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Tristes e desanimados

Abra o seu coração, compartilhe dores e angústias e verá que a vida ganha novo sentido

Dom Odilo P. Scherer, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2021 | 03h00

Que palavra de esperança ainda posso dizer, no quadro desolador de notícias ruins a cada dia? Quando os doentes não precisarão mais ser acomodados precariamente nos corredores dos hospitais? Quando a lista diária dos falecidos vai diminuir? Quando haverá vacina para todos? Conseguiremos unir esforços para combater a pandemia de maneira eficaz?

Os cristãos celebraram nesta semana a festa da Páscoa (4/4), a maior solenidade litúrgica da Igreja, e anunciam: Jesus Cristo, “homem justo, que fez somente o bem”, foi condenado à morte e executado numa cruz, mas ressuscitou e se manifestou vivo aos seus discípulos. Sua morte teve um efeito devastador nos discípulos, que haviam acreditado nele e em suas palavras.

Dois deles eram originários de Emaús, distante cerca de 11 quilômetros de Jerusalém. Terminadas as festividades da Páscoa judaica, período em que Jesus foi crucificado, retornavam para Emaús, tristes e desorientados, conversando sobre o que se passara com Jesus. Haviam posto suas esperanças nele e agora se sentiam frustrados, não lhes restando mais nada senão voltar para casa e repensar seus projetos (cf Lc 24 13-35).

Enquanto compartilhavam seus sentimentos, um desconhecido juntou-se a eles. Na estrada da vida, sempre é bom ter mais alguém para ouvir e partilhar histórias. Percebendo a tristeza deles, esse novo companheiro perguntou-lhes sobre o assunto da conversa e por que motivo estavam tão tristes. Eles estranharam a pergunta: como assim? Quem poderia ser esse peregrino desinformado, que vinha de Jerusalém, como eles, e não sabia o que havia acontecido por lá nos últimos dias? E lhe relataram sobre Jesus, “profeta poderoso em obras e palavras diante de Deus e de todo povo”, que fora acusado diante das autoridades, condenado à morte e crucificado. Eles haviam projetado nele suas esperanças mas agora tudo acabara. Era como se o caminho se interrompesse abruptamente.

O novo companheiro, que ainda não se identificara, ouviu-os longamente; em seguida explicou-lhes as Escrituras e o que nelas fazia referência ao Cristo de Deus. Os dois haviam até esquecido o que o próprio Jesus lhes anunciara sobre os sofrimentos que devia enfrentar.

Enquanto eles o ouviam, seu coração palpitava mais forte. Fazia-lhes bem ouvir alguém, que os tirava do torpor, ajudando-os a recuperar o chão debaixo dos pés. Gostaram do companheiro e o convidaram a pernoitar com eles, pois haviam chegado a Emaús e já anoitecia. Certamente desejavam prolongar a conversa mais um pouco. Sempre faz bem ter alguém que nos escute e encoraje quando estamos no fundo do poço!

Enquanto estavam à mesa para a ceia, o convidado se fez anfitrião. Ele mesmo tomou o pão e o repartiu entre eles, que se surpreenderam. Era um gesto que conheciam bem e lembrava o que Jesus havia feito poucos dias antes, na última ceia com seus apóstolos. Então seus olhos se abriram e reconheceram que o próprio Jesus havia caminhado com eles. Ele, porém, já havia desaparecido de diante deles, do mesmo modo que aparecera em seu caminho. Bem que haviam percebido que seu coração batia mais forte quando ele, durante o caminho, lhes explicava as Escrituras!

No mesmo instante, voltaram para Jerusalém, esquecidos do cansaço e dos riscos da noite. Em Jerusalém encontraram outros discípulos reunidos e alvoroçados, que lhes contaram que Jesus estava vivo e os encontrara durante o dia. Então os dois também relataram aos demais sobre o seu encontro surpreendente com Jesus. Ele estava vivo, a alegria e a esperança voltaram aos seus corações!

Não me perguntem se algum cronista fez a verificação histórica e documentou os fatos. O relato sobre os discípulos de Emaús é apresentado pelo evangelista São Lucas a partir de uma experiência pessoal e única de encontro com Jesus ressuscitado. Os dois, que antes estavam frustrados, desanimados e sem horizonte pela frente, reencontraram forças para o caminho e um sentido novo para viver e dedicar sua vida ao Mestre. Daí por diante eles testemunharam sobre o que Jesus fez e ensinou, até o martírio.

E isso tem algo que ver com a pandemia? Vamos retomar: o roteiro é bem conhecido e aconselhado nas relações humanas sempre que alguém está desalentado. Os dois de Emaús andavam tristes e desanimados. Alguém se aproximou, caminhou com eles, ofereceu seu tempo, escutou desabafos e lamentos e disse palavras de discernimento, que levantaram o ânimo dos dois. Então eles abriram seu coração à generosidade e partilharam teto e pão com o companheiro, ainda desconhecido. E tiveram a surpresa: ninguém menos que o próprio Jesus estava com eles! E reencontraram o sentido da vida, seus corações se encheram novamente de coragem e alegria.

Mesmo se alguém não crê que Deus se insere na dinâmica das relações humanas, faça a experiência: abra o coração, acolha generosamente um irmão aflito. E quem foi duramente golpeado pela pandemia faça a mesma coisa. Partilhe suas dores e angústias e verá que a vida ganha novo sentido.


CARDEAL-ARCEBISPO DE SÃO PAULO

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