Relação Brasil x EUA

Um ‘player global’, País precisa ampliar suas exportações mundiais, sem ideologias 

Roberto Teixeira da Costa, O Estado de S.Paulo

27 Dezembro 2018 | 03h00

Menciono o artigo de minha autoria ‘O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil’ (frase atribuída ao chanceler Juracy Magalhães), publicado pelo Estadão em 10/11/2000, no qual comentava as eleições havidas nos Estados Unidos em 7/11 e que elegeram George W. Bush presidente e possíveis implicações na relação bilateral entre nossos países, principalmente no que se referia à aceleração da Alca. Concluía que a escolha de Bush não teria forte impacto na área internacional e que o aumento de nossas exportações dependiam basicamente do nosso esforço de vencer barreiras internas. Citava que o dicionário é o único lugar onde a palavra resultado vem antes de trabalho.

Os tempos mudaram depois de 18 anos. Precisamos continuar a trabalhar para aumentar a nossa pauta de produtos exportáveis, agregando valor e buscando solucionar nossos problemas internos, que são o maior obstáculo a uma política mais agressiva do País no cenário internacional.

Nosso país ficou no anedotário quando da eleição para presidente de Juscelino Kubitschek: cunhou-se a frase “chega de intermediários, para a Presidência Lincoln Gordon”, então embaixador dos Estados Unidos no Brasil. Apesar de ser um chiste, mostrava ao longo daquele período a influência dos Estados Unidos, que pelo que me lembro foi intensa. Após sua eleição, as relações do Brasil com os Estados Unidos não foram propriamente modelares, com dificuldade em nosso relacionamento com o Tesouro norte-americano e com o Fundo Monetário Internacional (FMI).

Em tempos recentes, essa relação tem oscilado entre bons e maus momentos, ou mesmo tem havido certa indiferença de parte a parte.

Nos governos de Geisel e Figueiredo prevaleceu o pragmatismo responsável, com uma política externa independente. Lembro ainda que em 1977 Geisel rompeu o acordo militar com os Estados Unidos.

No governo de Fernando Henrique Cardoso vivemos um bom período. E havia com 0 presidente Bill Clinton um clima de diálogo amistoso e respeito recíproco.

Com a eleição de Lula e de George W. Bush, temia-se estranhamento entre os dois líderes. No entanto, no primeiro encontro foi o contrário: forte empatia e simpatia mútuas.

Com a eleição de Barack Obama e a reeleição de Lula, ficou registrada na História dos dois países a frase de Obama: “Esse é o cara”. Do ponto de vista prático, não creio que essa maior simpatia entre os dois presidentes pudesse decisivamente ter afetado a relação de comércio e investimentos.

Com Dilma Rousseff as relações esfriaram bastante, por duas razões básicas:

• A presidente não demonstrava interesse pela política externa e, diferentemente de seus dois antecessores, não marcou presença com contatos frequentes no exterior. Com o Itamaraty não primou por uma relação amistosa.

• Na política externa houve pouco ou nenhum alinhamento com os Estados Unidos, chegando quase ao extremo oposto, ou seja, tudo o que era bom para os Estados Unidos não seria para o Brasil!

Em 2016, passei seis meses na Columbia University de NYC como visiting scholar, durante o período eleitoral que levou Donald Trump à Casa Branca. Nos debates de que participei e também naqueles a que assisti, o Brasil e a América do Sul não foram citados pelas equipes dos candidatos. Era como se não existíssemos no mapa-múndi. A relação com a Rússia, e em menor escala com a China, e os conflitos no Oriente Médio estavam no topo dos debates.

Creio que, após a eleição de Trump, o fato de Michel Temer ter assumido como presidente com mandato reduzido, por causa do impeachment de Dilma, possa explicar essa posição de indiferença. O comércio e os investimentos, no entanto, não se paralisaram.

Com o novo presidente tomando posse em 1.º de janeiro, foi anunciado por ele, e também por seu futuro ministro das Relações Exteriores, que buscaremos maior alinhamento com os Estados Unidos. Essa aproximação ainda não está clara, muito embora tenham sido dadas algumas pistas, seja por declarações do próprio presidente eleito ou de seu chanceler, que indicam uma apreciação por Trump e isolar ainda mais o contato com Cuba e a Venezuela.

Que benefícios nos poderá trazer? Não esquecer que a partir de 2019 Trump terá tempos mais difíceis com uma posição minoritária na Câmara dos Deputados e teremos como prioridade pôr nossa casa em ordem.

Por último, a posição do Brasil no cenário internacional alterou-se substancialmente nos últimos dez anos, quando a China passou a ter papel preponderante em nossa região, particularmente no Brasil, onde vem ocupando posição de destaque como investidora e no comércio bilateral. Há nove anos a China é o maior parceiro comercial do Brasil. Em 2017 o volume de negócios entre os dois países alcançou US$ 87,54 bilhões, dos quais o Brasil importou US$ 28,96 bilhões e exportou US$ 58,58 bilhões.

As empresas chinesas investiram US$ 24,7 bilhões no Brasil em 2017, considerado um recorde nos últimos sete anos. Mais de 200 têm sede no Brasil e muitas delas estão entre as 500 melhores do mundo.

Não resta dúvida de que uma maior aproximação com os Estados Unidos faz todo o sentido. Lembro-me muito bem de uma frase de Fernando Henrique Cardoso: “Fazemos parte da América”. Mas isso não implica deixar de lado um parceiro da importância da China, ou nossos laços tradicionais com os europeus e japoneses, sem falar em nossa posição na América Latina e no Mercosul.

O Brasil precisa continuar a ser um player global, ampliando suas exportações mundiais, sem ideologias e, consequentemente, gerando mais empregos, o desafio maior que temos a enfrentar.

*MEMBRO DO GACINT, É UM DOS FUNDADORES DO CONSELHO EMPRESARIAL DA AMÉRICA LATINA (CEAL)

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