Senhora de Aparecida

Mesmo quem não sabe rezar vai ao santuário e a ela dirige seu olhar, seu olhar, seu olhar...

Dom Odilo P. Scherer*, O Estado de S.Paulo

12 de outubro de 2019 | 03h00

As peregrinações a lugares santos fazem parte das manifestações religiosas de quase todas as religiões. Os judeus peregrinam a Jerusalém; os muçulmanos, a Meca; os budistas, aos mosteiros do Tibete; os hinduístas vão se banhar no Rio Ganges; os cristãos em geral vão aos lugares bíblicos, especialmente aos ligados à vida de Jesus Cristo. E os cristãos católicos também vão aos lugares relacionados com a vida dos santos, especialmente com Maria, a mãe de Jesus. E não faltam lugares de peregrinação para as demais religiões.

No Brasil, entre as metas de peregrinação, o Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida é, sem dúvida, o mais destacado. Hoje celebra mais uma vez a sua festa, com centenas de milhares de romeiros vindos de longe e de perto, a pé, a cavalo, de ônibus e com outros meios. Chegam cansados, mas felizes. Muitos choram ao avistar de longe a grandiosa cúpula da basílica dedicada à padroeira do Brasil.

Chegar a Aparecida mexe com o coração dos peregrinos; é como voltar à casa da mãe, onde tudo é familiar, há lugar para todos, comida caseira, carinho e convívio familiar. Aparecida é a imagem daquele lugar com que se sonha longamente e se quer alcançar para lá permanecer, sem pressa de ir embora. Lembra as peregrinações do povo bíblico, que ia com frequência a Jerusalém, à casa do Senhor. “Que alegria quando me disseram: vamos para a casa do Senhor!”. Avistar ao longe a Cidade Santa enchia de emoção o coração do peregrino, ansioso por chegar e adentrar os umbrais do sagrado templo de Deus.

O que procuram em Aparecida os peregrinos, que já passam de 12 milhões anualmente? Os santuários, em todas as religiões, são lugares de uma especial experiência de Deus, do divino entre os humanos. Nos santuários procura-se o encontro com a memória, a vida e os ensinamentos de um santo, um sábio, um “homem de Deus”. Quem vai em peregrinação, por algum motivo, também gostaria de ter hoje esse encontro com o divino e o sobrenatural. Ali o sentimento religioso aflora de maneira exuberante e se expressa em rituais coletivos ou individuais. Esclarecida ou confusa, a fé religiosa manifesta-se com mil expressões espontâneas do coração e, por isso, elas revelam algo de muito autêntico e verdadeiro das pessoas.

Há quem cumpra uma promessa por meio de uma prece balbuciada entre lágrimas, quem acenda uma vela, erga as mãos em prece para uma imagem, entoe cânticos, fique em silêncio. Cada um tem uma história para contar sobre uma graça alcançada, ou a alcançar; um sonho para confiar a quem é poderoso para interceder ou conceder o favor desejado. O santuário é lugar para reconhecer as próprias fragilidades e limitações, de buscar ajuda, de confiar em quem pode mais do que nós... E mesmo quem não sabe rezar ali vai com emoção, só para olhar e confiar os segredos e angústias do coração a quem pode ajudar.

A devoção católica a Nossa Senhora Aparecida tem tudo isso e mais. No santuário há celebrações da missa, confissões e os demais sacramentos da fé cristã. Há muito anúncio da palavra de Deus, bênçãos e consolo para as pessoas nas mais diversas aflições. Elas são ajudadas a se encontrar com Aquele que realmente pode responder às buscas e confortar nas angústias humanas. Maria, a mãe de Jesus, é aquela que as pessoas procuram. E ela, mãe do Salvador, desempenha o seu papel de acolher os peregrinos, encaminhando-os para Jesus Cristo, com a recomendação: “Fazei tudo o que Ele vos disser!” (João, 2,4).

Maria não é uma divindade. Ela é a humilde “serva do Senhor”, de poucas palavras, inteiramente devotada a Deus. Por graça e escolha do Todo-Poderoso, ela é a mãe d’Aquele que a fé cristã proclama como filho de Deus. E foi o próprio Jesus Cristo que, ao morrer na cruz, lhe entregou todos homens e mulheres como filhos e filhas: “Mulher, eis o teu filho!”. E recomendou aos filhos que tivessem consideração por ela e nela confiassem: “Filho, eis tua mãe” (Jo 19,26-27). Por isso, desde o início do cristianismo, Maria ocupa lugar de destaque na vida da comunidade da Igreja e no coração do povo cristão.

Exageros devocionais à parte, ou expressões da fé popular nem sempre rigidamente afinados com a genuína doutrina da fé, a Igreja Católica tem em grande conta a veneração à mãe do Salvador. E nem poderia ser diferente. Como explicar a um filho se alguém fala mal da mãe dele ou a despreza? Como pretender honrar Jesus Salvador sendo indiferente diante de sua mãe? A verdade é que o devotamento a Maria sempre tem que ver com a fé em Jesus Cristo. Ela só é grande e “bendita entre todas as mulheres” porque é bendito o fruto do seu ventre, Jesus.

A especial devoção a Maria na tradição católica se explica a partir do lugar que ela ocupa na vida de Jesus Cristo e da Igreja. Onde está Jesus, Maria, sua mãe, também está. Ela o acompanhou durante a sua vida neste mundo e agora está perto d’Ele na glória celeste. Assim, quem se aproxima de Maria, não está longe de Jesus e pode ter a certeza de que ela o leva até Jesus. Isso não tira nada da soberana suficiência mediadora de Cristo Salvador, como professa a fé cristã. Não se poderia imaginar que não desse ouvidos às súplicas da mãe no céu quem a escolheu para ser sua mãe na terra...

O povo católico também sabe que Maria faz parte da Igreja, a comunidade dos discípulos de Jesus Cristo. Onde estão reunidos os discípulos de Jesus, aí a mãe d’Ele também está com eles. Ela nunca está longe da Igreja reunida em nome de Cristo. E o povo intui isso na sua fé simples, dirigindo-se a ela com suas preces, seus louvores e suas súplicas. Mas sabem que ela os levará a Jesus Cristo, o redentor de todos.

É por isso que também o “caipira pirapora” vai em romaria e prece para junto da Senhora de Aparecida. E a seus pés, mesmo sem saber rezar, dirige a ela apenas seu olhar, seu olhar, seu olhar...

*CARDEAL-ARCEBISPO DE SÃO PAULO

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