Réquiem para as árvores mortas

Já destruímos mais da metade do nosso hábitat e caminhamos para acabar com o resto

Aloísio de Toledo César*, O Estado de S.Paulo

01 de janeiro de 2020 | 03h00

“O que acontecer com a terra recairá sobre os filhos da terra.” Essa afirmação categórica do chefe índio Seatle foi formulada em 1854, quando o presidente dos Estados Unidos fez à tribo do indígena uma proposta de compra de grande parte das suas terras.

A incrível resposta de Seatle teve enorme repercussão e chegou a ser distribuída pela ONU. “Como poderia comprar ou vender o céu, a tepidez do chão?”, disse ele. “A ideia não tem sentido para nós. Se não possuímos o frescor do ar ou o brilho da água, como podeis querer comprá-los?”

As suas reflexões anteciparam, já naquela época, o risco da destruição que acompanha o processo de ocupação de terras ainda virgens, como acontece em todo o planeta, mas é especialmente grave na Amazônia. Nessa região, atravessadores da pior espécie continuam impunemente a enviar para a Europa aquilo que o Estado em editorial chamou de “ouro” de nossas florestas, ou seja, os ipês, os jatobás, as perobas e muitas outras espécies de enorme exuberância.

Somente no mês de outubro de 2019 foram destruídos 583 quilômetros quadrados daquela linda floresta e até agora não se viu da parte do presidente da República e de seus assessores uma ação enérgica, vigorosa, que permitisse a nós e ao mundo acreditar que ainda é possível salvar as árvores que restam. São muitas, mas diminuem de tamanho a cada ano – e por isso mesmo mereceriam um réquiem, ou seja, uma missa para as árvores mortas (se Mozart estivesse vivo sem dúvida produziria algo tão admirável como o imortal Réquiem em Ré Menor, quase divino de tão sublime).

“Cada pedaço de terra é sagrado para o meu povo. Cada ramo brilhante de um pinheiro, cada punhado de areia nas praias, a penumbra da floresta densa, cada clareira e inseto a zumbir são sagrados na memória e experiência do meu povo”, dizia o índio.

“Os mortos do homem branco esquecem sua terra de origem quando vão caminhar entre as estrelas. Nossos mortos jamais esquecem esta bela terra, pois ela é a mãe do homem vermelho. Somos parte da terra e ela faz parte de nós. As flores perfumadas são nossas irmãs; o cervo, o cavalo, a grande águia, são nossos irmãos. Os picos rochosos, os sulcos úmidos nas campinas, o calor do corpo do potro e o homem – todos pertencem à mesma família.”

Nestes tempos de fenômenos atmosféricos cada vez mais destruidores, época de ar tão sujo que quase o enxergarmos, é preocupante o desinteresse da maior parte das pessoas acerca do que está acontecendo e do que acontecerá se não mudarmos a nossa compulsão de sempre destruir o que conseguimos ocupar.

Na Amazônia e no Pantanal brasileiro o verbo ocupar virou sinônimo de destruir. Essa compulsão destruidora não era novidade para o chefe índio: “Quando o grande chefe branco em Washington manda dizer que deseja comprar nossa terra, pede muito de nós. Sou um selvagem e não compreendo nenhuma outra forma de agir. Vi um milhar de búfalos apodrecendo na planície, abandonados pelo homem branco que os alvejou de um trem em movimento. Eu sou um selvagem e não compreendo como é que o fumegante cavalo de ferro pode ser mais importante que o búfalo, que sacrificamos somente para permanecermos vivos”.

“Vocês devem ensinar às suas crianças que o solo a seus pés é a cinza de nossos avós. Para que respeitem a terra, digam aos seus filhos que ela foi enriquecida com a vida de nosso povo. Ensinem às suas crianças o que ensinamos às nossas, que a terra é nossa mãe. Tudo o que acontecer à terra acontecerá aos filhos da terra. Se os homens cospem no solo, estão cuspindo em si mesmos.”

O historiador inglês Arnold Toynbee, muitos anos depois do índio Seatle, descreveu com incrível poder de convencimento o risco da destruição sem trégua do nosso planeta. No seu livro A Humanidade e a Mãe Terra, prognosticou: “Na progressão da vida na biosfera, em época relativamente recente, em que surgiu o homem, e atualmente, tomamos consciência de que a presença do homem está apresentando agora uma ameaça à habitabilidade da biosfera para todas as formas de vida, inclusive a própria vida humana”.

Toynbee destaca enfaticamente que a humanidade continuou a se comportar na prática como se os recursos não substituíveis da biosfera, como os minerais, fossem inesgotáveis e como se o mar e o ar fossem não poluíveis.

O homem, diz ele, é a primeira espécie de ser vivo em nossa biosfera que adquiriu o poder de destruí-la e, ao assim fazer, de liquidar a si mesmo. Nós já destruímos mais da metade de nosso hábitat e caminhamos celeremente para acabar com o que restou, diante de uma condenável indiferença da maior parte das pessoas, sobretudo de governantes que veem nessa destruição tão somente “algo cultural, sempre foi assim e assim continuará”, como disse o presidente Jair Bolsonaro a respeito das queimadas e derrubadas na Amazônia.

Pior que a indiferença por aquela destruição é a negativa de que esteja sendo feita, assim como se o chefe da Nação e seu ministro da área realmente acreditassem que não há devastação. A sua posição, além de condenável, é reveladora de uma sensibilidade avessa à realidade, assim como se o corte das árvores e as queimadas fossem um “jogo da esquerda” e interesse das ONGs.

O chefe índio Seatle enxergou longe quando se referiu ao homem branco: “Seu apetite vai exaurir a terra, deixando atrás de si só desertos. Isso eu não compreendo. Mesmo o homem branco, a quem Deus acompanha, e com quem conversa como amigo, não pode fugir a esse destino comum. Ele (Deus) é o criador desta terra e ofender a terra é ofender a Deus”.

DESEMBARGADOR APOSENTADO DO TJSP, FOI SECRETÁRIO DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULOP. E-MAIL: ALOÍSIO.PARANA@GMAIL.COM

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