Realidade e campanha eleitoral

Chega a ser comovente como não se dão conta, governo e aliados do Centrão, da existência de uma crise mais profunda.

Fernando Gabeira, O Estado de S.Paulo

10 de junho de 2022 | 03h00

Há pouco mais de dez anos, um colunista do The New York Times advertia para a alta dos preços de alimentos e de energia, para a sucessão de eventos extremos no clima, o aumento da população mundial e afirmava: daqui a alguns anos, perguntaremos como não entramos em pânico com indícios tão evidentes de uma crise profunda.

Depois disso, entre outras coisas, aconteceram uma pandemia que matou 6,3 milhões de pessoas e uma guerra no leste europeu envolvendo um grande produtor de petróleo e um grande produtor de alimentos, Rússia e Ucrânia. Era de esperar, com tudo isso, que o preço dos alimentos fosse às alturas, impulsionado também pelo valor dos combustíveis.

Interessante como essa crise profunda não chega, ainda, a acionar o sinal de emergência no planeta e como, de certa forma, ela passa ao largo do Brasil, em plena campanha eleitoral. Naturalmente que não escapam ao governo os seus efeitos imediatos, nem poderiam escapar, porque a reeleição de Bolsonaro depende disso. Daí sua encenação, mal ensaiada, de um esforço para baixar o preço da gasolina, do diesel e do gás de cozinha.

Chega a ser comovente como não se dão conta, governo e aliados do Centrão, da existência de uma crise mais profunda. Acham que o preço da energia está um pouco alto e que, com algumas medidas superficiais, tudo voltará ao normal. Não percebem como o mundo mudou nem a própria emergência em que estamos mergulhados. E não creio que ela se resolverá apenas emitindo menos carbono, reduzindo aqui e ali uma prática destrutiva. A própria estrutura do consumo será questionada.

O candidato favorito à Presidência da República promete fazer voltar a felicidade de 20 anos atrás. Mas ela se compunha, também, do estímulo ao consumo de automóveis, algo que talvez não seja mais, passado tanto tempo, um indicador de felicidade.

Quando digo que o consumo terá de ser reavaliado, não me refiro aos itens básicos para uma sobrevivência digna. Portanto, não cabe aqui o argumento de que haja restrição aos pobres. Ao contrário, há margem de avanço nesse campo, mas não um tipo de avanço vivido no passado, uma simples ascensão do consumo da classe média, sem visão crítica de um modelo suicida.

A ideia de Bolsonaro de subvencionar a gasolina, por exemplo, é muito mais do que uma negação da crise. É uma forma de aprofundá-la. Não se fala mais em melhorias no transporte público. No encontro com Elon Musk, por exemplo, ele se interessou mais pelo Twitter do que pela performance de um carro elétrico.

No texto da década passada, os eventos extremos já eram notados. O que diria do Brasil hoje, quando perdemos 233 pessoas em Petrópolis e 129 em Pernambuco?

É como se tudo isso acontecesse num outro planeta. O debate no Brasil é como prosseguir no desenvolvimento, sem nenhuma visão crítica da forma de crescer, como se todos os fatos que se acumulam ao longo dos anos, inclusive a pandemia, fossem apenas um raio em céu azul. A pandemia aconteceu e matou, só no Brasil, até agora, 668 mil pessoas, porém não se associa a doença à relação com os animais e, nem de longe, à proteção da floresta.

Já é sabido como se intensificou o tráfico de animais silvestres na Amazônia e como ele se associa a outras formas de crime, como o garimpo ilegal, a grilagem, o desmatamento. Ainda não se falou em projeto de segurança. Mas a Amazônia é tão controlada por grupos criminosos como os morros do Rio de Janeiro. Que tipo de projeto de segurança pública pode abordar esse problema? Mais da metade do território brasileiro é um espaço de trânsito livre para o crime organizado.

Não creio que essas realidades possam entrar facilmente nas campanhas políticas, condicionadas a prometer crescimento sem uma visão crítica do próprio crescimento. No entanto, elas podem entrar na cogitação dos próprios eleitores. Estamos votando para quê? Vamos continuar apenas colocando um esparadrapo no ferimento ou vamos tratá-lo adequadamente?

Claro que, quando um governo rejeitado pela sua estupidez está em vias de ser derrotado, surge uma grande sensação de alívio. No entanto, é importante vê-lo, também, como uma espécie de bode na sala. A crise profunda que vivemos há algumas décadas foi mantida assim por um processo de negação.

Segundo todos os que estudam o problema, quanto mais a crise se aprofunda, maior a negação. Bolsonaro talvez tenha representado o auge desta tentativa de contornar a realidade: negou a pandemia, nega as mudanças climáticas, acha que pode conter o preço dos combustíveis e subestima a fome que ronda os lares brasileiros. Ele representa o auge da negação.

As eleições brasileiras poderiam ser o início de um encontro com o real. Dificilmente vamos encontrá-lo no modelo de 20 anos atrás. Ele é dinâmico e expressa a necessidade de uma ruptura muito maior do que as clássicas discussões sobre tamanho do Estado, direita e esquerda e toda a atmosfera do século passado.

Talvez, numa campanha política, o eleitor precise mais do que votar num projeto de crescimento econômico, mas compreender que algo se esgotou. Toda a interrogação consequente se volta para a pergunta: que tipo de modelo temos condições de colocar em campo?

*

JORNALISTA

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.