Solução do problema Bolsonaro está engavetada na Câmara

O golpista será o maior beneficiado, se acreditarem no seu aceno de paz.

Rolf Kuntz, O Estado de S.Paulo

12 de setembro de 2021 | 03h00

Tão falsa quanto uma nota de sete reais, ou mais falsa, se isso for possível, é a nota emitida pelo presidente Jair Bolsonaro na quinta-feira, dois dias depois de sua investida golpista contra o Supremo Tribunal Federal (STF). O maior beneficiário de qualquer trégua, de qualquer distensão depois da baderna do Dia da Independência, é ele mesmo, o líder da massa manipulada para apoiar o ataque às instituições. O recuo do agressor, na ação pacificadora do ex-presidente Michel Temer, é repetição de um lance já visto muitas vezes. Esse lance foi sempre seguido, em pouco tempo, de uma nova barbaridade. Não há por que imaginar, agora, algo diferente. A solução mais segura e mais duradoura para o problema Bolsonaro seria mesmo o seu afastamento, completado por uma sentença de inelegibilidade. Mas um processo de impeachment, dizem tanto os malandros quanto os praticantes do autoengano, traria instabilidade.

Que um trouxa acredite nisso pode parecer normal. Intrigante, ao menos à primeira vista, é observar os espertos do mercado financeiro participando desse jogo. A Bolsa subiu e o dólar caiu depois de publicada a nota de Bolsonaro, na quinta-feira à tarde. Teria surgido, mesmo, algum motivo real de alívio? Na sexta-feira já havia, no mercado, quem perguntasse quanto tempo duraria o recuo. Não havia resposta segura, mas ainda se poderia ganhar alguma coisa no momento de calmaria.

Só um aprendiz de Poliana poderia acreditar em estabilidade com um chefe de governo incompetente, irresponsável, centrado nos interesses pessoais e familiares e incapaz de viver sem conflito. O pretexto e o inimigo do momento podem variar, mas a tensão tem de ser quase ininterrupta. A expectativa de impeachment daria ao menos um horizonte político e econômico mais claro. Sem um novo desastre, poderia haver, por exemplo, menos incerteza em relação às contas públicas.

Nenhuma condição de segurança pode existir com Bolsonaro no Palácio do Planalto. Sua nota pacificadora vale menos que qualquer papel jogado no chão. Ele garantiu, nesse documento, nunca haver tido a “intenção de agredir quaisquer dos Poderes”. Mas terá agredido, tantas vezes, sem intenção? E sempre no “calor do momento”, como afirmou no comunicado?

Na terça-feira ele atacou e ameaçou o STF em Brasília e, depois, em São Paulo, cobrando do ministro Luiz Fux, presidente da instituição, o enquadramento da Corte. Em várias cidades, apoiadores de Bolsonaro, fiéis à pauta golpista, conduziram cartazes contra o Legislativo e o Judiciário. Teriam sido inspirados e motivados por um agente estrangeiro ou por um marciano?

Dificilmente um estrangeiro ou marciano seria tão eficiente, na incitação ao conflito, quanto o presidente da República. Em agosto, em Joinville, pouco antes de rejeitada na Câmara a proposta de implantação do voto impresso, Bolsonaro usou um palavrão contra o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Luís Roberto Barroso. Em julho, havia usado a expressão “sete bandidos” para se referir a integrantes da Comissão Parlamentar de Inquérito da Covid. Não é preciso ir longe, na evocação dos fatos, para verificar as falsidades da carta distribuída na quinta-feira e das afirmações do presidente, pouco depois, em sua live semanal.

Os presidentes das Casas do Congresso reagiram à baderna golpista com palavras mornas. O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, pregou o empenho na solução dos problemas econômicos e sociais e rejeitou “arroubos antidemocráticos”, mas sem mencionar os ataques de Bolsonaro às instituições.

Os presidentes do STF, Luiz Fux, e do TSE, Roberto Barroso, deram respostas vigorosas. Fux mencionou crime de responsabilidade, assunto ignorado pelo presidente da Câmara, atual engavetador dos pedidos de impeachment. Barroso denunciou o ataque às instituições como tentativa de encobrir um “fracasso econômico, social e moral”.

O fracasso é evidente no cenário de inflação acelerada, economia emperrada, desemprego elevado e aumento da pobreza, assim como na escandalosa negligência diante da pandemia – uma negligência complementada, como tem apontado a CPI da Covid, pela corrupção.

Neste ano a economia mal deve sair do buraco onde afundou em 2020, quando o Produto Interno Bruto (PIB) diminuiu 4,1%. Um crescimento em torno de 5% apenas levará o País ao patamar de 2019. Para 2022 as projeções do mercado apontam avanço inferior a 2%. Mas a inflação chegou a 9,68% nos 12 meses até agosto, aproximando-se dos níveis observados no final do período petista. Enquanto isso, as condições de emprego permanecem tétricas. No segundo trimestre os desocupados eram 14,4 milhões, 14,1% da força de trabalho. Essa taxa é mais que o dobro da média registrada nos países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), 6,6% em maio.

É difícil dizer se Bolsonaro, imerso nas ambições autoritárias e na ignorância, percebe com alguma clareza o desastre resumido nesses números. Se perceber, aumentará a pressão por maior gastança e mais ações populistas.

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JORNALISTA

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