Um ‘cristão’ de vários senhores

Segundo o ‘Evangelho’, só se pode servir a um senhor; e o ‘terrivelmente evangélico’ Mendonça tem ao menos quatro.

José Nêumanne, O Estado de S.Paulo

08 de dezembro de 2021 | 03h00

Em 10 de julho de 2019, o presidente Jair Bolsonaro disse, em culto evangélico na Câmara dos Deputados, e depois repetiu no plenário, que indicaria um “terrivelmente evangélico” para vaga no Supremo Tribunal Federal (STF). “Terrível”, segundo o dicionário Aurélio, vem do latim terribile e quer dizer “que infunde ou causa terror”. Ou ainda: “muito ruim, péssimo” (página 1.951). “Evangélico”, segundo a mesma fonte, “relativo ao Evangelho; ou a seus ditames” (página 854). Esse foi o argumento usado por ele ao indicar o pastor presbiteriano André Mendonça para a vaga no STF com a aposentadoria do decano Marco Aurélio Mello, em julho último.

Em momento algum Sua Excelência referiu-se aos ditames da Constituição para a seleção do nome para completar o “pretório excelso”, conforme o artigo 101 da Constituição revisada: “O Supremo Tribunal Federal compõe-se de 11 ministros, escolhidos dentre cidadãos com mais de 35 e menos de 75 anos de idade, de notável saber jurídico e reputação ilibada”. Há dúvidas se o membro escolhido pelo chefe do governo e saudado pela primeira-dama em língua indecifrável por humanos, por mais poliglotas que sejam, abrigue em seu currículo esses predicados. De sua obra jurídica, a mais notória é a coordenação de um livro em homenagem aos dez anos de presença de Dias Toffoli na casa em que será acolhido. Não se pode dizer que seja justo, mas grato, certamente, o é o funcionário com carreira apadrinhada na Advocacia-Geral da União (AGU) pelo ex-chefe.

Em 30 de outubro de 2002, quando exercia a função na repartição no norte do Paraná, o pastor tido como jurista assinou na Folha de Londrina artigo intitulado O Povo Se Dá uma Oportunidade sobre a vitória do candidato do Partido dos Trabalhadores (PT) à Presidência da República. Pontificou: “Temos o primeiro presidente eleito do povo e pelo povo”. Rasurou a História. O pernambucano Aristides Inácio da Silva, pai de Lula, foi ensacador no Porto de Santos, e estivadores não ganham salário mínimo. Em setembro passado, um desses trabalhadores nesse porto ganhava, em média R$ 7.501 mensais, o triplo do que o governo do Estado de Minas Gerais paga, em média, a professoras, ofício de Júlia Kubitschek de Oliveira, mãe do telegrafista, médico, prefeito de Belo Horizonte, governador de Minas Gerais e presidente da República Juscelino. Quando Mendonça entrou no serviço público, o idolatrado em seu artigo tinha deixado de ser operário (qualificado) da Villares para assumir um posto de direção no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, hoje do ABC, com uma jornada de trabalho muito menor e um salário superior ao de um operário privilegiado de montadora de automóveis.

A militância impressa e assinada leva o observador mais atento a lembrar algo mais comprometedor na biografia do novo ocupante da cúpula do Poder Judiciário nacional. Indicado pelo patrono da vida inteira, Dias Toffoli, advogadinho do PT desde o estágio, Mendonça foi feito chefe da AGU por Michel Temer, a pedido de Jair Bolsonaro, que tinha acabado de derrotar o candidato-poste do partido de Toffoli & Mendonça. Desde então, passou a desafiar um preceito do Evangelho. “Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou há de odiar um e amar o outro ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom” (Mateus, 6:24). Mamom, nos estudos bíblicos, define não apenas dinheiro, como registram as traduções mais conhecidas, mas também tudo o que diga respeito a patrimônio de bens materiais. Restará ao reverendo a desculpa de que ele não ofende o preceito de Nosso Senhor, de não ter dois senhores, por servir a, pelo menos, o que é público e notório, quatro: Toffoli, patrono de suas promoções na casta burocrática; Lula, líder de ambos, agora em nova disputa pela Presidência; Bolsonaro, que com este disputará a própria permanência no cargo; e Gilmar Mendes.

Comemorado pelo pranto festivo de Michelle Bolsonaro, André Mendonça herdará, ao assumir o gabinete do primo de Fernando Collor, várias causas que cuidam de interesses da famiglia presidencial. Uma delas repousa no berço esplêndido da dúvida da origem de R$ 89 mil depositados na conta de madame por Fabrício Queiroz, subtenente da PM fluminense e suspeito de ser pau-mandado de milicianos.

Deus é testemunha de que o indicado anterior pelo capitão na Presidência, Kássio Nunes Marques, tem negado sistematicamente o brocardo segundo o qual ministros do STF se dispensam de fidelidade a padrinhos ao longo do exercício. Porque não mais podem ser alcançados pelo alfanje da demissão. Talvez nem a infinita sabedoria divina será capaz de profetizar que ginástica absurda o fâmulo de Mamom terá de praticar para servir aos senhores que dele esperam, no mínimo, gratidão eterna enquanto dure.

Por enquanto, tudo indica que os quatro desejam a derrota de Sérgio Moro no primeiro turno. Mas em outubro de 2022, se Bolsonaro realizar o sonho de disputar o segundo com Lula e vice-versa, a que causa se dedicará o servidor de Mamom?

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JORNALISTA, POETA E ESCRITOR

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