Recuperação em V, W, U ou K?

Temos de inserir a força de trabalho de forma dinâmica e igualitária nas mudanças pós-covid

Antonio Domingos Padula, O Estado de S.Paulo

19 de dezembro de 2020 | 03h00

Embora estejamos ainda em meio à crise, alguns aprendizados e conjecturas acerca da vida pós-pandemia de covid-19 começam a emergir. Os impactos nas atividades econômicas e sociais já revelam a amplitude das rupturas provocadas por interrupções nos fluxos produtivos e relacionamentos sociais necessários para reduzir o ímpeto de proliferação do vírus. Por outro lado, os recentes avanços no desenvolvimento de vacinas abrem perspectivas de que num horizonte próximo os sistemas econômicos e sociais possam voltar a alguma normalidade.

Importantes instituições, como Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional e universidades, entre outras, têm avaliado os impactos e comportamentos dos agentes econômicos no enfrentamento da crise em diferentes partes do mundo e já tentam conceituar e até construir cenários para um futuro próximo. Como serão as configurações produtivas e sociais resultantes dos novos comportamentos que estão emergindo? As observações dessas conceituações revelam que estão se delineando duas frentes de entendimento tanto da crise atual como de seus desdobramentos futuros.

Uma primeira abordagem considera tanto a crise como seus impactos numa perspectiva “conjuntural”. Essa perspectiva entende os sistemas econômicos como mecanismos quase autômatos e que eles estejam respondendo a uma situação de conjuntura e tão logo esta deixe de existir os sistemas voltam a sua normalidade. O sistema funciona de forma “liga-desliga” (Peter S. Goodman, The New York Times, 27/11. Assim, os sistemas econômicos tanto entram em depressão como se recuperam num formato de V.

Para enfrentar a proliferação do vírus, em alguns momentos os países impõem interrupções extremas (lockdown) nas atividades econômicas e sociais, com quedas inimagináveis nessas atividades e consequente desemprego em massa. Tão logo a proliferação do vírus diminua os países voltam a liberar as atividades e a econômica realiza recuperação e ganhos substanciosos, como um V.

Mas, infelizmente, por sua dinâmica biológica, o vírus volta a proliferar e se impõe a necessidade de limitação das atividades econômicas e sociais novamente e, por consequência, novas quedas nas atividades produtivas. Em um ano de convivência com a covid-19 esse fenômeno já se revelou por duas vezes (segunda onda) e em alguns países já se fala na emergência de uma terceira onda. Assim, parece que o sistema está apresentando um comportamento de crise e recuperação na forma de W.

A segunda abordagem conceitual que está emergindo considera que a crise provocada pela pandemia tem natureza “estrutural”. Tanto os novos comportamentos ora sendo observados como seus impactos farão parte das configurações futuras dos sistemas econômicos e sociais. Essa perspectiva considera que decisões de investimento e comportamentos de consumo, que são direcionadores de configurações produtivas e sociais futuras, já estão sendo influenciadas pela crise atual. Tanto as empresas como as pessoas podem se tornar mais conservadoras em suas decisões de investimento e consumo, retardando e estendendo assim o processo de retomada econômica. Nessa perspectiva, a recuperação se daria num formato de U. Já se especula nos meios e instituições acima citados que alguma normalidade só virá lá pelos anos 2023~2025.

Ainda nessa abordagem “estrutural” está emergindo uma perspectiva de recuperação econômica e social na forma de um K. Nessa perspectiva, uma das maiores consequências da crise provocada pela pandemia de covid-19 será o aumento das desigualdades sociais tanto dentro dos países como entre países. Nessa abordagem, um grupo seleto de empresas de tecnologia, comunicação, mídia e poucas outras assumirão cada vez mais poder de monopólio e dominarão os sistemas econômicos (parte superior do K) e dificultarão a emergência de novos negócios e de médias, pequenas e microempresas menos dinâmicas (parte inferior do K). Esse mesmo fenômeno também se manifestará no mercado de trabalho, em que trabalhadores com maiores qualificações e níveis de instrução mais elevados terão maiores oportunidades (parte superior do K), enquanto os de menor qualificação acabarão ficando para trás (parte inferior do K). Essa desigualdade também se intensificará entre países ricos, com capacidade de investimento, e pobres, com insuficiências de capacidade de investimento.

E o Brasil nesses processos de recuperação? Com população, municípios, Estados e União financeiramente exauridos, com insuficiências de capacidade de investimentos, teremos de construir e implementar estratégias, políticas, eleger prioridades e direcionar os recursos escassos para investimentos em infraestruturas física e de comunicação, tecnologia, produtividade, educação básica, capacitação de recursos humanos e inclusão digital, entre outras capacidades, de modo a dinamizar a criação de novos negócios e inserir a força de trabalho de formas dinâmica e igualitária nessas transformações, evitando uma recuperação do tipo K.


PROFESSOR TITULAR NA ESCOLA DE ADMINISTRAÇÃO DA UFRGS. E-MAIL: ADPADULA@EA.UFRGS.BR

 

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