Um dia de motociata para seis sem governo

Presidindo sem governar, Bolsonaro obedece à norma do repouso no sétimo dia como se houvesseproduzido nos outros seis.

Rolf Kuntz, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2022 | 03h00

Trabalhar cansa, escreveu Cesare Pavese no título de um poema. As mesmas palavras foram usadas como título de um livro – Lavorare Stanca – publicado em Florença em 1936, quando o poeta vivia numa casa vigiada pelo regime fascista. É difícil dizer se Jair Bolsonaro leu esse livro, ou qualquer outro, e se ele realmente gosta de anapestos. Mas sua passagem pela Presidência parece marcada por aquele título, e, mais que isso, por um horror à cultura talvez maior que o dos antigos líderes fascistas. Quanto à cultura, seu desapreço é evidente na rejeição da ciência, no desmonte do Ministério da Educação e na devastação da área cultural do governo, entregue a um defensor do uso da Lei Rouanet para financiar a promoção da posse de armas.

Trabalhar cansa, concordarão letrados e iletrados. O Criador, segundo a Escritura, cessou o trabalho no sétimo dia, convertido depois pelos homens em dia de repouso e oração. Religioso à sua maneira, o presidente Bolsonaro reinterpretou a regra, preservando o repouso e dispensando a causa do cansaço. Assim, depois de mais uma semana improdutiva, o presidente permitiu-se um passeio de moto aquática no Lago Paranoá. Liderou um desfile de embarcações, numa exibição batizada como “lanchaciata”. Foi uma variação da costumeira “motociata”, mas só mudaram os veículos e o ambiente.

Como em outros fins de semana, o presidente exibiu aos seguidores, aparentemente fascinados, habilidades pouco valorizadas, pela maioria dos analistas, como atributos para as funções presidenciais. Franklin Roosevelt, dependente de cadeira de rodas, tirou seu país da depressão, ajudou a derrotar o nazismo e foi um dos construtores de uma nova ordem mundial. Único presidente americano a exercer mais de dois mandatos, foi uma das figuras mais importantes de seu tempo, dentro e fora dos Estados Unidos, embora pouco eficiente no papel de motociclista ou de piloto de jet sky.

Sucesso entre bolsonaristas, a “lanchaciata” foi noticiada em jornais na segunda-feira, 16 de maio. O Estadão destacou também, na mesma edição, a fila de espera do Auxílio Brasil. Segundo cálculo baseado em dados de municípios, 1,3 milhão de pretendentes aguardavam participação no programa, versão bolsonariana – e meramente eleitoreira – do Bolsa Família. Em janeiro, o Executivo havia anunciado a absorção de toda a fila. Citado na imprensa em fevereiro de 2020, início do segundo ano do mandato presidencial, o problema reapareceu na imprensa em 2021 e no começo de 2022, sempre com mais de 1 milhão de famílias à espera da ajuda.

Os tropeços na execução dos dois programas, o original e o rebatizado, são característicos de um presidente mais dedicado a “motociatas” e ações eleitoreiras do que à rotina da administração e da solução de problemas. Trabalhar cansa, governar envolve trabalho e Bolsonaro conseguiu, em mais de três anos no Palácio do Planalto, evitar a maior parte desses incômodos. Os efeitos desse jogo para a maioria dos brasileiros são claramente indicados por alguns números.

Com 11,9 milhões de desempregados no primeiro trimestre, 11,1% da força de trabalho, o Brasil se mantém como um dos países mais assolados pela desocupação, raramente superior a 7% nas economias emergentes e desenvolvidas.

O País também se destaca pelo aumento do custo de vida. A inflação, repetem Bolsonaro e seu ministro da Economia, é hoje um problema mundial, mas a história completa é mais complicada. A alta anual de preços passou de 7,8% em fevereiro para 8,8% em março na média de 38 países da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). Mas só em oito desses países a taxa acumulada superou 10%. Em 24, nem chegou a 8%. No Brasil, a inflação acumulada subiu de 10,54% em fevereiro para 11,3% em março e 12,13% em abril. Combinado com o desemprego e com os juros altos, esse encarecimento da cesta de consumo é devastador para dezenas de milhões de famílias.

Tudo vai melhorar, promete o ministro da Economia. Mas sua equipe elevou de 6,55% para 7,9% a inflação estimada para o ano, e no mercado há quem projete mais uma taxa em torno de 10%. Além disso, o ministério manteve em 1,5% a previsão de crescimento econômico em 2022, cerca de metade da expansão global (3,1%) indicada pela ONU.

Esses números dão ideia de como estará o País em janeiro, quando o presidente eleito assumir seu posto. Mas o quadro deve incluir, além da estagnação econômica, da alta inflação e do desemprego elevado, compromissos fiscais assumidos com objetivo eleitoral. Está pressuposta, naturalmente, a normalidade institucional, ameaçada por um presidente em conflito com outros Poderes e, mais amplamente, com a ordem democrática. Não haverá surpresa se, derrotado nas urnas, ele tentar a contestação do processo eleitoral, como fez nos Estados Unidos seu guru Donald Trump. Também isso combina com o escasso apego de Bolsonaro ao trabalho. Afinal, é difícil trabalhar e, ao mesmo tempo, se exibir para seguidores dispostos a ouvir ataques ao Judiciário e ameaças à democracia.

*

JORNALISTA

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.