Trump, fadado a perder, tentará melar a eleição

O Brasil perderá com ele ou Biden e não deve se meter, até porque sua opinião pouco vale

Paulo Sotero, O Estado de S.Paulo

21 de outubro de 2020 | 03h00

Os americanos cansaram-se do caos de Donald Trump e querem mudança. As pesquisas mais confiáveis sobre as eleições de 3 de novembro, estáveis há meses, favorecem francamente o ex-vice-presidente Joseph Biden na disputa dos sufrágios populares e dos 538 votos do colégio eleitoral que definirão a disputa. Elas projetam também mudança da maioria no Senado – hoje controlado pelos conservadores por uma diferença de 53 a 47 cadeiras – na contenda pelas 35 vagas em jogo na Casa, 23 das quais são ocupadas por republicanos. A perspectiva de uma humilhante derrota alimenta a paranoia do presidente e envenena o ambiente político num país irremediavelmente dividido. Biden entrou na reta final mantendo a dianteira nas sondagens nacionais e na meia dúzia de Estados que devem decidir o pleito pela Casa Branca. Mas a pior notícia para Trump está evidente também na arrecadação dos fundos que pagam a propaganda na televisão, liderada pelo democrata por uma diferença de 3 a 2.

Faltando dias para a votação, que foi iniciada antecipadamente em vários Estados, o mapa eleitoral obrigou o presidente a investir tempo e dinheiro em Estados onde venceu confortavelmente quatro anos atrás, como a Flórida e o Arizona, e em bastiões conservadores, como a Geórgia. As más notícias para Trump não se esgotam aí. O empresário Rupert Murdoch, dono da Fox, também conhecida como TV Trump, previu “uma vitória avassaladora de Biden”. O senador republicano Ben Sasse, de Nebraska, bateu pesado no presidente numa conferência telefônica com apoiadores, na qual explicou por que não faz campanha para o presidente. Segundo Sasse, em conversas reservadas Trump “zomba dos evangélicos”, “flerta com supremacistas brancos”, “beija o traseiro de ditadores”, “abandona aliados” e “trata as mulheres e gasta dinheiro (público) como um marujo bêbado”.

Acrescentem-se a isso dois fatores interligados que não ajudam Trump. A pandemia entrou em nova fase de virulência aguda com a chegada do frio e elevou o número de infecções ao mesmo máximo de 70 mil por dia registrado no início do flagelo, que cresce em dois terços dos Estados e deve elevar o número de mortos por covid-19 no país à casa dos 250 mil até as eleições. A nova onda do vírus tirou o ímpeto da recuperação da economia, visível em semanas recentes no aumento da taxa de desemprego, que vinha em baixa e era o único argumento em que Trump tinha vantagem sobre seu oponente nas pesquisas.

Biden pode se beneficiar também da única vitória que Trump tem a celebrar antes de 3 de novembro: a aprovação pela maioria republicana do Senado da juíza federal Amy Coney Bennet para a Suprema Corte. A sabatina da sua confirmação removeu dúvidas sobre a qualificação profissional da juíza federal, uma católica praticante, para ocupar a vaga aberta pela morte de Ruth Bader Ginsburg, ícone da luta pela afirmação e expansão dos direitos das mulheres. Mas a defesa feita por Trump da nomeação da escolha de Bennet como necessária para acabar com o plano de saúde adotado na administração Obama, que ampliou a cobertura do seguro federal a 25 milhões de americanos, e para reverter decisão de 1973 do Supremo americano que legalizou o aborto, opera nas urnas a favor de Biden, e não só entre as mulheres: 70% dos eleitores defendem a manutenção do Obamacare e do aborto legal.

O favoritismo de Biden está implícito na recusa de Trump de se comprometer publicamente com uma transição pacífica e ordeira do poder, se perder. Seus repetidos ataques sem provas à lisura das eleições, que não está em questão, revelam o plano de Trump e aliados de tumultuar a votação e a apuração de votos com o objetivo de invalidar uma eleição que ele parece fadado a perder.

Como dois terços dos eleitores democratas e apenas um terço dos republicanos deve votar por correspondência, e os votos presenciais são os primeiros a ser contados, os especialistas no assunto acreditam que Trump se agarrará aos resultados iniciais que lhe forem favoráveis em alguns Estados para criar uma impressão de vitória e contestar judicialmente a contagem dos votos por correspondência em centenas de seções nas quais deve perder. Nesse cenário, ele mobilizará seus simpatizantes às ruas para denunciar uma “fraude” e defender sua “vitória” antes de a apuração ser concluída. São parte desse enredo as manobras de supressão de votos de negros e hispânicos, a que os republicanos se dedicam há décadas e Trump começou a testar ativamente lançando ataques constantes ao voto por correspondência, que ele próprio usa e deve superar 50% de todos os sufrágios, em comparação com 25% em 2016.

Se ganhar tração, essa narrativa será, na certa, ecoada pelos simpatizantes de Trump no Brasil. Não é uma boa ideia. Ao contrário de Trump, Biden conhece o Brasil e, uma vez na Casa Branca, valorizará princípios democráticos e estratégias multilaterais caros ao País para reinserir os Estados Unidos no mundo. Mas não há que ter ilusões: o Brasil sumiu do mapa, não é prioridade em Washington e perderá com Trump ou Biden.

JORNALISTA, É PESQUISADOR SÊNIOR DO BRAZIL INSTITUTE NO WILSON CENTER, EM WASHINGTON

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