Talvez só Biden nos possa salvar

O descuido com o meio ambiente transformou-se em política de Estado

Flávio Tavares, O Estado de S.Paulo

04 de dezembro de 2020 | 03h00

O início de um novo governo nos Estados Unidos nunca foi tão esperado como agora. No próximo dia 20 de janeiro, Joe Biden será empossado na Casa Branca. As mudanças não serão apenas internas, mas incidirão diretamente no futuro do planeta, numa verdadeira revolução que já começou com o anúncio de que John Kerry será aquilo que no Brasil se chamaria de “ministro extraordinário para o clima”.

Pela primeira vez na História o clima terá tratamento direto e específico. As mudanças climáticas deixarão de ser mero apêndice de algo mais amplo para se tornarem tema concreto e prioritário. E ninguém mais apto para isso do que John Kerry, que, como secretário de Estado de Barak Obama, costurou, em 2015, o Acordo de Paris sobre o clima. No entanto, depois Donald Trump retirou os EUA do acordo, por não se interessar pelo clima, numa de suas costumeiras e perigosas valentias de filme de far west.

Com Biden e Kerry, os Estados Unidos voltam a comprometer-se – como acentua o novo presidente – a obter “neutralidade absoluta” em carbono até 2050. Nessa linha, já na campanha eleitoral Biden prometeu investir US$ 20 bilhões para evitar o colapso da Floresta Amazônica, algo que a incompreensão ou cegueira do presidente Jair Bolsonaro repudiou como “intromissão” na administração do Brasil.

A “neutralidade absoluta” que Biden quer alcançar significa, entre outros cuidados, neutralizar os resíduos das emissões de carbono por sistemas de absorção, como o das florestas. Nosso presidente, porém, viu o gesto como se Biden quisesse invadir militarmente o Brasil ou, por outras formas, conspurcar nossa soberania.

A miopia com que somos governados há tempos, porém, é que nos faz perder a soberania, transformando-nos, a cada dia mais, em dependentes das chamadas grandes potências e avessos a ideias profundas. Continuamos atirando ao lixo as advertências da ciência sobre as mudanças climáticas, mesmo sentindo as consequências, com períodos de estiagens extremas se alternando com chuvas de enxurradas e até mesmo ciclones, que tudo destroem.

Não há sequer curiosidade em descobrir a causa do desastre que vemos e vivemos.

Desde que Bolsonaro chegou à Presidência, o descuido com o meio ambiente transformou-se em política de Estado, como se os governos existissem para incentivar a destruição da natureza e, assim, exterminar a vida no planeta. É desnecessário detalhar a errática condução de tudo o que se refira à proteção ambiental, algo que vem de longe, mas no governo Bolsonaro se transforma em escândalo. O espanto e o pavor criados pela covid-19 nos levaram, inconscientemente, a “esquecer” o perigo maior, para o qual não existe vacina obtida em pesquisa de laboratório.

As mudanças climáticas decorrem do nosso estilo de vida e de comportamento, ao tomar a natureza como “inimigo” a destruir, quando – em verdade – é nossa fonte de vida. Cada riacho, rio ou mar poluído, cada mina ao estilo da que provocou a tragédia de Brumadinho (MG) ou cada metro de floresta derrubada se junta ao ar viciado pelo trânsito ou por usinas movidas a combustíveis fósseis que infesta o planeta, até levá-lo a uma saturação apocalíptica.

A ciência aponta prazos para evitar o inferno terrestre, a ONU e o papa Francisco insistem no alerta, mas os burocratas governantes ampliam as datas como se esticassem um elástico. Na Conferência Mundial do Meio Ambiente de 1992, no Rio de Janeiro, 2030 marcava o ano máximo da “grande virada” para assegurar a vitalidade do planeta. As reuniões posteriores, já no século 21, remarcaram o prazo para 2050.

Esperar que o tempo espere e se imobilize é mais estulto e absurdo do que guardar na geladeira uma garrafa térmica para que “conserve o calor”. É, porém, o que acontece no Brasil, e de forma acentuada no governo Bolsonaro, com relação ao meio ambiente, hoje visto como um estorvo, nunca como fonte geradora de vida.

O desmatamento da Amazônia é tão somente o lado totalmente visível do horror conduzido pelo ministro Ricardo Salles. De fato, porém, obedece à regra destrutiva generalizada que o governo Bolsonaro nos impôs e que vai além do desdém pelo meio ambiente. Parece até que governar significa destruir tudo o que, com anos de sacrifício e lutas, se construiu no País. O aparelho burocrático governante, contudo, segue com apetite voraz, mais interessado em impostos e taxas do que em coordenar a realidade profunda da vida em sociedade.

O trágico nisso tudo é sermos órfãos, não temos governantes a quems possamos apelar. Por isso a decisão de indicar John Kerry como “ministro do clima” torna o futuro presidente dos Estados Unidos um ponto de referência para o dia a dia também do Brasil. Biden pode ser nosso barco salva-vidas para evitar que naufraguemos todos na tempestade que se avizinha com as mudanças climáticas.

Nunca dependemos tanto do presidente dos EUA como no transe de agora.


JORNALISTA E ESCRITOR, PRÊMIO JABUTI DE LITERATURA 2000 E 2005, PRÊMIO APCA 2004,

É PROFESSOR APOSENTADO DA UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA

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