Reflexões sobre longevidade

Devemos ter presente a importância que nossos atos representam para os mais jovens

Silvano Raia, O Estado de S.Paulo

24 Dezembro 2018 | 03h00

Completados 88 anos e motivado pelo espírito de Natal, permito-me tecer algumas considerações sobre longevidade lúcida e sobre o significado e melhor uso do tempo adicional que nos oferece. E o faço na esperança de que possam ser úteis aos mais jovens, nesta época em que chegar aos 100 anos deixou de ser uma exceção para constituir uma boa probabilidade.

Viveremos mais que nossos pais. Nossos filhos viverão mais do que nós. Uma criança nascida hoje no Ocidente tem mais de 50% de chance de viver até 105 anos, enquanto somente 1% das nascidas há cem anos tinham esse horizonte.

Essa nova perspectiva de vida determina modificações importantes para as quais não estamos preparados, justificando esforços para melhor compreendê-las. Vivendo mais tempo do que prevíamos, criam-se espaços cujo preenchimento deve merecer reflexão.

De fato, os anos adicionais podem constituir um grande benefício ou uma maldição. Thomas Hobbes descreveu a vida como feia, brutal e curta. Pior do que isso, dizia ele, somente uma vida feia, brutal e longa. Devemos, então, estar preparados para usar esse período adicional a nosso favor como uma dádiva, e não como um castigo.

A longevidade determina uma modificação, às vezes radical, na nossa maneira de agir, o que se reflete na estruturação de toda a sociedade. Minha geração estudou até os 20/30 anos e depois desse período aplicou seus conhecimentos durante outros 30. Hoje, se continuarmos adotando esse hábito, estaremos aos 50/60 completamente desatualizados por causa do geométrico progresso que caracteriza as últimas décadas.

Felizmente, porém, estamos aprendendo que, com planejamento adequado, uma vida mais longa pode oferecer muitas possibilidades inéditas. O centro da questão é como usar o tempo adicional. Como o preenchemos é fundamental para que o acréscimo de tempo de vida tenha uma qualidade que justifique vivê-la.

Lynda Gratton e Andrew Scott, no seu recente livro The 100 Year Life, comentam que temos duas vidas. A segunda começa quando percebemos que só temos uma. Nesse momento nos damos conta de que a partir da sexta década se inverte a importância das nossas responsabilidades em relação ao mundo que nos cerca.

Diminuem as obrigações para com a família, agora já constituída e independente, surgindo um espaço adicional para o convívio com os mais jovens, com os amigos e para o trabalho.

Para bem administrar essa mudança devemos analisar as experiências já vividas, evitando a repetição de erros e programando nossa atividade em base da percepção da nova realidade que se nos apresenta. A sensação é de estar subindo uma montanha, o que nos permite ampliar cada vez mais nosso ângulo de visão, como se tudo e todos passassem a ser observados através de uma lente grande-angular.

É natural, assim, que exerçamos nossa atividade em campos de atuação cada vez mais amplos, modificando nossas prioridades, nossos objetivos e a nossa maneira de agir. Mas mais do que tudo, ao fazê-lo, todos nós, longevos, devemos ter presente a importância que nossos atos representam para os mais jovens.

Nunca como agora foi fundamental transmitir a eles noções de ética, honestidade e respeito aos direitos humanos, valores que, no conjunto, constituem a base do convívio humano. Agora a transmissão desses princípios adquire maior importância por duas razões: de um lado, a necessidade de eles tomarem posição diante de questões decorrentes do progresso em geral e, de outro, à falta completa de esclarecimentos sobre esses temas na mídia digital, que representa sua principal fonte de informação.

A nossa conduta se constitui cada vez mais em exemplo, o que, sob certo aspecto, nos confere a todos o papel de professores. A importância dessa função foi valorizada recentemente por neurofisiologistas italianos. Identificaram um núcleo na região temporal do cérebro, por eles denominado núcleo do espelho. Por ressonância magnética funcional demonstraram que esse núcleo, de início, registra cada movimento, cada ação e mesmo cada estado de espírito percebidos pela primeira vez e quando solicitados mais tarde entram em função novamente para comandar a repetição idêntica dos atos anteriormente registrados. Documentaram assim o aprendizado por mimetismo.

A transmissão de conceitos éticos para as gerações que nos sucedem ganha particular importância pelos dilemas que atualmente o progresso lhes apresenta. Principalmente os criados pela engenharia genética. A recente descoberta de uma técnica denominada CRISPR-Cas9 permite com facilidade e rapidez modificar o genoma de seres vivos, dele subtraindo ou adicionando genes isolados. De um lado, abrem perspectivas inéditas para o tratamento e a prevenção de doenças hereditárias, mas, de outro, criam possibilidades estarrecedoras. Há poucos dias um grupo de cientistas chineses submeteu os resultados de uma pesquisa inédita ao II Congresso Internacional sobre Edição Genética, em Hong Kong. Conseguiram retirar um gene de um embrião humano, daí resultando um bebê geneticamente modificado imune ao HIV.

Entretanto, essa possibilidade da engenharia genética cria também o risco de produzir modificações no genoma humano passíveis de ser transmitidas às gerações futuras. Estaríamos, então, capacitados a modificar a nossa espécie. Com esse poder será difícil coibir iniciativas para aumentar o nosso QI, melhorar o nosso desempenho físico, etc. Voltaríamos, então, agora com muito mais eficiência, ao antigo pesadelo de tentar desenvolver uma raça superior.

É indispensável, portanto, que tomemos ciência de todos esses fatos e, refletindo sobre eles, reprogramemos nossa vida longeva, principalmente, dando mais atenção à formação dos jovens. Se apenas compreendermos a importância dessa problemática, já teremos dado um passo para sua solução.

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