Religião com ciência

Em pleno século 21 existem pessoas que voltaram a acreditar que a Terra é plana...

Michel Schlesinger, O Estado de S.Paulo

09 de maio de 2020 | 03h00

Vivemos num mundo polarizado. Na crise do novo coronavírus, o nós e eles assumiu nova roupagem. Saúde e economia foram transformadas em rivais, como se uma pudesse subsistir sem a contribuição da outra. De maneira similar, ciência e religião estão sendo contrapostas, como se a observância das orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS) representasse falta de fé passível de excomunhão. 

“Dos mitos de criação do mundo de culturas pré-científicas às teorias cosmológicas modernas, a questão de por que existe algo ao invés de nada, ou, em outras palavras, ‘por que o mundo?’, inspirou e inspira tanto o religioso como o ateu.” Essa afirmação aparece no livro A Dança do Universo, do físico e astrônomo brasileiro Marcelo Gleiser, vencedor do Prêmio Templeton de 2019. Considerado o “Oscar da espiritualidade”, o reconhecimento é dado a personalidades que contribuíram para reafirmar a dimensão espiritual da vida. 

“Embora ciência e religião abordem a questão da origem do universo com enfoques e linguagens que têm pouco em comum”, observa o cientista, “certas ideias forçosamente reaparecem, mesmo que vestidas em roupas diferentes”. 

No calendário hebraico, estamos em 5780. Segundo a liturgia que repetimos durante o ano-novo judaico, há pouco menos de 6 mil anos o mundo teria sido criado. Mais especificamente, a contagem marca o aniversário de Adão e Eva, criados no sexto dia da narrativa do Gênesis. Muitos podem ter alguma dificuldade de se conectar com essa mensagem no mundo contemporâneo. Afinal de contas, a ciência aponta para a existência do Homo sapiens há 200 milênios e um universo que tem quase 14 bilhões de anos.

Existem ao menos três formas de se relacionar com essas aparentes contradições. A primeira seria descartar a narrativa religiosa, associando-a a uma etapa primitiva de nossa existência, em que o conhecimento científico não estava disponível. A segunda possibilidade seria dizer que a religião revela uma sabedoria inquestionável, que aponta para um enorme equívoco da abordagem científica. A última alternativa, mais complexa que as anteriores, seria sofisticar a nossa leitura religiosa, por um lado, enquanto agregamos dimensão ética ao método científico, por outro. Em outras palavras, a terceira alternativa é estabelecer um diálogo profundo entre ciência e religião. 

Na opinião do rabino Jonathan Sacks, também ganhador do Prêmio Templeton, mas em 2016, a ciência separa coisas para explicar como funcionam e a religião reúne coisas para entender o que significam. “Quando Darwin desenvolve sua teoria de seleção natural”, afirma Sacks, “ela parece ser incompatível com sua crença cristã. (...) Mais tarde, percebemos que Darwin criou, sem ter essa intenção, uma das mais belas ideias religiosas, que é ‘o Criador fez a criatura, criativa’. (...) Assim”, pondera, então, o rabino inglês, “poderíamos resumir o darwinismo”.

O obscurantismo nos dias atuais contamina a política, que desconfia de evidências científicas amplamente comprovadas, como o efeito estufa e as consequências nefastas do aquecimento global, seja por malícia ou por ignorância. Em pleno século 21, existem pessoas que voltaram a acreditar que a Terra seja plana e existe até mesmo um movimento chamado “terraplanismo”. O fanatismo religioso também se faz presente, infelizmente, na discussão em torno do novo coronavírus.

Mais do que nunca, a aliança entre religião e ciência é necessária para reafirmar o nosso compromisso com um ativismo crítico, que incorpora o conhecimento científico e faz de sua defesa uma tarefa sacramente esclarecida. 

Ao mesmo tempo, acredito que a religião possa contribuir para o debate ético cada vez mais necessário em razão dos avanços científicos. A academia, sem a ética, pode ser fanática a ponto de transformar a ciência numa religião fundamentalista. Isso, de fato, já aconteceu em momentos de positivismo científico e serviu de fundamento para episódios catastróficos de ditaduras e perseguições. 

Distanciar-se da noção de verdade absoluta e incorporar às suas práticas os mecanismos heterodoxos de intuição e acaso, embora não sejam ferramentas acadêmicas clássicas, foram as peças responsáveis por inúmeros avanços científicos. As contribuições da literatura ficcional e da própria fé religiosa à ética científica distanciam-na do fanatismo acadêmico. Marcelo Gleiser sintetiza: “A religião teve (e tem!) um papel crucial no processo criativo de vários cientistas”. 

Se quisermos sair fortalecidos desta pandemia, teremos de superar o obscurantismo fanático e optar por uma religiosidade aliada à investigação científica de ponta. Conjugando o conhecimento disponível em cada geração com a constante busca de sentido ético que a religião estimula, podemos fortalecer uma vida que seja, a um só tempo, esclarecida e sagrada.

BACHAREL EM DIREITO PELA USP, RABINO DA CONGREGAÇÃO ISRAELITA PAULISTA, É REPRESENTANTE DA  CONFEDERAÇÃO ISRAELITA  DO BRASIL PARA O DIÁLOGO  INTER-RELIGIOSO. 

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