Sem as florestas e sem os índios

Cada tribo que é extinta representa a morte progressiva de parte da nossa civilização

Aloísio de Toledo César, O Estado de S.Paulo

01 de outubro de 2020 | 03h00

Há mais de 300 anos nós, brasileiros, vimos cortando mais árvores do que plantando e isso indica claramente uma consequência assustadora, que a cada dia mais se avizinha e pode ser trágica. Ficar com menos árvores na Amazônia é muito grave e por isso o mundo todo continua de olho no Brasil, porém mais grave é a extinção progressiva de uma espécie do Homo sapiens que ainda vive em estado primitivo, nossos índios.

Parece inacreditável que o homem tenha obtido o incrível poder material de destruir o mundo em que vivemos, mas não consiga manter viva a última cultura primitiva do planeta. Nenhum lugar do mundo tem, como o Brasil, o privilégio de poder conviver com seres humanos em seu estado natural.

Cerca de 50 anos atrás, em plena Amazônia, pesquisadores encontraram pegadas enormes, que pareciam indicar a existência de índios gigantes. Durante mais de dois anos foram feitas tentativas de aproximação, com a oferta de presentes em certos lugares da mata por eles frequentados. Eles olhavam os presentes, mas não os levavam.

Finalmente, depois de inúmeras tentativas, das quais participei como repórter do Estadão, eles se deixaram ver, mas fugiram assustados. Eram os crenacarores, de altura um pouco acima da média, com pés também um pouco maiores do que o considerado normal. Incrivelmente dóceis, começaram a ser dizimados com a construção da rodovia Transamazônica e hoje talvez poucos deles possam ser vistos em estado primitivo.

Outro exemplo lembrado é também trágico. Naquela mesma época teve início a construção da rodovia que ligaria Manaus à Venezuela e, por infelicidade, atravessava a terra dos atroaris e vaimiris, índios ferozes e antropófagos (são aqueles que comeram o padre francês Caleri, chocando o mundo civilizado). Eles resistiram quanto puderam ao avanço da rodovia, mas acabaram se acomodando e se aculturando.

Esse aculturamento provocado pelo branco resultou na extinção de talvez milhares de tribos, cujos nomes sempre podemos lembrar ao vê-los nas placas de ruas do bairro Indianópolis, em São Paulo. Mas ainda restam algumas e por isso é muito importante lutarmos para preservá-las.

Antes da existência do Homo sapiens, rótulo imerecidamente elogioso que essa espécie sobrevivente de hominídeos deu a si própria, por tola presunção, outras espécies existiram, mas foram absorvidas ou se extinguiram, por motivos distintos.

No que se refere aos nossos índios, tem ficado claro na visão dos cientistas que todos os habitantes pré-colombianos que conseguiram sobreviver nas Américas são descendentes da espécie Homo sapiens, que surgiu provavelmente no sul da África central e se expandiu para as áreas onde hoje estão a Ásia e a Europa. O cálculo dos estudiosos é que o despertar da nossa espécie se tenha dado no período mioceno, entre 20 milhões e 25 milhões de anos atrás, época em que desenvolveram um cérebro maior e mais organizado que o de outros hominídeos. Os habitantes humanos das Américas são descendentes da mesma espécie que durante a última glaciação partiu do nordeste da Ásia e atravessou o Estreito de Bering, istmo temporário que depois submergiu.

Parece ser seguro o entendimento de que o Homo sapiens e os demais hominídeos tenham surgido mesmo ao sul da África central. Não deixa de ser notável que tenham feito a pé, ao longo de milênios, a viagem até a América, desde o Alasca até a Terra do Fogo. O cálculo dos estudiosos é de que isso tenha acontecido há 6 mil anos.

Como em nosso país ainda temos a presença dos descendentes desses incríveis viajantes, que merecem ser preservados, não deixa de ser execrável a conduta dos atuais governantes, que parecem desejar a sua extinção. Sim, na medida em que fecham os olhos à extinção progressiva da Floresta Amazônica, estão ao mesmo tempo concorrendo para o fim trágico da existência de nossos índios.

Essa conduta desconcertante indica o menosprezo do Homo sapiens por si próprio. Ao extinguir simultaneamente nossas florestas e nossos índios torna-se clara uma espécie de matricídio, porque não conseguiremos sobreviver na Mãe Terra se a destruirmos dessa forma impiedosa e nada inteligente.

Cada tribo que é extinta representa a morte progressiva de uma parte de nossa civilização, marcada pela indiferença da maioria das pessoas. Como a sociabilidade humana está confinada aos estreitos limites das relações pessoais, a necessidade imperiosa de manter íntegros os nossos índios passou a depender da figura do Estado, por governos incapazes de enxergar um pouco além do próprio nariz.

O presidente Jair Bolsonaro, por exemplo, parece ter ódio de árvores e de índios e sempre nega a presente extinção progressiva e assustadora, que comove os habitantes de outros países, mais do que a nós mesmos. Como habitante da biosfera, o homem é também filho da Mãe Terra. Se continuar a concorrer para a sua extinção, estará extinguindo a si próprio.

DESEMBARGADOR APOSENTADO DO TJSP, FOI SECRETÁRIO DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO. E-MAIL:  ALOISIO.PARANA@GMAIL.COM

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