Um ano bom e doce para a convivência

Esperança é que um dia Israel e todos os povos da região cheguem a acordos de paz

Jack Terpins, O Estado de S.Paulo

06 de setembro de 2021 | 03h00

Hoje, segunda-feira 6 de setembro, ao aparecer a primeira estrela o povo judeu em todo o mundo celebra Rosh Hashaná, o início do ano de 5782. O desejo, a tradicional saudação dessa festa é Shaná Tová Umetuká, que tenhamos um ano bom e doce.

Numa família, como entre colegas de trabalho ou mesmo entre nações, por mais simples que pareça dizer-lhes que o ano seja bom, que as coisas possam ser alcançadas, o mínimo que deve acontecer é nos darmos bem e sermos uma companhia agradável na estrada. É por isso que em 15 de setembro do ano passado, dias antes de Rosh Hashaná, os líderes de Israel, dos Emirados Árabes Unidos e do Bahrein assinaram os Acordos de Abraão. Parecia que o que queríamos durante os anos já estava sendo cumprido.

As comunidades judaicas e o mundo árabe foram “sacudidos” por essa notícia. Celebrações viralizaram nas redes sociais e gestos diplomáticos abundaram. Mas, por outro lado, muitos analistas consideraram essa uma conquista menor, afirmando que a relação anterior entre os países não serviria para falar sobre acordos de paz ou ações que mudariam o curso entre os países ou na região.

Levou apenas um mês para o peso específico dos Acordos de Abraão e a bondade do ano de 5781, que estava começando, serem sentidos. Em 23 de outubro de 2020, Sudão e Israel concordaram em normalizar relações. O Sudão! O país no qual a Liga Árabe disse em 1967: “Não à paz, ao reconhecimento, e não às negociações com Israel” – 41 anos depois, disseram sim à paz.

Depois do Sudão, chegou a hora de um dos acordos mais esperados por milhões de judeus em Israel e no mundo: os tratados de Israel com Marrocos. Estima-se que mais de 600 mil judeus israelenses tenham origem marroquina. O rei Mohammed VI tem trabalhado há muitos anos para revalorizar o componente judeu da nação. Até mesmo a reforma da Constituição de 2011 reconhece explicitamente isso. Mas o acordo entre os países, oficializado em dezembro passado, permitirá que milhares de judeus possam visitar, pela primeira vez, os lugares onde seus avós conviveram com o restante da sociedade por séculos. O monarca disse estar “convencido de que tornaremos esse impulso sustentável para promover as perspectivas de paz para todos os povos da região”.

Menos de 12 meses se passaram desde a primeira assinatura, na Casa Branca, e os avanços da convivência são inegáveis: há uma embaixada israelense em Abu Dabi e outra dos Emirados em Tel-Aviv. Cerca de 200 mil israelenses visitaram o país árabe, apesar das restrições sanitárias. Durante o período, o turismo aumentou, houve 43 voos de Israel para os Emirados Árabes, operados por três empresas israelenses e por quatro emiradenses; o ministro das Relações Exteriores de Israel já fez uma viagem oficial ao Marrocos e aeronaves comerciais israelenses desembarcaram lá pela primeira vez. O embaixador do Bahrein iniciou a direção do escritório diplomático de seu país em Israel e declarou sentir-se “honrado” por sua nova posição. Israel, por sua vez, há alguns dias nomeou seu embaixador no Bahrein.

Esses acordos não são entre governos, são entre povos. As redes sociais permitem que artistas judeus de origem árabe sejam ouvidos do Iêmen ao Iraque, o amor entre diferentes povos se torna viral quando a política e o passado triste não contaminam os laços. Na televisão árabe, do Egito à Arábia Saudita, programas com retratos positivos de comunidades judaicas locais são transmitidos há anos. Nos últimos Jogos Olímpicos, a judoca israelense Raz Sherko e sua homóloga da Arábia Saudita Tahani Alqahtani se abraçaram após a luta, diante dos olhos de todo o mundo. Sem mencionar a incrível história dos judocas Saeid Mollaei e Sagi Muki, iraniano e israelense, respectivamente. Há dois anos, Mollaei foi pressionado pelo governo iraniano a não competir contra Muki. Temeroso, não voltou ao seu país. A Mongólia deu-lhe a cidadania e por ela disputou a Olimpíada de Tóquio; ganhou medalha de prata e dedicou sua vitória a Israel, agradecendo em hebraico pelo apoio. Esses são pequenos, mas significativos sinais de que a mudança de época no Oriente Médio ainda tem muito espaço para crescimento.

Outra reflexão de que esses acordos são entre os povos é que o governo israelense os estabeleceu e a coexistência e a cooperação continuam avançando.

O que podemos pedir para este ano? O mesmo que todo ano, um ano bom e doce.

Vamos dar-lhes a mais sincera esperança de que virá o dia em que Israel e toda a região chegarão a acordos de paz. Não apenas a tão esperada paz com os palestinos. Mas que, um dia, israelenses e judeus de todo o mundo possam visitar o bairro judeu de Bagdá, nadar no Rio Tigre e – por que não? – visitar Teerã. Esse é o nosso desejo, é isso que, com um simples desejo de “um ano bom e doce” queremos que aconteça, ou melhor, continue a acontecer.

Shaná Tová Umetuká, que possamos ter um ano bom e doce em todo o mundo.


ENGENHEIRO, É PRESIDENTE DO CONGRESSO JUDAICO LATINO-AMERICANO

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