Rede para conectar pessoas

A internet deve servir para promover a partilha e formar verdadeiras comunidades humanas

DOM ODILO P. SCHERER*, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2019 | 03h00

Nem dá para imaginar hoje como seria um mundo sem internet. O seu emprego está em toda parte: nas novas formas de comunicação, no armazenamento e manuseio de dados, na pesquisa científica, nos ambientes de educação e lazer e nos mais diversificados âmbitos do trabalho e das ocupações cotidianas. Sem a internet, tem-se a impressão de voltar a uma era pré-histórica. E nem faz tanto tempo que essa tecnologia se popularizou!

O seu emprego na comunicação, ao mesmo tempo que tende a submergir o usuário numa avalanche de mensagens, deu-lhe a possibilidade de se tornar um comunicador autônomo, num mundo que parece não reconhecer fronteiras de nenhum tipo, nem mesmo éticas. A rede é uma praça atraente e democrática, onde é possível dar espetáculo bonito e também esconder-se atrás de máscaras e atirar pedras nos outros frequentadores deste convívio midiático. Haverá uma proposta humanizada e ética para o uso da rede?

Em diversas partes do mundo, traçam-se linhas para o uso humanizado da internet e um convívio ético na rede. Não é necessário invocar logo alguma forma de censura. Mas pensemos nos malefícios causados pela maré invasiva, fora de quaisquer padrões éticos e morais, de notícias falsas, difamação de pessoas, ataques destrutivos, chantagens e propostas extorsivas contra pessoas e instituições! Pensemos nas consequências comportamentais para os usuários obsessivos, enredados de tal forma na net que já não conseguem mais interagir de maneira serena com o mundo real nem relacionar-se com pessoas em carne e osso!

O papa Francisco manifestou-se diversas vezes sobre o uso da internet e das mídias sociais. Nenhuma condenação em relação à tecnologia: ele alerta para os malefícios do uso inadequado dela e propõe pistas para que a rede contribua para o encontro de pessoas, a solidariedade e os valores que edificam o convívio humano. Em sua recente mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, celebrado pela Igreja Católica no dia 2 de junho, ele pediu que as comunidades midiáticas contribuam para formar comunidades humanas.

A internet abriu possibilidades extraordinárias de acesso à informação, ao saber e à comunicação; mas ela também está se revelando como “um dos locais mais expostos à desinformação e à distorção consciente e pilotada dos fatos e relações interpessoais, a ponto de, muitas vezes, cair no descrédito”, alerta o papa. O uso da rede propicia a interação ágil entre pessoas e instituições, mas ela também é usada para manipular dados pessoais com objetivos nem sempre honestos. E as comunidades de redes sociais não são, necessariamente, comunidades humanas. Com frequência, agregam indivíduos que se reconhecem por interesses e argumentos frágeis e sem relação pessoal. Muitas vezes, a comunidade na rede funda-se em preconceitos, na contraposição a outros grupos, acabando por fomentar a polarização e o ódio.

A imagem da rede, feita de muitos nós e conexões, traduz bem a trama variadíssima de possibilidades e relações que essa tecnologia proporciona. Ocorre que na rede não circulam apenas dados, mas estão envolvidas pessoas; portanto, ela precisa ser humanizada e agregar as características das comunidades humanas e das relações com pessoas reais. “Uma comunidade é tanto mais forte quanto mais ela for coesa e solidária, animada por sentimentos de confiança e empenhada em objetivos compartilháveis”, escreve Francisco. Uma rede verdadeiramente humana e solidária requer a escuta recíproca e o diálogo baseado no uso responsável da linguagem. Requer características semelhantes àquelas das comunidades feitas de encontros pessoais, onde se convive e interage, de maneira realista, com a pluralidade de pessoas e situações.

A internet proporciona oportunidades para o encontro com os outros; mas ela também pode ser como uma teia de aranha, que funciona como armadilha para capturar, levando ao isolamento e ao fechamento das pessoas em si mesmas. Adolescentes são, certamente, os mais expostos a esse risco, na ilusão de que os seguidores na web significam amigos e até confidentes, que podem satisfazer plenamente a necessidade do contato e da interação com outras pessoas. Podem-se formar legiões de eremitas sociais, enredados o tempo todo em contatos midiáticos, mas incapazes de olhar nos olhos e de trocar duas palavras com as pessoas próximas. Isso representa um enorme desafio para a educação, e não apenas para crianças e adolescentes.

Francisco recorre à metáfora do corpo e dos membros para sugerir o uso construtivo e responsável da internet, sobretudo das mídias sociais. No convívio social, ocorre como no corpo humano: os muitos membros, órgãos e funções existem em vista do bem do corpo. Nenhum membro age contra o bem do corpo inteiro, a não ser num organismo enfermo. Na comunidade humana, somos membros uns dos outros e contribuímos para um organismo social sadio. A metáfora do corpo e dos membros fala de nossa identidade antropológica de pessoas, que se funda sobre a comunhão e a alteridade. O outro não deve ser visto como um potencial concorrente, adversário ou inimigo a ser vencido ou eliminado. Ainda que o fosse, deveria ser tratado, mesmo assim, como pessoa digna do mesmo respeito que reivindicamos para nós mesmos.

A internet oferece infinitas possibilidades para tecer relações humanas. Como em tudo, depende do uso que dela se faz e, portanto, da responsabilidade ética de cada um e da sociedade, como um todo, que não pode deixar este poderoso instrumento ser desviado para usos que se voltem contra a própria sociedade. A rede não deve servir, neste caso, para capturar e aprisionar, mas para promover o encontro de pessoas livres, a partilha e a formação de verdadeiras comunidades humanas.

* DOM ODILO P. SCHERER É CARDEAL-ARCEBISPO DE SÃO PAULO

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