Sucessos na evolução da cirurgia

Sobrevida de David Bennett deve ser vista lembrando que receptor do primeiro transplante de coração sobreviveu apenas 18 dias, e abriu perspectivas inéditas.

Silvano Raia, O Estado de S.Paulo

19 de março de 2022 | 03h00

A cirurgia evolui por etapas, cada uma fornecendo informações que permitem aprimorar a seguinte. Assim tem ocorrido também com o transplante de órgãos. A notícia da morte do paciente que recentemente recebeu um transplante de coração suíno no Hospital da Universidade de Maryland (EUA) entristeceu todos nós, mas sua sobrevida de dois meses, considerando suas condições clínicas pré-transplante, foi uma grande vitória e estimula algumas reflexões gerais.

Durante três meses antes da cirurgia, o paciente dependia de suporte cardíaco mecânico externo e todos os seus órgãos evoluíam progressivamente para uma síndrome de insuficiência múltipla, tendo sido, assim, rejeitado em várias listas de espera para transplante de coração.

Certamente, não foi a melhor escolha para o primeiro caso de uma cirurgia pioneira, mas a única possível na ocasião. A autorização pela FDA (agência análoga à nossa Anvisa) exige que novos métodos, mesmo se comprovados experimentalmente, sejam aplicados somente em pacientes sem outra alternativa terapêutica capaz de evitar sua evolução para óbito em curto período de tempo.

Compreende-se, assim, a decisão da equipe de operar o paciente David Bennett, mas é muito difícil de identificar as causas de sua morte após dois meses da operação, separando as decorrentes do transplante de um coração suíno das decorrentes do seu mau estado geral pré-operatório.

Estas últimas tornam-se evidentes, sabendo que o dr. Muhammad Mohiuddin, primeiro assistente do dr. Bartley Griffith na cirurgia pioneira, obtivera em 2016 sobrevida de 945 dias em um babuíno, obviamente em bom estado geral, submetido a um xenotransplante cardíaco suíno igual ao realizado em Maryland.

Além disso, ressalte-se que no transplante de David Bennett o coração suíno não apresentou sinais de rejeição aguda, funcionando adequadamente por pelo menos 60 dias, permitindo ao paciente conviver com sua família e assistir ao Super Bowl. Diante desses fatos, mesmo não conhecendo os resultados da autópsia (ainda não revelados), não é possível identificar precisamente a causa de sua morte.

De qualquer forma, o tempo de sobrevida de David Bennett deve ser interpretado lembrando que o receptor do primeiro transplante de coração, realizado pelo cirurgião Christiaan Barnard, em 1967, sobreviveu apenas 18 dias, abrindo perspectivas inéditas para centenas de milhares de pacientes portadores de moléstias cardíacas.

Adicionalmente, a notícia de que no segundo semestre do ano passado dois centros, também nos EUA, conectaram em humanos descerebrados rins suínos que funcionaram normalmente por 54 horas e 96 horas justifica dirigir esforços para o desenvolvimento do novo método também no Brasil.

Há quatro anos, pesquisadores da Universidade de São Paulo se reuniram para sistematizar o xenotransplante também entre nós. Somos cirurgiões, geneticistas, imunologistas, nefrologistas, cardiologistas, oftalmologistas e especialistas em transplante de pele. Com apoio da iniciativa privada, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e do governo do Estado de São Paulo, concluímos a edição genética dos embriões. Pretendemos, agora, transferi-los para matrizes (barrigas de aluguel) e desenvolver suínos com células provenientes de uma raça originária de uma ilha próxima ao Polo Sul, na Nova Zelândia, que não ultrapassam 130 quilos. Essa característica evita a necessidade de inativar, no genoma do suíno doador, os genes responsáveis pelo seu crescimento.

A disponibilidade de hemodiálise, capaz de compensar a insuficiência renal durante longos períodos, oferece uma segurança que não existe para o xenotransplante de outros órgãos, como o de coração, o que nos estimula a iniciar pelo xenotransplante de rim. Em caso de insucesso, o órgão pode ser retirado e o paciente retorna à hemodiálise até ser submetido a um transplante homólogo (doador humano falecido), com a prioridade que não tinha antes do xenotransplante. 

Todos esses fatos devem ser considerados com vistas, também, ao problema que o xenotransplante tenta resolver. No Brasil, em 2020, segundo a Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (Abto), 43.642 pacientes aguardavam por um transplante, dos quais 26.862 esperavam por um rim e 275, por um coração – e 1.780 faleceram à espera do procedimento. Além destes, 14.984 pacientes estavam inscritos para transplante de córnea, que só é indicado para tratamento de distúrbios graves da visão que evoluem para cegueira se o transplante não for realizado em tempo. O tratamento de queimados graves, por sua vez, emprega atualmente enxertos autólogos, ou seja, do próprio paciente, responsáveis por cicatrizes deformantes indeléveis. Um único suíno geneticamente modificado poderá se constituir em doador de órgãos ou enxertos para pacientes portadores de todas essas afecções.

Finalmente, diante de todas essas considerações, cabe um pensamento filosófico: além do interesse pela pesquisa científica, esforços nesta direção se justificam pelo desejo de ajudar o próximo e salvar vidas, o que deveria, em essência, motivar todos nós.

*

É PROFESSOR EMÉRITO DA FACULDADE DE MEDICINA DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.