Sobre princípios e esferas de valor

Síntese do livro do filósofo inglês Roger Scruton 'Como Ser um Conservador'

Fabio de Biazzi, O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2019 | 03h00

"As coisas estão na sela e cavalgam a humanidade", dizia Emerson há longínquos 172 anos. Se voltasse à vida hoje e deparasse com o que parece acontecer no Brasil e mundo afora, sua conclusão provavelmente não seria muito diferente. Em meio à crescente dificuldade de enxergarmos aonde vamos parar e quais são as forças que nos conduzem, como saber se estamos caminhando para a frente ou para trás? O futuro será mais civilizado ou menos?

Para uma difícil e complexa reflexão como essa, talvez um passo modesto, mas útil, seja tentarmos revisitar aquilo em que acreditamos e, por consequência, melhor compreender a quem ou a que acabamos por dar suporte e quem ou o que colocamos na sela. Convidaria, então, ao seguinte desafio: é possível destacar dentre as dez sínteses abaixo uma ou duas com as quais você não se identifica ou não concorda?

1) Democracia - Numa democracia os indivíduos se associam livremente, formam comunidades de interesse e respeitam os direitos de quem não conhecem. Um governo legítimo surge de eleições, mas também do respeito às leis e do "espírito público que responsabiliza os políticos eleitos".

2) Liberdade de expressão - "A liberdade de considerar e de expressar opiniões, por mais que sejam ofensivas para alguns, é condição sine qua non de uma sociedade livre." A tolerância implica "aceitar o direito dos outros de pensar e agir de um modo que desaprovamos", o que também significa que não devemos "renunciar a todas as opiniões que outros podem achar ofensivas".

3) Papel do Estado - "O Estado só pode redistribuir riqueza se ela for criada, e a riqueza é criada por aqueles que esperam deter uma parcela." A precificação e alocação racional de recursos, bens e serviços só ocorre "onde há confiança entre os integrantes, e a confiança só existe onde as pessoas assumem responsabilidade por seus atos e se tornam responsáveis por aqueles com quem negociam". O Estado deveria apoiar os que não conseguiram condições dignas por conta própria, mas não pode ser o "provedor e regulador universal".

4) Soberania - As nações crescem "por hábitos desenvolvidos a partir da livre associação entre vizinhos e que resultam em lealdades que são anexadas ao lugar e à sua história". A soberania nacional "inclui o direito de determinar quem reside dentro das fronteiras, quem controla os ativos da nação e quem tem direito aos benefícios da cidadania".

5) Cultura - "A cultura de uma sociedade ou de um país deve permitir às pessoas de origens e formações diversas viverem juntas com base em costumes, tradições e no comportamento perante seus vizinhos." A cultura deve permitir "uma grande variedade de modos de vida" e que "as pessoas tornem privados a religião e os costumes familiares, embora continuem a pertencer à esfera das relações públicas e se sujeitem às mesmas leis".

6) Relações pessoais - A sociedade "depende de relações de afeto e lealdade que só podem ser construídas de baixo para cima, por uma interação face a face. É assim - na família, nos clubes e nas associações, na escola e nos locais de trabalho - que as pessoas aprendem a interagir como seres livres, assumindo responsabilidade por seus atos e levando em consideração o próximo". As relações são voluntárias e consensuais e nós somos responsáveis pelos "passos que damos para adequá-las, acomodá-las e corrigi-las".

7) Educação e família - A família "é a base e a fonte dos vínculos afetivos fundamentais" e essencial para a transmissão de valores e da noção de certo e errado às crianças, ou seja, de uma educação moral. "As obrigações assumidas pelos parceiros vão muito além de qualquer contrato", pois englobam os muitos deveres para com os filhos, que dependem do cuidado e atenção dos pais.

8) Religião - "Uma religião instituída, tolerante quanto à divergência pacífica, é parte da sociedade civil, vincula as pessoas aos lares e aos semelhantes, e dota os sentimentos de certezas morais que as pessoas não conseguiriam adquirir facilmente de outro modo." No entanto, a obediência religiosa "não é um elemento necessário da cidadania". Os valores cristãos de nossa sociedade fundamentam e influenciam atitudes e costumes, mas não se exige a adoção forçada da religião e se "reconhece a prioridade da lei secular".

9) Meio ambiente - A maioria dos problemas ambientais "surgiu do nosso hábito, bastante razoável, de desfrutar os benefícios das atividades e transferir os custos. A solução é descobrir as motivações que farão regressar os custos para quem os criou". Precisamos adequar nosso consumo, assumir custos e "pressionar as empresas a fazerem o mesmo". Soluções locais, adotadas no país e "moldadas por causas de pessoas reais" são cruciais se quisermos "combater os efeitos negativos da economia global".

10) Civilização - "As coisas admiráveis são facilmente destruídas, mas não são facilmente criadas. Isso é verdade, sobretudo, em relação às boas coisas que nos chegam como bens coletivos: paz, liberdade, lei, civilidade, espírito público, segurança da propriedade e da vida familiar, tudo o que depende da cooperação com os demais, visto que não temos os meios de obtê-las isoladamente. Em relação a tais coisas, o trabalho de destruição é rápido, fácil e recreativo; o labor da criação é lento, árduo e maçante."

Se você leu esses dez pontos e concordou com todos ou quase todos, muito cuidado! Eles foram sintetizados de uma obra do filósofo inglês Roger Scruton - com ótima tradução de Bruno Garschagen. Seu título é Como Ser um Conservador. Por isso, melhor ler o livro inteiro para se certificar, pois há um enorme risco de você ser - que horror - um conservador.

ENGENHEIRO DE PRODUÇÃO, MESTRE E DOUTOR PELA ESCOLA POLITÉCNICA DA USP, É PROFESSOR DE LIDERANÇA E COMPORTAMENTO ORGANIZACIONAL DO INSPER

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