatos não simplesmente porque eles ameaçam sua reeleição. Essa hostilidade aos fatos é estratégica, também, porque exclui a reflexão sobre a política. Argumentos como a “luta do bem contra o mal” induzem as pessoas a não considerar os temas que efetivamente interessam à comunidade onde vivem, isto é, os temas políticos.

Mais ainda: induzem as pessoas a não considerar que os possíveis desdobramentos (positivos ou negativos) desses temas, por pertencerem ao domínio político, dependem direta ou indiretamente da ação delas mesmas.

Não estar consciente disso é entregar-se ao poder político como a uma força inevitável e irresistível, quase natural. Daí, de novo, a importância de uma imprensa livre e independente, que compartilhe com a sociedade os fatos relevantes e as diferentes visões sobre eles, de maneira que as pessoas (ao menos) disponham dos elementos necessários para formar sua própria visão e orientar suas ações no campo político. A política é uma questão de escolha, não de destino.

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DOUTOR EM DIREITO PELA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO (USP) E PELA UNIVERSITÀ DEGLI STUDI DI TORINO, INTEGRANTE DO INSTITUTO NORBERTO BOBBIO, É PROFESSOR DA FACAMP E FADI

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