Rumo ao precipício

Esse é o caminho se não houver pronta e efetiva reação ao extermínio da natureza

José Renato Nalini*, O Estado de S.Paulo

11 de outubro de 2019 | 03h00

A inversão de rumos na política ecológica é tão evidente que até os céticos manifestam surpresa. Apurou-se desmatamento recorde, acelerado nos últimos meses, e a resposta foi desqualificar órgão estatal que sempre foi isento. Antes disso o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) era criticado pelos ambientalistas. Hoje, perante a notória aceleração do extermínio da floresta amazônica, o próprio governo o repudia.

A desgraça nunca vem sozinha. Além de liberar os agrotóxicos de maneira considerada irresponsável, altera-se o rótulo para conferir segurança a um produto essencialmente perigoso. Até junho deste ano 262 herbicidas novos foram registrados. No ano passado mais 450 deles obtiveram livre acesso ao território brasileiro, onde vale tudo. E a relação continua a ser incrementada com outros venenos mais.

Não se presta atenção a inúmeros outros pontos vulneráveis na tutela ambiental nesta terra complexa e heterogênea. A poluição é maior a cada instante. Enquanto cidades desenvolvidas devolvem espaços subtraídos ao ser humano e apropriados pelo automóvel, aqui se incentiva o pobre a adquirir seu carro em 72 prestações. Quando teremos carros movidos a combustível limpo?

O resíduo sólido produzido pela ignorância insustentável leva milhões em varrição, coleta e destinação – quase sempre inadequada – do lixo urbano, a testemunhar nossa falta de consciência. São Paulo regrediu na reciclagem. Reaproveita apenas 13% do que poderia servir à indústria de transformação e poupar minguados recursos da comunidade.

Nossos rios foram convertidos em coletores de esgoto e de toda a imundície que uma indústria atrasada não cuida de dar destino. As centenas de córregos encanados para serem substituídos por vias expressas dizimaram a biodiversidade. Fauna e flora dão lugar à caótica edificação de palafitas, cortiços e favelas.

A ocupação de áreas protegidas parece tolerada por quem tem o dever legal de evitá-la. Nem se fala mais em clandestinidade, pois as invasões se dão às claras e sob discreta proteção do sistema.

A judicialização não dá conta de responder aos delitos ambientais. As multas não são cobradas e prescrevem, numa “anistia branca” estimuladora de novos ilícitos. As cúpulas sepultam princípios que o Brasil defendeu durante a falaciosa disseminação de que seríamos pioneiros na defesa do ambiente. Quem ouve hoje falar no princípio da precaução? A equação da balança comercial fala mais alto e é muito mais convincente.

Some-se a tudo isso o recado que exterminadores do futuro entenderam como “liberou geral”, o aceno, depois em recuo, a deixar o Acordo de Paris e a ruptura com os países escandinavos que forneciam recursos para monitorar a devastação da Amazônia e se concluirá que algo poderá surgir em termos de reação. Se o Brasil se despreocupa, o mundo vai assumir a defesa do ambiente. A Igreja do papa Francisco realiza um Sínodo pela Amazônia. Estaria ela a participar de conspiração?

O ufanismo na celebração do ajuste de cooperação entre a União Europeia e o Mercosul, projeto para o qual se empenharam brasileiros hoje esquecidos, pois o que interessa é o momento da formalização, pode dar lugar a uma frustração. A Europa leva a sério a mudança climática. Aprendeu com a destruição de suas florestas, numa era em que a humanidade ainda não tinha noção exata do que ela significa no processo de extinção da vida no planeta.

Uma sociedade esclarecida não consumirá produtos de uma nação que se esqueceu da ecologia e fomenta a elaboração de pesquisas tendenciosas. Costuma-se dizer que o Brasil tem excesso de áreas protegidas. Esquece-se de que boa porção do que mereceu proteção está nas mãos de particulares.

Questiona-se a demarcação indígena sem perquirir o tema da legitimidade. As etnias que aqui estavam no século 16 não tinham nenhum direito à terra? Sua cultura é inferior à do “homem branco”? Qual o título legitimador para o “colonizador” escravizar o índio, praticar genocídio e se apoderar de seu solo ancestral?

O mundo presta atenção ao que acontece no Brasil. A manchete digital do The New York Times no domingo 28/7 foi eloquente: No Brasil, proteções à Amazônia são cortadas e as florestas caem. No mesmo sentido foram o Le Monde e o The Guardian. O correspondente deste em Altamira menciona o ponto de inflexão a partir do qual a floresta não mais se recupera.

O sinal de alerta não pode ser ignorado pelo que resta de lucidez no Brasil. As crianças, mais sensíveis, sabem que o ambiente é tema insuscetível de ser tratado no âmbito estrito das convenções formais. É algo mais sério do que o traçado das fronteiras e a invocação a uma cada vez mais fictícia soberania nacional. Quem está imune à chuva ácida? A desertificação encontra limites fixados pelo homem para dividir o território terrestre em glebas chamadas nações? As ilhas de plástico a flutuarem no oceano contaminado não se aproximam do mar territorial?

A ignorância humana tem um limite: o da ciência, o da verdade, o da constatação dos fatos. É por isso que, a despeito de orientação desnorteada e equivocada, cada pessoa pode fazer a diferença e cobrar atitudes, a partir de si mesmas, para a defesa desse patrimônio de valor incalculável.

O município brasileiro é entidade da Federação. Tem autonomia para cuidar de seu ambiente. Para se tornar mais verde, mais atrativo, mais humano. Estudantes são uma verdadeira instituição que, provida de sadia orientação, pode fazer a diferença em seu âmbito de atuação. Menos tolice e mais papa Francisco e Greta.

Se não houver pronta e efetiva reação ao extermínio da natureza, não haverá como impedir a caminhada rumo ao precipício do caos, da morte e do nada.

*REITOR DA UNIREGISTRAL, DOCENTE DA PÓS-GRADUAÇÃO DA UNINOVE, É AUTOR DE ‘ÉTICA AMBIENTAL’, 4ª ED., RT-THOMSON REUTERS 

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