Tempos de fome e recessão

Vivendo no Palácio da Alvorada, é possível ter uma sensação de riqueza e prosperidade enquanto o País afunda na miséria.

Fernando Gabeira, O Estado de S.Paulo

10 de dezembro de 2021 | 03h00

Entramos em recessão, e o ministro Paulo Guedes afirmou que a economia brasileira está decolando. Nenhuma novidade. Bolsonaro nega o aquecimento global e a pandemia de covid-19. Mas nem tudo vai no mesmo caminho, pois, em tributo à realidade, a taxa de juros vai subir.

O conceito de negação surgiu no século passado. Para mim, foi numa carta de Freud, em 1935, que apareceu pela primeira vez. Antes disso, a negação era chamada de outro nome mais direto: mentira.

Há cerca de um mês, Paulo Guedes anunciou um grande projeto de captação de investimentos na área do meio ambiente. Não saiu do papel. Em Brasília, muitos deputados já perceberam que ele é o ministro da semana que vem, está sempre anunciando algo que não se consuma.

Tenho a impressão de que Guedes veio do mundo financeiro, onde o verbo tem um grande peso, mas o mundo real da economia, do saneamento básico, da habitação, da inclusão digital, do desenvolvimento sustentável, tudo isso parece distante e intangível em sua gestão.

Ele foi, até agora, incapaz de apresentar um plano de retomada pós-pandemia. Age como se tudo fosse voltar ao normal sem interferência do governo.

Nas ruas do Brasil, sente-se que a população sofre. Há fome e uma insegurança alimentar crescente.

Bolsonaro pretende abordar o tema com o Auxílio Brasil e, para chegar a ele, sacrificou a credibilidade econômica de seu governo, driblando o teto de gastos e dando um calote nos precatórios.

O Congresso foi apaziguado com o orçamento secreto, cerca de R$ 16 bilhões distribuídos sem transparência. O Supremo, depois de meses de denúncia, deteve o processo. Mas o reabriu com a promessa de romper o segredo daqui para a frente.

E o que foi gasto até agora? Parece que ficará para sempre como um segredo. Rodrigo Pacheco prometeu prestar contas daqui a seis meses. É quase tão remoto como os cem anos de segredo que o Exército determinou para divulgar as razões de seu perdão ao general Pazuello.

Não é justo dizer que eles roubaram R$ 16 bilhões. Também não é justo dizer que os gastaram honestamente. O segredo bloqueia qualquer julgamento, apenas estimula suspeitas.

Um deputado do Maranhão, quadro do PL (atual partido de Bolsonaro), investigado pela Polícia Federal, apareceu contando uma grande quantidade de dinheiro. Nada tão impressionante como o apartamento de Geddel Vieira, abarrotado de notas. Apenas um indício de que o processo foi democratizado e cada um maneja sua pequena fortuna.

Bolsonaro precisa ganhar as eleições e vai mover o Tesouro Nacional. Os deputados que o apoiam precisam ganhar a eleição e, certamente, vão usar as emendas de relator para alcançar seu objetivo. Essa relação entre presidente e Congresso não é nova, mas agora ganha uma estrutura mais consistente com as chamadas emendas de relator.

Impossível entender a economia sem levar em conta o mecanismo que move a política nacional. Guedes transformou-se num ministro que precisa viabilizar o dinheiro de campanha, entendido aqui como a tentativa de Bolsonaro de se ligar aos mais pobres. A Caixa Econômica passa a ser, também, um instrumento de captação de votos, despejando R$ 13 bilhões em empréstimos.

Não há dúvida de que tudo isso significa um alívio imediato e parcial para a sofrida população brasileira. Por outro lado, pode ser um obstáculo para soluções estáveis e de longo prazo. Com a baixa credibilidade, mínguam os investimentos, a inflação é acelerada, perdem-se empregos – enfim, perpetua-se a situação precária do País.

Nada disso parece interessar a amplos setores da política. Um governo populista não se importa em administrar a miséria, desde que continue no seu posto. Bolsonaro não dá a mínima para a situação real do País. Na verdade, com salário, transporte e habitação pagos, ele gasta cerca de R$ 1,3 milhão mensal, em média, no seu cartão corporativo. É possível, vivendo no Palácio da Alvorada, ter uma sensação de riqueza e prosperidade enquanto o País afunda na miséria, com pessoas roendo ossos e revolvendo lixo na luta pela sobrevivência.

O interessante é que um governo desse tipo não se importa também com a possibilidade de convulsão social. Na verdade, acha até que revoltas espontâneas jogam a seu favor, pois justificam o endurecimento do regime, a supressão de liberdades, a perseguição aos adversários políticos.

A única esperança é derrotá-lo nas urnas. O País não acabará com um segundo mandato de Bolsonaro. O desespero social, a perda de esperança, a destruição irreversível de biomas como a Amazônia, a evasão de cérebros, o empobrecimento cultural, tudo isso nos leva a um lugar desolador. Não podemos simplesmente classificar como uma volta ao passado. Antigamente, éramos o país do futuro. Bolsonaro e a extrema-direita detonarão o futuro.

O ano que começa daqui a algumas semanas é decisivo, acredito que para algumas pessoas, principalmente os jovens. Simboliza um marco, no qual se vai decidir se vale a pena dar murros em ponta de faca num país inviável. O problema é que tudo isso acontece num mundo cada vez mais hostil ao estrangeiro, mundo que a própria extrema-direita se esforça por encolher, combatendo a imigração.

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JORNALISTA

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