Um Brasil altivo e ativo, mas do lado errado

Não nos enganemos. A injustificável invasão da Ucrânia pela Rússia tem apoio tanto de Bolsonaro como de Lula.

Paulo Sotero, O Estado de S.Paulo

02 de março de 2022 | 03h00

A incapacidade de nossas elites dirigentes de identificar o interesse nacional, que as impele a subir no muro sempre que a realidade impõe uma escolha clara, produziu um efeito surpreendente na guerra desencadeada pela criminosa invasão da Ucrânia pela Rússia. Desta vez, o Brasil optou – com firmeza – pelo lado errado.

Inspirado, senão incentivado, por seu mentor, Donald Trump, admirador declarado de Vladimir Putin, o líder brasileiro viajou a Moscou duas semanas antes do ataque para posar em casa de mediador, papel que não tem condição intelectual ou política para exercer. Na volta, justificou a viagem afirmando que ela fora motivada pela preservação de interesses comerciais do País – hoje reduzido a um fazendão exportador de matérias-primas agrícolas e minerais de baixo valor agregado.

Vozes dissonantes, como a do vice-presidente Hamilton Mourão, e inúmeras outras manifestações indicam que a sociedade brasileira não aprovou a embaraçosa sortida diplomática de Bolsonaro e está alinhada com a comunidade internacional na condenação da Rússia, patente desde o início do conflito e expressa pela esmagadora maioria dos países-membros das Nações Unidas na segunda-feira passada. Mas não nos enganemos.

A posição assumida pelo capitão presidente tem respaldo na direita e na esquerda brasileiras. Ela foi endossada pelo ex-chanceler Celso Amorim, principal porta-voz e conselheiro do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para assuntos internacionais. Espantosamente, Amorim defendeu a viagem de Bolsonaro à Rússia em entrevista ao blog de Bela Megale, no O Globo, como uma decisão correta. “Foi a viagem certa, no momento certo, com a pessoa errada, mas a pessoa que tem, né?” O ex-chanceler justificou a viagem de Bolsonaro dizendo que denunciar a Rússia seria “um sinal de submissão a uma agenda de Washington que não tem cabimento”. A declaração de Amorim torna explícita a posição petista de se opor aos Estados Unidos mesmo quando a postura americana tem o respaldo de todas as democracias dignas de respeito na Europa, nas Américas, no Japão e em toda parte.

Da declaração de Amorim se conclui que, estivesse ele de volta ao governo com Lula, o apoio do Brasil à invasão da Ucrânia teria sido uma decisão perfeita e irrepreensível. Mas os cidadãos e cidadãs brasileiros concordam com tamanha estupidez?

Não se trata de pergunta retórica. A continuar o franco favoritismo do ex-presidente nas enquetes de opinião sobre as eleições presidenciais de outubro, a tese petista passará por um teste de realidade, já que as consequências militares, humanitárias, políticas e econômicas da inominável agressão russa a seu vizinho estarão vivas e presentes se o líder do Partido dos Trabalhadores for reconduzido ao poder, em janeiro do ano que vem.

Ações, declarações e posicionamentos do governo ilustram já há algum tempo a desorientação e perda de relevância internacional do Brasil – um país à deriva, desfigurado pela mediocridade, pela pusilanimidade e pelo despreparo de seus líderes para atuar nos tabuleiros internacionais que interessam ao Brasil.

Este não é o primeiro grande fiasco da diplomacia brasileira. Mas será o mais danoso. Doze anos atrás, estimulado pelo então presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, a colocar seu considerável prestígio internacional a serviço da negociação de um acordo nuclear entre o Irã e os cinco membros permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas, Lula, aconselhado por Amorim, anunciou em Teerã, com estardalhaço, as bases de um entendimento que alinhavara com o então presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, e o líder da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, um autocrata até hoje no poder. Surpreendidos pelo anúncio público de princípios de um entendimento sobre o qual não haviam sido consultados, os governos de Estados Unidos, Rússia, China, França e Inglaterra bloquearam a presepada e aprovaram sanções contra o Irã por violação de seus compromissos de signatário do Tratado de Não Proliferação Nuclear.

O episódio levou a um curto-circuito das relações entre o Brasil e os Estados Unidos nunca superado e apenas remediado no governo de Dilma Rousseff, graças ao interesse de Washington de ver o Brasil numa posição de protagonista nas negociações da Convenção da ONU sobre Mudanças Climáticas em Glasgow, no ano passado, que Bolsonaro fez de tudo para sabotar.

A crise internacional desencadeada pela insana irresponsabilidade de Putin é a mais grave desde o fim da guerra fria e não deixa espaço para poses diplomáticas. Isolado e desacreditado, o Brasil pagará alto preço pela insensatez do apoio de Bolsonaro a Putin e o endosso de Lula, via Amorim, ao tresloucado gesto. E é bom que pague, para aprender a se comportar como a nação digna e civilizada que julga ser.

*

JORNALISTA, É PESQUISADOR SÊNIOR DO BRAZIL INSTITUTE NO WILSON CENTER, EM WASHINGTON

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.