Religião e populismo

Uma luz sobre a marcante presença religiosa na eleição e no governo de Bolsonaro

ROBERTO PEREIRA MIGUEL*, O Estado de S.Paulo

14 de julho de 2019 | 03h00

A Religion and Global Society da London School of Economics and Political Science publicou recentemente uma série de artigos sobre a relação entre populismo e religião. Sem desconsiderar os aspectos políticos, sociais e econômicos dos movimentos populistas no Ocidente, os pesquisadores focaram em algo menos tangível, mas não de menor importância, a influenciar a onda populista: a religião. Tais artigos jogam luz sobre a presença marcante da religião tanto na eleição quanto no governo de Jair Bolsonaro.

Em sua análise sobre a série Populismo e Religião, Daniel Coyne demonstra como o próprio conceito de populismo é controverso, podendo ser entendido como algo neutro ou até positivo. Diferentemente de conceitos que apontam para um conjunto de ideias políticas bem definidas, como socialista ou conservador, o termo populismo não é dotado de coerência imediata e parece significar algo vago como a “vontade popular”. O líder populista seria, portanto, aquele que apoia a “vontade do povo”, a qual está baseada num senso de identidade nacional que transcende preferências políticas específicas.

Para Julian Göpffarth, autor do artigo sobre a dimensão espiritual esquecida da política, o sistema político ocidental está baseado tanto nessa noção transcendental de nação quanto no caráter redentor da democracia. Mas ao vincular a vontade do povo à questão da identidade nacional, o populismo não faz amadurecer um programa político que trace um novo futuro para o País. Diferentemente, ele se dirige para além do mundo factual e do pragmático aqui e agora da política cotidiana para lançar um olhar nostálgico a um passado perdido que ele pretende restaurar num futuro utópico. Como demonstra Sophia Gaston em seu artigo sobre a “restauração da Grã-Bretanha perdida”, 63% dos britânicos acreditam que o país esteja em estado de declínio. Tal fenômeno, que se repete em muitos outros países, faz a nostalgia se tornar uma força política importante a impulsionar os movimentos populistas.

Por aqui, a nostalgia de Bolsonaro quanto à época do governo militar, tido como defensor da ordem, dos valores e da identidade nacional, foi demonstrada pelo Estadão (30/3), revelando que, como deputado, Bolsonaro mencionou a ditadura em um quarto de seus discursos no plenário da Câmara. Enquanto fazia saudações à ditadura e relativizava a gravidade das torturas, ele já dava indícios de seu viés populista ao repetir o mantra que viraria slogan de sua campanha: “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”.

Se a militarização do seu governo pretende ser a ponte a unir passado e futuro, a apropriação do discurso religioso confere ao seu empreendimento o que Daniel DeHanas classificou como sendo o caráter sagrado, sobrenatural e apocalíptico do populismo. Tal caráter é afirmado tanto pelo próprio Bolsonaro, que vê o seu governo como uma “missão de Deus”, quanto por seus apoiadores, que o tratam como mito e chegam a compará-lo ao rei Ciro, personagem bíblico apocalíptico responsável pelo resgate do povo judeu do cativeiro babilônico. Como demonstra DeHanas, o fato de o líder populista não ser um religioso no sentido estrito não é visto como problema por seus apoiadores, que relativizam seus desvios de conduta e até mesmo o emprego da violência em face do papel escatológico maior a ele atribuído.

A negação dessa dimensão espiritual da política apontada por Göpffarth é um dos fatores que contribuiriam para a formação de um vácuo espiritual que tende a ser preenchido por movimentos populistas e nacionalistas. A ocupação de tal vácuo é bem demonstrada por Oliver Roy, que analisa o paralelismo entre o declínio da religiosidade tradicional no Ocidente e o crescente apoio conquistado pelos líderes populistas que se apropriam dos símbolos religiosos com finalidades políticas.

Nadia Marzouki e Duncan McDonnell demonstram como os líderes populistas tendem a preencher esse vácuo espiritual, baseando seu discurso em dois pilares antagônicos representados pela luta entre o bem e o mal, ou pelo conflito “nós x eles”. Naturalmente, o líder populista e seus seguidores são os representantes do bem, enquanto o mal aparece vinculado às “elites corruptas” e aos “outros”. A partir dessa polarização, o líder populista oferece a seus seguidores uma espécie de expiação moral, indicando que não é deles a responsabilidade pelos males do país.

Ao repetir frequentemente os dizeres do evangelista João “e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”, Bolsonaro exemplifica bem esse processo expiatório. Ele retira o texto bíblico de seu contexto original, no qual a liberdade anunciada por Jesus se dá no plano individual e em relação ao pecado que, segundo o cristianismo, está dentro de cada um de nós, para utilizá-lo como pretexto contra os movimentos de esquerda e a elite política corrupta, para onde o presidente desloca a realidade do mal a ser combatido.

Para Coyne, a resposta adequada a tais movimentos não pode ser insípida e desprovida de sentimentos. De um lado, os políticos devem ouvir o público, conhecer suas preocupações e combinar políticas mais inteligentes com uma visão igualmente atraente, liberal e inclusiva. De outro, como afirma Nick Baines, a resposta do cristianismo ao populismo deve começar com uma antropologia teológica que afirme que os seres humanos são criados à imagem e semelhança de Deus, não devendo ser categorizados e relativizados por linguagem que leve a rejeição, polarização e violência. Por fim, é preciso identificar e ter coragem para desafiar as mentiras, a manipulação e o subterfúgio de representações falsas da religião, sempre tendo em mente que os cristãos não são chamados apenas a tolerar os outros, mas a amá-los, mesmo que os outros sejam os seus inimigos.

*TEÓLOGO, É MESTRE EM CIÊNCIAS DA RELIGIÃO PELA PUC-SP

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