Reprovação escolar: uma ideia condenada

Já passou da hora de pensar em novos métodos de educar e usar a diversidade a nosso favor, devirar a página e não repeti-la.

Daniel Schnaider, O Estado de S.Paulo

18 de junho de 2022 | 03h00

Uma vez escrevi, sob um prisma pessoal, sobre quão arcaico é o sistema educacional baseado na reprovação acadêmica de crianças que não atingem determinadas notas de corte. O meu comentário, à época, partia de uma memória marcante: eu reprovei a terceira série. Isso não interrompeu meu amor pelos estudos ou o espírito empreendedor, presentes em mim até hoje.

Revisito este tema como pai. Minha menina de 7 anos mostra sua angústia e seu medo de reprovar. A minha opinião é clara: crianças não falham, e sim a sociedade, pais e sistemas educacionais em suas mais distintas esferas – políticas públicas, gestão escolar e professores.

A reprovação pode acontecer por diversos motivos: comportamentais, saúde, até as vulnerabilidades às quais os alunos estão sujeitos em razão do bairro ou do ambiente familiar em que convivem. Repetir não é um resultado que aparece como um sim ou não, é fruto de um ano letivo de trabalho em que, em nenhum momento, o ambiente escolar foi capaz de diagnosticar ou tratar o problema/atraso que a criança apresentou. A repetência é, então, uma forma que a escola encontra para transferir a responsabilidade do fracasso. É a velha prática de apontar um culpado sem nunca resolver o problema.

Voltando à minha história: eu não queria reprovar. Gostava dos meus colegas de classe, tinha uma família maravilhosa, mas me interessava mais pelos deveres de casa do meu irmão oito anos mais velho. Eu tinha particularidades que a escola não absorveu. Era hiperativo, tinha um nível de déficit de atenção e problema de visão. Nunca soube se ninguém reparava ou se era a falta de ferramentas pedagógicas, mas a prova de que não era eu veio com a troca de colégio.

Aos 12 anos, me mudei para outro país e para uma escola mais avançada e, apesar da barreira de adaptação ao novo idioma, professores capazes e sensíveis, com senso de missão, se empenharam em me ajudar. Bastaram alguns testes para me adiantarem dois anos e anular a decisão de repetição.

Essa transferência de culpa que citei é muito grave, pois é na escola que as crianças desenvolvem a sociabilidade, criam os primeiros laços que podem ser vitalícios, fazem as primeiras descobertas sobre suas personalidades, gostos e aptidões. No meio deste terreno fértil, a reprovação vem como um reforço negativo, uma comunicação sobre o fracasso, a mensagem àquele jovem de que ele não é bom o suficiente para estar ali.

Somado a isso, temos a própria lógica da educação brasileira, que vive a polarização entre ensino público e privado, com um grande abismo no meio. O ensino público muitas vezes enfrenta problemas básicos de estrutura e valorização dos professores, somados a problemas como fome, desemprego e violência, que as escolas não conseguem resolver sozinhas. Por outro lado, temos as escolas privadas, que muitas vezes enxergam a educação como mercadoria commoditizada. Dificilmente a escolha do colégio leva em conta o bem-estar das crianças. Em alguns casos, são motivações financeiras, logísticas e até religiosas.

O problema dessas escolhas é que elas nunca vão atender a uma exigência muito subjetiva, que é a adaptação da criança à cultura da escola. Este match fica difícil, principalmente, porque muitas vezes a decisão é “na escola que tem”. Com isso, jovens com viés criativo se moldam a uma caixa para sobreviver a uma escola tecnicista; outros, com forte aptidão para tecnologia, têm dificuldade de se desenvolver sem infraestrutura; e aqueles que muitas vezes são geniais em esportes podem se sentir sufocados em ambientes extremamente rígidos. Essa incompatibilidade nunca é tratada, a única forma de diagnóstico adotada é a nota atribuída em relação ao conhecimento do aluno sobre o conteúdo preestabelecido.

Em Israel, onde passei minha adolescência, muito cedo as crianças fazem testes psicotécnicos para saber suas habilidades cognitivas. A partir disso, o aluno cria uma grade própria em níveis diferentes por matérias que lhe geram maior chance de sucesso, podendo o aluno, no lugar de repetir, escolher ir para uma sala que estimule suas habilidades ou mesmo instituição mais adequada para cada aptidão. Assim, o sistema consegue, na diversidade, prover o melhor ensino para o maior número de alunos.

Talvez por isso ou não, apesar das guerras incessantes, o país cuja sua principal “riqueza natural” é meramente areia conseguiu em pouco mais de 70 anos criar um PIB per capita seis vezes o do Brasil e estar 65 posições à frente no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Israel ocupa o 12.º lugar do ranking de felicidade de sua população, comparado ao país do futebol e do carnaval, na 34.ª posição.

Não defendo um ambiente escolar anárquico, sou a favor do sistema que ajuda a criança a criar a melhor versão de si mesma. Já passou da hora de pensar em novos métodos de educar e usar a diversidade a nosso favor, de virar a página e não repeti-la.

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CEO DA POINTER BY POWERFLEET BRASIL, LÍDER MUNDIAL EM SOLUÇÕES DE INTERNET DAS COISAS (IOT) PARA LOGÍSTICA, INTEGROU A UNIDADE GLOBAL DE TECNOLOGIA DA IBM E A 8200 UNIDADE DE INTELIGÊNCIA ISRAELENSE

 

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