Um alerta oportuno e necessário

Os problemas que têm dificultado a retomada do crescimento e a criação de empregosconfiguram um quadro de riscos crescentes.

Bolívar Lamounier, O Estado de S.Paulo

26 de março de 2022 | 03h00

Como se não bastassem a pandemia, a crise econômica e uma eleição presidencial que se afigura problemática, estamos há um mês vivendo a agonia de uma guerra alucinada, decorrente da agressão da Rússia à Ucrânia.

A pandemia, em particular, teve o efeito de entorpecer nossa sociedade, e nem poderia ser diferente, em razão do caráter altamente transmissível da covid-19. Penso que a guerra acabará causando um efeito semelhante, quiçá pior, por seu impacto na economia mundial e, queira Deus que não, pela ampliação da beligerância. Mas o destino não nos concede a opção de ficarmos sentados chorando. Temos de sair do marasmo e pensar em nosso país, em nosso futuro, externando nossas preocupações e mobilizando a sociedade para o debate.

Esta semana a Academia Paulista de Letras divulgou um alerta oportuno e necessário, pondo em relevo as debilidades que há muitos anos se vêm acumulando. Intitulado Brasil, País Vulnerável, o documento destaca com veemência as vulnerabilidades de nosso país em diversas áreas estratégicas. Tal manifestação tem a chancela da instituição, contando, pois, com o consenso de todos os acadêmicos. Não farei, aqui, um comentário rente ao texto, mas à margem dele, ressaltando alguns pontos sobre os quais tenho me manifestado individualmente.

Os problemas que já vêm dificultando a retomada do crescimento econômico e a criação de empregos, e outros que poderão se agravar em razão da guerra, indiscutivelmente configuram um quadro de riscos crescentes, tornado mais preocupante pela virtual ausência de uma visão de médio e de longo prazos no debate público. Peço desculpas aos leitores por martelar uma tecla que já abordei em artigos anteriores, mas, realmente, causa-me espanto a indiferença generalizada em relação ao fato de sermos um país aprisionado no que os economistas denominam “armadilha do baixo crescimento”. Essa expressão designa um grupo de países, dos quais o Brasil é um exemplo chocante, que conseguem superar até com certa facilidade a primeira etapa do crescimento econômico, basicamente incorporando num nível algo mais produtivo uma vasta mão de obra cuja produtividade era até então pateticamente baixa. Nessa fase, as tecnologias necessárias são medíocres, portanto compatíveis com o quase analfabetismo que caracterizava o referido contingente de mão de obra. O problema é como prosseguir, assimilando tecnologias mais difíceis de serem adquiridas e operadas, elevando o nível médio de educação e, ao mesmo tempo, a oferta de empregos, uma vez que, sem esta, aquele não é uma solução cabal. Este, no essencial, é o significado da expressão “armadilha de baixo crescimento”. É, pois, imperativo robustecermos a espinha dorsal de nossa economia – até porque a competição internacional tende a se acirrar – e ao menos duplicarmos nossa renda anual per capita. No atual ritmo de crescimento da economia, esse modesto objetivo pode custar-nos algo como 30 anos. Uma geração, ou mais.

Convém lembrar que nenhum país pega no tranco, como diz o ditado popular. Para robustecer e apressar o crescimento da economia, devemos ter sempre em mente a lição do general De Gaulle: d’abord, la politique, ou seja, primeiro, a política. É lógico que o presidente francês não se referia à pequena política, àqueles espíritos gregários que adoram se encontrar em Brasília, mas a lideranças corajosas e lúcidas, além, é claro, de um sistema político funcional. Sabe-se lá por que, o Brasil está vivenciando um período desastroso nesses dois aspectos, logo agora que, não tendo superado a pandemia e o marasmo econômico, poderemos estar a cada dia mais sujeitos aos efeitos da guerra.

No que toca a lideranças, talvez até possamos crer na sorte, pois lideranças de calibre têm mais chance de surgir quando os problemas se agigantam do que no remanso de um prolongado marasmo. Observem, porém, que esse raciocínio é inútil no que toca à disfuncionalidade de nosso sistema político. Nesse particular, a modorra a que chegamos é de tal ordem que já ninguém se atreve a falar em reforma política, talvez para evitar a vergonha de discursar para ouvidos moucos. Antes isso, porque tentar uma reforma nas atuais condições, e no atual vazio de lideranças, é uma hipótese que chega a dar calafrios.

Por último, cabe dizer algo sobre as alternativas que as urnas nos oferecerão em outubro. Desde logo se vê que nossa proverbial fartura de partidos não consegue sequer nos livrar da opereta que ouvimos em 2018. O que se avizinha é, outra vez, uma polarização populista. Os eleitores adversos a Lula serão forçados a votar em Bolsonaro. Os adversos a Bolsonaro terão de votar em Lula. Quer dizer, representação não há mais. O enredo é previsível. Em 2002, Lula nos brindou com a Carta ao Povo Brasileiro. Repetir a fórmula seria inócuo, por isso a novidade, agora, será o vice, o ex-governador Geraldo Alckmin. Bolsonaro dirá que tem uma “nova política” no bolso da cartola, e fará o possível para nos convencer de que o Centrão é exatamente isso. Uma nova política.

*

SÓCIO-DIRETOR DA AUGURIUM CONSULTORIA, É MEMBRO DAS ACADEMIAS PAULISTA DE LETRAS E BRASILEIRA DE CIÊNCIAS 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.