Somos fortes ou Deus é, mesmo, brasileiro?

Vivemos um contexto antropológico de anestesia do bom senso

Antonio Carlos do Nascimento*, O Estado de S.Paulo

29 de fevereiro de 2020 | 03h00

Estou seguro de que o envelhecimento é um privilégio e a sua óbvia alternativa não possui nossa querência, ou pelo menos é antipática à maioria. Mas o belvedere que nos é posto à disposição, especialmente a partir da sexta década de vida, permite uma observação bem ampla do cotidiano para a qual alinhamos presunções derivadas do que já vimos, presenciamos ou assimilamos do contexto histórico.

Nos meus tempos de vestibulando, e bem distante do acesso internáutico dos dias de hoje, sabíamos da China aquilo que os professores de História nos contavam ou os textos de livros preparatórios para o vestibular nos diziam. Estávamos exatamente no hiato entre Mao Tsé-tung e o dragão reluzente dos dias atuais. Do ditador guardei sua atitude pseudodemocrática de abrir um canal de diálogo com descontentes, não para aparar arestas, mas sim para reconhecê-los e então fuzilá-los.

Em seu mais recente e dramático teste em saúde pública o governo chinês expôs mais do que fragilidades materiais e estratégicas, pois, ao utilizar força policial para calar Li Wenliang, o médico que tentava alertar para o surto iminente, Pequim revelou uma faceta mais alinhada ao antigo status quo de Mao do que a seus progressistas governantes atuais. Li Wenliang morreria por infecção causada pelo coronavírus e sua morte motivaria o aparecimento de insurgentes, em sua maioria jovens, os quais utilizam as vigiadas redes sociais para demonstrar sua insatisfação.

Em reportagem recente do New York Times está a fala de uma usuária do Weibo (que teve sua conta suspensa por abordagens críticas sobre o surto): “Fale o quanto sua coragem permitir”. E complementa: “No final, é melhor do que não dizer nada”.

Por lá a ideologia política deve manter a hegemonia, até porque tornou viáveis expectativas antes inimagináveis para a sua população. Mas o vírus saltou as muralhas e como se comportará em outras paragens é ainda desconhecido.

O campeonato japonês de futebol está suspenso ao menos até 15 de março, jogos do campeonato italiano terão portões fechados até novas definições, o desfile de Giorgio Armani foi realizado sem plateia, museus e teatros estão fechados por inúmeras pátrias, feiras temáticas por todo o mundo foram suspensas e são centenas de famosos eventos adiados como recursos para evitar aglomerações humanas.

Cá de meu mirante, estou atento e confuso, pois, em meu bairro, três bons espaços para brincar o carnaval borbulharam e por toda a cidade de São Paulo a festa nunca foi tão disputada, na televisão enxergo todas as capitais sorrindo e eu, dissonante, preocupado com o coronavírus. E no dia 25, a data oficial do carnaval, o nosso primeiro caso confirmado de infecção pelo famigerado agente.

Longe de sugerir equívoco governamental, existem normas internacionais para essas situações e nossas autoridades sanitárias obedecem a elas em todos os seus itens. O que me incomoda, e penso que foram as décadas dentro de meu cérebro que entregaram a inquietação, é o porquê de nos acharmos imunes, o que nos faz acreditar que nenhum humano assintomático, mas infectado, tenha tomado um avião em seu país para se divertir em nossas festas.

Nada foi observado por nenhuma plataforma acerca de cuidados quanto às síndromes febris, sobre sinais e sintomas a serem monitorados nos indivíduos com viagens internacionais recentes, suas condições pessoais ou de contatos que pudessem estar pondo em risco um enorme número de pessoas.

O que nos embaraça, nos cega e nos tranquiliza? Por que, mesmo diante das possibilidades, nossa preocupação descansou nos 120 milhões de preservativos distribuídos?

Por outro lado, quando as mortes por febre amarela ganharam os noticiários, houve aflição generalizada da população, que saiu em romaria nas madrugadas para se amontoar em frente a postos de saúde e receber a vacina salvadora. Melhor, problema resolvido.

Curiosamente, não fossem os desmesurados esforços governamentais recentes em reiteradas campanhas e a vacinação contra o sarampo não alcançaria níveis satisfatórios, a despeito das divulgadas mortes no último e atemporal surto. Depois das chuvas lá virá o pesadelo da dengue e seus correlatos, insistentemente nos é pedido que eliminemos os focos de procriação do mosquito transmissor. Deveríamos ser fanáticos por tais buscas, mas permanecemos passivos, esperando que outros meios nos resolvam.

Vivemos um contexto antropológico de anestesia do bom senso, talvez um platô sustentado por inteligências que não são nossas, mas estão na tela do celular e carecem apenas da rapidez dos dedos para soluções imediatas. Pode ser que essa ameaça seja dissolvida através dos dias. Mas o nosso senso de sobrevivência terá de desencarnar imediatamente de nossas máquinas e habitar nossos cérebros, ou teremos sempre de contar com a nacionalidade brasileira de Deus.

* ANTONIO CARLOS DO NASCIMENTO É DOUTOR EM ENDOCRINOLOGIAPELA FACULDADE DE MEDICINA DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO (USP), MEMBRO DASOCIEDADE BRASILEIRA DE ENDOCRINOLOGIA E METABOLOGIA (SBEM) E MEMBER OF THE ENDOCRINE SOCIETY

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